23 de abril de 2014 às 12:07
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Um democrata leva tempo a fazer

António Tavares Teles (www.expresso.pt)

No "Escrito na pedra" de ontem, o "Público" cita Jean-Paul Sartre: "Quando alguma vez a liberdade irrompe numa alma de um homem, os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem".

Assino por baixo. Inteiramente.

Bitaites


1. Os militares que fizeram o 25 de Abril - e dentre eles há que destacar sem qualquer dúvida Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Vítor Alves e Melo Antunes - cumpriram aquilo que prometeram a si próprios e ao povo português: puseram fim ao fascismo salazarista-caetanista e abriram as portas à democracia, à descolonização e ao desenvolvimento. E só quem não sabe, não se lembra ou faz por esquecer o que era o Portugal dos anos 40, 50, 60 e até do início da década de 70, pode deixar de estar-lhes eternamente grato. Porque era a miséria, o analfabetismo, o atraso, a Pide, etc. etc., vivendo este povo numa espécie de Idade Média que nunca ouvira falar, ou muito vagamente, da Revolução Francesa, da Revolução Industrial, da Arte moderna e contemporânea, dos avanços científicos, enfim, de tudo quanto de importante e decisivo se passava no Mundo, com um único direito - trabalhar, quando havia trabalho, para não morrer à fome - e uma única escapatória: a religião, melhor dizendo, a Igreja Católica, pilar e cúmplice do regime e aliada fiel de Salazar durante esses longos anos de trevas.

2. Só que, se a Democracia se pode instaurar por decreto, isto é, por Constituição expressa, um democrata leva tempo a fazer. E, por cá, continua muito longe de estar feito. Assim, tal como a entrada na Europa não fez de nós europeus, também o advento da Democracia não fez de nós os democratas de que essa forma (superior) de viver em sociedade exige. Culpa do 25 de Abril? Não, evidentemente: culpa, isso sim, dessa miséria, desse analfabetismo, desse atraso, dessa subserviência aos senhores da terra e da religião, cujo Ministério da Defesa se situava ali mesmo ao Chiado, mais concretamente na António Maria Cardoso, sob o comando de resto de um altíssimo patrono com sede em São Bento: Salazar "himself".

3. Pelo que confundir (como hoje muita gente faz) o 25 de Abril e a Democracia com aquilo que sucessivas gerações de políticos, pseudo-políticos, de empresários, de pseudo-empresários, e por aí fora, em grande maioria virados apenas para a sua própria promoção financeira, lucro fácil e a aparência social (com total desprezo aliás pelo resto), só poderia mesmo sair da cabeça de alguns fulanos que há 40 anos, financeira ou socialmente, nada ou pouca coisa eram, a não ser subservientes, medrosos, atentos - e- obrigados- a- bem- da- Nação, e de chapéu na mão, é claro. Fulanos esses que, de repente, começaram a imaginar-se de pelo menos de cartola... E assim, à terrível Idade Média em que vivíamos, acabou por suceder essa gente e uma triste classe média que a Banca alimentou, o que (país pequeno e pobre apanhado em plena crise mundial) nos levou em grande parte a esta actual falência, sem que ninguém, por temor, por pudor ou por desfaçatez (no caso dos políticos) diga hoje em dia a verdade a ninguém .

Moral da história? Nenhuma. Porque não há qualquer moral em nada disto. Aliás, nem moral (no feminino) nem no masculino: porque (como todos sabemos) o moral também anda pelas ruas da amargura.

4. Já uma vez o disse aqui, mas digo outra vez: sou do Barça desde o início dos anos-60, quando em Madrid reinava o Franco, e os meus amigos catalães ("salut", Cucurull e tantos outros) me ajudaram a saír da Península, num tempo em que a "Europa" se situava de facto para lá dos Pirenéus. Ora, nesse tempo, o Barça era sem dúvida o maior símbolo de uma Catalunha que sempre bateu o pé à ditadura franquista, por mais que Raimon (outro símbolo) enchesse salas a cantar em catalão (uma atitude muito corajosa e perigosa, diga-se) e uma Resistência, visível ou clandestina, nunca tivesse (muito pelo contrário) baixado os braços. Por isso, lamento (e muito) que o Pep Guardiola não tenha batido, em Camp Nou, o Real (perdendo assim em definitivo o título de campeão) e tenha sido afastado pelo Chelsea da final da "Champions". Mas, pelo visto, o "combóio" inglês (tal como o do Inter de Mourinho, há uns anos, em idênticas circunstâncias) deu fruto. Perguntando-me eu no entanto três coisas: será que Guardiola (e aqui estou com Octávio Machado, o que é raro mas acontece) não tem plano-B? Será que o Barça chegou a este cume da época fora de forma física? E será que Tello, Cuenca, Tiago Alcântara e outros dos jovens da cantera estarão desde já preparados para aventuras destas? Uma coisa é certa: nem Xavi, nem Iniesta, nem muito menos Messi estão no seu melhor. Longe disso. PS. O Real foi eliminado pelo Bayern. No que me diz respeito, ainda bem.

5. Morreu Miguel Portas. Uma morte que nem ele nem nós merecíamos.

6.Leio n' "O Jogo" que o FC Porto "caminha para rei do milénio das principais Ligas europeias". Comentários para quê?


Bicuaites

1.Título do "Correio da Manhã": "Holanda fica sem Governo".

Porque é que não experimentamos isso por cá?

2. Título do "Público": " Salários em Portugal muito abaixo da média europeia".

Bruxo!

3. André Pipa: "As escolhas de Jorge Jesus nesta recta final não ajudam à redenção junto dos adeptos saturados de 'quases' e títulos menores".

Já estou a ver daqui Jesus (na sua habitual bazófia) a dizer, e com razão: se o presidente aguenta com apenas dois títulos em dez anos, eu também posso aguentar. Porque, como diria o Vasco Santana, bazófias há muitas.

4. D'"O Jogo": "Gémeo de Lima gostava de vê-lo no FC Porto".

Com o Janko e o Kleber, parece-me difícil...

5. Na secção-Braga, do mesmo "O Jogo": "Jardim é segundo no pódio dos pontos, só a melhor pontuação de sempre, com a chancela de Domingos, não poderá ser batida esta época". E em título: "Máximo de Jesualdo visto do retrovisor".

Deve ser contudo um retrovisor muito fraquinho: se nem sequer avista o Jesus ...

6. Título do "Correio da Manhã": "Rosa Mota pede ajuda para tratar cancro".

Se um "cancro" destes não mata o "CM", é que o "CM" é imortal!

7. Ainda d' "O Jogo": No seu conhecido Tribunal, os três árbitros-julgadores - Jorge Coroado, Pedro Henriques e José Leirós - por uma vez completamente de acordo sobre os pontos mais polémicos da arbitragem de Carlos Xistra no Nacional-Sporting.

Não devem ter visto o mesmo jogo.

 

De Raimon (canção de meados dos anos-60, tradução para português de Manuel de Seabra)

Digamos não

Agora que estamos juntos

direi o que tu e eu sabemos

e que muitas vezes esquecemos:

Vimos o medo

ser lei para todos

Vimos o sangue

- que só faz sangue ??"

ser lei do mundo.

Não,

Eu digo não,

digamos não.

Nós não somos deste mundo.

Vimos a fome

ser pão

dos trabalhadores.

Vimos fechados

na prisão

homens cheios de razão.

Não,

eu digo não,

digamos não.

Nós não somos deste mundo.

Não,

digamos não.

Nós não somos deste mundo.


 

António Tavares-Teles escreve de acordo com a antiga ortografia

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