O Expresso no Afeganistão
Um gigantesco bunker chamado Cabul
Na capital do Afeganistão, não se vêem ocidentais a andar a pé nas ruas. O bar mais procurado pelos civis brancos em vez de um letreiro tem uma muralha de sacos de areia à entrada.
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Bunker num dos campos militares de Cabul
Micael Pereira
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Fui dar o meu primeiro passeio civil ao centro de Cabul. Ao terceiro dia no país, saí finalmente por umas horas do circuito da protection force dos Comandos, com a ideia de apalpar terreno, fazer contactos para reportagens a sair na edição impressa do Expresso e preparar uma transferência mais tarde para um hotel.
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Para todos os militares que estão no Afeganistão, incluindo os portugueses, a vida fora dos quartéis e dos veículos blindados é uma realidade longínqua e desconhecida. A cidade apenas existe pelo vidro dos Hummers que atravessam o tráfico caótico das rotundas com uma ginástica nervosa e apressada.
O mais longe que conseguem ir é aos mercados afegãos que a ISAF, a missão da NATO, permite existirem dentro dos próprios compounds e onde se vende artesanato, telemóveis chineses e coisas tão inesperadas como guitarras eléctricas e trompetes indianos. É uma guerra estranha: com muitos dos confortos do primeiro mundo, mas claustrofóbica.
Se bem que Cabul está muito mais calma do que outras cidades a sul (onde os IED subiram para uma média recorde de 60 por semana), todos os dias há pelo menos um incidente na zona da capital. Estar no momento errado à hora errada é uma lotaria ingrata que a ISAF tenta combater como pode: reduzindo o risco ao máximo.
Lição número um do dia: evitar os táxis amarelos. À saída do portão principal, depois de passar a pé dois checkpoints e uma gincana de betão e arame farpado, encontrei a pequena praça de carros estacionados, esperando pelo melhor tipo de clientes que se pode ter no Afeganistão: homens com dólares ou euros no bolso e pouco treinados a regatear preços.
Mesmo assim, e depois de uma pequena discussão, com um miúdo a servir de intérprete, o motorista afegão do primeiro carro da fila aceitou baixar uma ida e volta ao centro de 40 para 20 dólares (o dobro do que se pagava em 2006).
A guerra e toda a economia paralela que vem atrás dela transformou-se na segunda maior fonte de receitas do país, a seguir ao ópio, e isso reflecte-se invariavelmente em coisas como os táxis. Por isso não me queixei muito. Parecia ser um bom negócio, tendo em conta que o táxi teria de esperar pelo regresso.
O problema foi o miúdo intérprete ter ficado em terra, porque a partir desse momento a comunicação com o motorista morreu. O homem não sabia uma palavra de inglês e, como vim a perceber mais tarde, também não sabia ler uma palavra da sua própria língua. Estávamos à deriva numa cidade de quatro milhões de habitantes.
Burcas e bares
Em oito anos de guerra, Cabul cresceu desmesuradamente (a população quadriplicou) e adaptou-se aos milhares de estrangeiros civis que vieram para cá trabalhar nas organizações não-governamentais e nas empresas que alimentam a complexa e lucrativa logística da máquina militar. Há novos hotéis e restaurantes. E bares a servir bebidas alcoólicas, apesar do regime muçulmano continuar a ser o mais conservador do mundo. Um contra-senso que obriga os estabelecimentos a lógicas muito próprias, num contexto medieval, onde se vêem mulheres de burcas, cobertas dos pés à cabeça, cruzando as avenidas com crianças doentes ao colo.
O pequeno passeio revelou-se mais complicado do que planeara. Apesar de lhe ter dado o nome do hotel e a referência da rua, não havia forma de o taxista dar com o sítio. Mesmo depois de termos encontrado a rua certa, toda ela em terra, percorrêmo-la para cima e para baixo várias vezes sem termos sorte.
Foi a persistência que nos ajudou. Tínhamos passado pelo edifício sem o saber: um prédio de ar decrépito e pouco recomendável, de guardas à porta. Por dentro, no entanto, uma surpresa: um pátio grande com uma piscina e relvado, à volta do qual a vida do hotel é feita.
A cidade parece estar cheia de segredos assim. Num quarteirão mais para norte, tivemos o mesmo drama de não dar com um bar-restaurante sobre o qual eu tinha lido no guia de viagens da Lonely Planet, por mais que corrêssemos a rua indicada.
Nenhuma das pessoas com quem nos cruzávamos parecia ter sequer noção da existência do local. Até que o padrão que tínhamos visto no hotel veio ao de cima: um edifício baixo e sujo, escondido atrás de um muro de sacos de areia e sem qualquer letreiro, tinha um guarda de Kalashnikov na mão, sentado descontraidamente, que respondeu que era ali o L'Atmosphere, descrito assim pelo Lonely Planet: "É um restaurante, mas não são muitos os que o procuram pela comida. Especialmente no Verão, quando a piscina está cheia, este é um bar puro e simples, e é o ponto de encontro para expatriados mais popular na cidade".
Essa foi a segunda lição do dia: os civis vêm a sítios como o L'Atmosphere para se esquecerem da guerra, mas no Afeganistão a guerra não arreia o pé da porta.


