20 de maio de 2013 às 1:26
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Um charuto para o dr. George

António Tavares Teles

Excluída a rádio, banida a televisão, resta-me este hábito - eu quase diria, este vício- de ler jornais. Uns por gosto, outros por ofício, outros ainda por uma espécie de atracção-repulsa que me faz frequentá-los com algum gozo embora com muito nojo, sobretudo no caso de certos cronistas, ou analistas ou seja lá o que for que - confesso - me fazem hesitar entre o recurso à indignação ou ao humor. Só que, na circunstância, por vezes o recurso ao humor não é fácil, convenho. E á aí que me refugio nos palavrões, não contra eles - esses cronistas- mas em especial, contra as suas mãezinhas, que de resto não devem ter culpa nenhuma no caso, coitadas. Só que é assim e não há nada a fazer.

1. Se alguma coisa há realmente para perceber na "Opinião" de sexta-feira do Vasco Pulido Valente, é que "Sarkozy lembrou que sete anos de um governo socialista (o de Zapatero) eram a causa principal da crise espanhola" e que "os franceses, se votassem Hollande, também acabariam rapidamente no mesmo desastre". Esqueceu-se o Vasco, é claro, de falar no balanço de cinco anos de omnipresença e omnipotência sarkozista, se bem que tenha referido, e duas vezes!, com carinho pareceu-me, "o pobre do Mariano Rajoy, que já cortou 27 mil milhões de euros no Orçamento do Estado", e vai "cortar mais 10 mil milhões para pagar as loucuras do PSOE". Quer dizer, Sarkozy não governou a França durante 5 anos, Rajoy tem feito aquilo que até eu (que não percebo nada de economia, se é que há alguma coisa para perceber) era capaz de fazer- cortar, cortar, cortar- e Sarkozy "lembrou" e o "pobre" do Rajoy "cortou" como se não fosse nada com eles! E tudo isto sem que o ilustríssimo e muito lúcido (e isento, já agora) colunista tenha decidido gastar ao menos uma linha a esclarecer o óbvio ou, como diria o saudoso Nélson Rodrigues, o "óbvio ululante"): que, com Sarkozy ou Hollande, com Zapatero ou Rajoy, com Sócrates ou Passos Coelho, isto está, e vai continuar a estar, pela hora da morte. Vasco Pulido Valente não deve pois é lançar o seu (pelo visto aristocrático-intelectual-lúcido) desprezo sobre Zapatero e Sócrates sem esquecer Rajoy ou Sarkozy. Mas como Sarkozy (e o "pobre" do Rajoy) são da direita e Zapatero e Sócrates da esquerda, não há que hesitar: despeja-se naturalmente a raiva em cima dos últimos, não dos primeiros, "pobres" coitados. Aliás, fica bem a VPV esta sua (ainda uma vez )tão aristocrática, tão intelectual, tão lúcida ternura, face a essa "pobreza" para não dizer indigência...

2. Mais alguns títulos (a somar aos que citei há uns dias): " Centros de Emprego tinham inscritas 661,403 pessoas no final de Março, mais 19,8% do que há um ano"; "Venda de gasolina cai para nível mais baixo desde 2001"; "Fuga a portagens estraga estradas"; "Preço do pescado cresceu quatro vezes mais do que a alimentação" (do que a restante alimentação, presume-se ...); "Algarve revoltado com imagens de espanhóis bloqueados nas portagens"; "Algarve submetido a vergonha pelas Estradas de Portugal - a empresa estatal e o Governo qua a tutela desprezam o que o Algarve dá ao país"; "Parar na praia de Faro vai ser a pagar" ( lá vão acabar em definitivo com o Verão na Ilha ...); etc. etc. etc. Por isso não me espanta nada que haja cada vez mais portugueses a emigrar, mesmo para a Galiza, nosso ancestral fornecedor da mão-de-obra barata, no tempo em que ainda não havia ucranianos, romenos, moldavos e (tirando os jogadores de futebol) os únicos "pretos" que por cá podiam encontrar-se eram os porteiros do Restaurante Regaleira, no Porto, e o da Casa Africana, em Lisboa. Quer dizer, quando - dizia-se à boca cheia - nós não eramos xenófobos nem racistas...

3. Como "fumar no carro (também) vai ser proibido", decidi descolar de várias caixas de charutos (que querem, gosto de um charutinho) algumas ameaçadoras etiquetas dizendo "Fumar mata", para as colar nas paredes de minha casa, e ai de mim se me vejo de "habano" em punho: despeço-me imediatamente. Por mais que ao mesmo tempo pense, com alguma pena até, no "pobre" do dr. George e diga cá para comigo: este, se fumasse uma coisa destas, ficava outra coisa, tenho a certeza.

4. O senhor M. Gaspar Martins, do Porto, escreve ao "Público" "intrigado" pela "sanha anti-Acordo Ortográfico, contra o qual (no entanto) se declara "mas não pelas razões que "vêm sendo apresentadas". Um senhor cujo problema (pelo visto) é o seguinte: a grafia "deve ser simplificada não só nas consoantes mudas mas também -reforça - na multiplicidade e confusão de caracteres para representarem o mesmo som, o que " o que me leva a pôr-lhe a seguinte questão: como se grafa por exemplo ( a palavra não existe, a não ser no nome de um actor)o som renô em francês? Ora bem, pode grafar-se de catorze maneiras! Só que, evidentemente, o francês é uma língua bárbara, dirá o senhor Gaspar Martins, e nem Racine, nem Voltaire, nem Balzac, nem Flaubert, nem Proust, nem Malraux, nem De Gaulle ou Miterrand (Sarkozy não, admito) o desmentirão.

5. D' "O Jogo", sobre Manchester City, a 5 pontos do United: "United à vista". Do mesmo "O Jogo", sobre a vitória do Real no Vicante Calderón: " O Barcelona continua afinal a 4 pontos..." Interessante da história? A diferença de tratamento e os 3 pontinhos, é claro .... Pelo que repito aquilo que aqui escrevi há dias: mais imparcial do que isto e morre-se! Já agora: quando fala (e fala todos os dias) de Mourinho ou de Ronaldo, muita da Imprensa portuguesa faz-me lembrar aqueles tipos que têm uma fisga mas gostam de exibir um grande pistolão, que não têm ou então nem sequer é deles: não matam nem morrem mas, ao que parece, acreditam que estão a gozar imenso.

Bicuaites


1. Do "Público":
"O número de comissões criadas pelo Governo de Passos Coelho atinge já quase a meia centena (49)".

E ainda falta a principal: a comissão 1º de Abril (a Pinocchio já deu o que tinha a dar).

2.Do "Inimigo Público":
" Vítor Gaspar diz na AR que '2015 é o ano a seguir a 2014' e Álvaro diz na AR que ' uma economia viva é o contrário de uma economia morta'.

E, logo por um azar do caraças (La Palice que os desculpe) dois "lapsos": é azar!

3. Alberto Gonçalves, na "Sábado", sobre os putos nas escolas:
"Se nos habituarmos à violência comum, que a pedagogia moderna considera própria da idade e veículo de livre expressão, não será fácil lidar com a desagregação das regras básicas da etiqueta".

É, a livre expressão tem muitas qualidades mas também alguns defeitos, sem dúvida: desagrega por vezes as regras básicas da etiqueta. Infelizmente não só.

4. Do "Canard Enchaîné":
"Sarkozy (quer) distanciar-se de uma campanha que ele considera rasteira, pondo em evidência a sua própria estatura".

Bom, lá vai ele aumentar mais um bocado a altura dos saltos dos sapatos.

5. Francisco Teixeira da Mota, no "Público":
"Uma certidão de divórcio passou, de um dia para o outro, de 12 para 20 euros. Um aumento de 66%".
Mas, meu caro Chico, convenhamos: às vezes vale a pena.

6. Sobre a peça "Anjos com Fome" (encenação e dramaturgia de Natália Luíza), título do "Público":
"Primeiro, a dose, depois a divindade".

Eu diria: primeiro a dose, depois a overdose.

7. Jorge Jesus:
"Há uma grande diferença de critério nos árbitros".

É verdade: um, quando o Benfica ganha, outro quando o Benfica perde.

8. João Querido Manha, sobre o FC Porto, a quem atribui (é a chamada "via dolorosa")"estofo de campeão":
"A quatro rondas do fim, (o FC Porto) tornou irrelevantes os resultados dos rivais".

Estivesse eu assim tão seguro!

9. Do "Inimigo Público":
"Hugo Chavez ameaça nacionalizar o paraíso caso Jesus não o cure".
Jesus, o paraíso?! Pelo visto, vai ter de esperar mais um ano.

 

De A.M.Pires Cabral, poeta transmontano, este excerto do poema "Túnel":

"A luz esteve comigo, e foi bem-vinda. Deu-me todas as cores de que dispunha e, no meio de tanta profusão, pude dar-me ao luxo de rejeitar algumas".

Dizer não, ó que riqueza!

Comentários 2 Comentar
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aparte...
...ser portista, nada contra. Já agora relativamente aos pontos de Man Utd e Real Madrid e às diferenças de tratamento, podia também ter mencionado o caso nacional. Visto que o próprio já o festeja também ;)

http://barbarraridades.bl...
Rádio, televisão, jornais e... internet!
www.youtube.com/watch?v=iLpgst6hll8

Ó Tavares Teles, ainda lhe sobra a internet. Já ouviu esta escuta em que um "jornalista" combina uma notícia falsa com o Pinto da Costa?

Ah, espera, é você. Esta crónica é mesmo da sua autoria?
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