24 de abril de 2014 às 11:57
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Um desejo para 2010

A pequena história que relato fala da necessidade de olhar para os "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mais invisiveis. Faço votos de que 2010 seja de procura desse conhecimento que nos faz falta, mas também, e acima de tudo, o de construção, independentemente da crença, do respeito e da dignificação da condição da nossa humanidade comum.
Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
Crónicas de uma Muçulmana - Um desejo para 2010 fotos de luz - internet

Quando chegaram as férias de Natal, tivemos o tão desejado reencontro com os nossos amigos israelitas e seus filhos, aqui, em nossa casa. Temos uma grande amizade desde há 14 anos, altura em que iniciámos os nossos estudos para o doutoramento na Universidade de Cambridge. Eles ficaram por lá, nós regressámos ao nosso país. Sendo eles judeus e nós, muçulmanos xiitas ismailitas, trocámos presentes pelo Hannukah e pelo Dia do Imam, e também partilhámos do espírito geral português de celebração do nascimento de Jesus. Sendo judeus e muçulmanos europeus, se não fosse a celebração em redor do nascimento de Cristo, talvez não fosse possível o reencontro nesta altura do ano. A época evocava factos significativos das nossas identidades religiosas e a importância das tradições, da educação e dos valores no futuro das vidas dos nossos filhos. Para aqueles que costumam ler o meu blogue, saberão exactamente que, ao dizer isto, não pretendo de forma alguma, minimizar o importante papel que o Profeta Issa (Jesus) teve no entendimento e na formação da religião que pratico.

À medida que o Velho Ano fechava os seus dias, e sendo muçulmanos europeus, juntá-mo-nos aos nossos amigos e vizinhos do prédio para receber o Novo Ano. Integrá-mo-nos nas tradições comuns e enviámos a todos os nossos amigos, familiares e amados, os melhores votos para 2010. Através dos telemóveis e da Internet ligá-mo-nos ao mundo, e o mundo estava ligado a nós, pelo pensamento, nos corações, e nas orações.

No entanto, talvez porque esteja mais exposta e seja mais desafiada a reflectir sobre as identidades conflituosas e confusas, não posso deixar de sentir receio sobre o presente e o futuro das relações humanas, especialmente daquele que tem medo do Outro - do desconhecido, do menos vísivel, ou mediatizado, contudo real, e não necessariamente demonizável. Para tornar este pensamento mais claro, vou usar o exemplo da história contada por Azim Nanji que encontrei num artigo inspirador :

"Alguns homens sábios que estão sentados numa praça, numa aprazível noite de verão, faziam o que os homens sábios fazem - partilhavam um tipo de sabedoria, ao mesmo tempo que tentavam resolver os problemas do mundo! Enquanto estavam sentados num banco, observavam uma jovem mulher que andava de um lado para o outro, parecendo que procurava algo que perdera. Não resistindo à curiosidade, perguntaram-lhe o que procurava e ela respondeu: 'perdi um brinco'. Perguntaram de novo: 'mas sabe exactamente onde o perdeu?'. 'Não, respondeu a mulher. Não sei onde o perdi'. Perplexos perante a resposta, os homens sábios questionaram de novo: ' Então porque procuras neste lugar apenas, andando de um lado para o outro?' E ela responde: ? Porque este é o único lugar onde existe um poste de iluminação'"

Nanji refere-se aos "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mas que existem, e para os quais também devemos olhar e conhecer. A esse desejo acrescentaria os votos de iluminação sobre a nossa humanidade comum, construída sobre a diferença. Dela retiramos a beleza e a riqueza das mundividências que foram moldando civilizações humanas e dando respostas variadas e criativas perante crises económicas, sociais, e desastres naturais. Que 2010 seja o início de um compromisso de construção, independemente da crença, de relações fundadas no respeito e na dignificação da nossa humanidade comum.


Click to see the english version (versão inglesa)

*A Salaam significa paz

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A influência da formação religiosa nas crianças
Apenas para dar conta de uma pequena experiência levada a cabo por um psicólogo israelita, em Israel. A experiência destinava-se a confrontar moralmente um grupo de crianças e jovens, relativamente a uma pequena história.

Assim, foi lida a história, retirada da bíblia (AT), onde Deus exortava Josué a dirigir os seus exércitos contra uma cidade, a entrar nela e a matar todos os seres vivos que encontrasse dentro dela. O que foi feito!

Depois, o grupo de jovens foi confrontado quanto à bondade ou maldade da história. Cerca de 2/3 dos jovens responderam que a história era moralmente positiva, justa e correcta. Apenas uma pequena parte dos jovens considerou a história totalmente errada sob um ponto de vista moral.

Querendo ir um pouco mais longe, o dito cujo psicólogo fez a mesma experiência com outro grupo de jovens, contando a mesma história. Teve apenas o cuidado de substituir o nome de Josué pelo nome de um general chinês e Israel por um reino da Antiga China. Nesse caso, cerca de 3/4 dos jovens responderam que a história era moralmente reprovável.

Moral da História: quando eliminamos o elemento religioso da vida das pessoas, a perspectiva moral que estas têm, sobre o que é certo ou errado, muda significativamente.

Lamentavelmente, os jovens não têm conhecimentos e massa crítica que lhes permitam enquadrar devidamente o que lhes metem na cabeça. Anos mais tarde, já não há nada a fazer. A adesão incondicional à religião já foi alcançada.

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AHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHHAHAHHAHAHHAHA Ver comentário
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Salaam Aleikum
Um dos meus desejos para 2010 é aumentar o conhecimento da cultura islâmica. Apesar da minha ignorância entendi há muito que os do meu clube, da minha terra, do meu partido político, do meu país, da minha civilização, etc, não são melhores nem piores que os chamados adversários, e que há bons e maus em todos os lados. Visto pelo lado religioso se alguma religião fosse totalmente boa só tinha Deus e se outra fosse totalmente má, só tinha Satanás. Afinal todas a religiões monoteístas têm ambos.
Dito isto, não tenho a menor dúvida que a maioria dos muçulmanos (os menos mediáticos que refere no seu texto) são gente tão pacífica, laboriosa, cortês e hospitaleira como os demais. Cabe às pessoas esclarecidas não fazer generalizações abusivas e cabe àqueles que praticam actos reprováveis saber que estão a comprometer toda uma civilização e em última instância, a paz no mundo.
Termino com um grande desejo para 2010: que os cidadãos ocidentais possam exercer o seu trabalho e as suas missões humanitárias no mundo muçulmano sem serem raptados, sequestrados ou mortos.

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Guerra santa ou São Petróleo?
Quando tento perceber o que está na origem do enfrentamento entre os seres humanos encontro uma única causa real e uma infinidade de causas virtuais ou fictícias. A única causa real pode traduzir-se por bem estar material o qual, sendo conseguido à custa do mal estar dos outros de hoje ou do futuro, constitui uma combinação de egoísmo e de avareza.
A infinidade de causas virtuais ou fictícias que se podem inventariar são formas de manipular os outros no sentido de nos ajudarem a conseguir aquilo que queremos e/ou desculpas para legitimar privilégios.
O ser humano é o maior predador à face da terra mas parece distinguir-se dos demais predadores do reino animal em dois aspectos:
- Sabe quando faz aos outros aquilo que não quer que lhe façam a ele. O ser humano tem consciência.
- É capaz de agir como predador mesmo sem necessidade vital. Para um ser humano não há limite para o bem estar e para a riqueza acumulada.
Pensando desta forma, a chamada guerra de civilizações que estamos a viver não tem qualquer fundamento religioso embora a religião (as diferenças de cariz religioso) seja usada como arma na luta pelas riquezas que nos proporcionam o bem estar liderado por "São Petróleo".
Alguém acredita, por exemplo, que o problema entre o ocidente e o Irão tem alguma coisa a ver com religião por mais que o regime iraniano seja teocrático e desrespeite direitos humanos? Se a lógica fosse essa, a Arábia Saudita já tinha sido invadida.
Questões pertinentes...
O meu maior desejo (e preocupação) para 2010, como agnóstica, é que os meus amigos Hindus, que se doutoraram no Massachusetts Institute of Technology , “pós”amigos MIT, possam passar as férias de Natal comigo para jogarmos uma partidinha de criquete…

Enquanto isso,cristãos, judeus, muçulmanos, reflectirão sobre as questões mais pertinentes do século XXI, XXII, XXIII,…Afinal o nosso Issa:

É profeta e Messias?!?
É Messias e profeta?!?
Não é profeta mas é Messias?!?
Não é Messias mas é profeta?!?
Não é profeta nem Messias?!?
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áhhh, afinal é mas não é...pois, depende.
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Blogues pertinentes... Ver comentário
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Que 2010 seja um ano de luz...
Deus organiza o bem e desorganiza o mal.
A base da sociedade muçulmana é crer em Deus (tenha lá o nome que tiver..( Issa)... fazer o bem e inibir o mal. Subjugar o mal é questão de cumprir as orações, a fé nas orientações infalíveis de Deus, paciência, ordem, disciplina e determinação para mudar.

Importante respeitar qualquer crença religiosa, mas não menos importante "os islãos" respeitarem outras...diferentes das suas. Só assim o entendimento entre as pessoas, as sociedades é possível.
religiões e estado laico
Mulçulmanos, cristãos, judeus, hindus poderão viver em paz apenas se fizerem apelo a uma instância política neutra e laica. Caso contrário não, porque se um estado for islâmico, por exemplo, vai decretar leis que chocam com as outras religiões. O Estado português é laico e por isso pode aceitar todas as religiões desde que respeitem a lei. O islamismo que quer se tornar Estado hostiliza assim outras religiões. O Estado não pode ter religião, embora possa sofrer influências de grupos religiosos.
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