Um país pequeno e sem recursos como Portugal deve investir na rapidez dos processos e no cumprimento das regras, como fazem todos os países pequenos bem administrados. Os portugueses não são deficientes de entendimento e têm a facilidade do improviso. Têm vícios enraizados, que no estrangeiro desaparecem e em Portugal fazem parte do sistema. Um olhar pelos jornais e as notícias dão-nos um retrato desse país e desses vícios. Habituámo-nos a considerar normais comportamentos que são anormais e toleramos instituições e métodos que em países regrados teriam sido removidos como um obstáculo ou criminalizados e punidos. O nacional-porreirismo, diluído no sentimentalismo anémico, rege a pátria.
Achamos normal Portugal ser, em 178 países, o 32º mais corrupto. Segundo o relatório da Transparency International, uma entidade fiável. Porque o sistema de Justiça, segundo o mesmo relatório, não funciona. E porque somos cúmplices da corrupção. Achamos normal que um autarca condenado por corrupção continue a ser presidente de câmara. Achamos normal que ex-ministros sejam arguidos num caso de corrupção e esperem anos por uma sentença definitiva. Achamos normal que exista um sistema de Justiça feito para os ricos, e para os honorários milionários, e outro para os pobres. Achamos normal a tortura e a prisão preventiva. Achamos normal esperar 15 anos por uma decisão judicial. Achamos normal que os crimes e casos prescrevam antes de irem a julgamento. Achamos normal que os magistrados, num momento em que são pedidos sacrifícios nacionais, mandem o seu representante sindical dizer que a sua missão é "incomodar" os boys do PS e que são perseguidos no corte do salário. Achamos normal que outro representante sindical do Ministério Público, essa entidade que assusta os políticos e coloca pedaços do processo nos jornais para os abater, diga que o relatório do Conselho da Europa sobre Justiça foi manipulado pelo Governo para denegrir a justiça portuguesa. Este relatório conclui que os níveis de remuneração são bons, 4,2 vezes mais altos do que os dos portugueses, para a magistratura. Sobretudo para "juízes em fim de carreira". Ao todo, temos mais juízes, procuradores, advogados e notários por habitante do que muitos países que vivem melhor do que nós. Semelhante a nós, nestes números, só a conhecida Itália, que é o país da Europa que mais se parece com Portugal em muitas coisas, todas más.
O "El País" deu-nos conta disso. Na última década, Portugal foi dos países que menos cresceram no mundo, junto com o Haiti (leram bem, o Haiti) e a Itália. A Itália está entre as dez primeiras economias do mundo e nós não. Não crescemos porque, entre outras coisas, o sistema de Justiça não funciona nem é célere, porque a corrupção se disfarça de burocracia e porque a produtividade é baixa num modelo de desenvolvimento económico falhado. Aqui chegados, ao modelo falhado, devíamos estar a arregaçar as mangas e a cavar um novo trilho, com gente nova. Certo? Errado. Cavaco Silva, que foi o maior responsável desse modelo falhado, recandidata-se como se nunca tivesse estado lá e confessa-se "triste" com a nossa crise; e o homem que o PSD arranja para a mesa das negociações com o PS, sobre esse documento mítico que dá pelo nome de Orçamento, é o mesmo que conhecemos do tempo de Cavaco primeiro-ministro. Ou seja, um dos responsáveis. Entre Catroga e Teixeira dos Santos, descubra as diferenças.
Como dizia o príncipe de Salina no "Leopardo" de Visconti (e não no de Lampedusa, onde a frase é diferente) é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma. Sentados à mesa vazia de farturas, remendando a manta de retalhos, como se o país dependesse apenas de um orçamento e não daquilo a que não teve direito: visão política. Somos provincianamente governados porque nos deixamos provincianamente governar e temos repulsa e atração pela autoridade, traço distinto do caráter nacional que devemos ao dr. Salazar e aos seus 48 anos de medo e miopia.
Uma notícia do "Público" diz-nos que a REFER resolveu poupar 1,2 milhões de euros deixando de comprar eletricidade à EDP e passado a comprá-la à Iberdrola. Alta e média tensão. A EDP gasta dinheiro a rodos em campanhas publicitárias e spinning das agências de comunicação (muitas notícias sobre excelentes desempenhos) e gasta-o para ser amada. Será respeitada quando nos der, aos consumidores de baixa tensão, a hipótese que deu à REFER, de comprar energia mais barata; e deixarmos de pagar os delírios do dr. Mexia and friends. Esta semana desembarcou no burgo uma eminência suíça (IMD Business School, Universidade de Lausanne), Stéphane Garelli, que disse preto no branco: "Portugal precisa de ter uma estratégia económica". E nem tínhamos reparado. .
Texto publicado na edição da Única de 30 de outubro de 2010