Para bom observador, Manuel Alegre iniciou a sua recandidatura imediatamente após a derrota nas últimas presidenciais tentando, através de uma negociação com Sócrates, concorrer com o apoio do PS e do BE. Só assim se poderá compreender, desde logo, a sua manutenção no PS, o comício da Trindade, os seus silêncios perante a governação de Sócrates e, mais tarde, o seu apoio nas legislativas. O Sol anuncia que o PS está refém
de Alegre, o que parece óbvio, embora o inverso também seja verdadeiro. Se é certo que Alegre não aceitou integrar as listas de Sócrates, fazendo um teatro do toca-e-foge, o poeta esteve na negociação do governo. Sócrates aceitou entregar ao alegrismo a pasta da justiça, tornando ministro o cabeça de lista distrital que Alegre mais elogiou e secretário de estado o presidente da comissão coordenadora do MIC
. E esta foi uma jogada de mestre de Sócrates, se é certo que Alegre terá imediato conhecimento de tudo o que possa suceder nos inúmeros casos que envolvem o primeiro ministro, também é certo que Alegre fica condicionado na sua actuação política. Aliás, veja-se as declarações de Alegre
imediatamente após a oficialização da constituição do governo, quando procura centrar o problema da justiça nas fugas e numa alegada selecção de casos, num claro tiro para Cavaco, e secundarizando as denúncias de casos em torno do primeiro ministro. Para Sócrates, neste momento, Alegre é o candidato ideal. Se Alegre perder o primeiro ministro aniquila definitivamente um putativo crítico sem que a derrota lhe possa ser atribuída e, se vencer, tem Alegre preso nos temas que são a sua maior fragilidade. Neste contexto só há três factores de imponderabilidade. Em primeiro lugar, ainda que aparentemente o Caso Freeport já esteja morto e arquivado, poderão surgir outros casos e/ou as famosas escutas, que obriguem à demissão do primeiro ministro - cenário para o qual Alegre e António Costa já se terão entendido. Em segundo lugar, o primeiro ministro, com pouca vontade de negociar com as oposições, poderá tentar o golpe da demissão do governo caso sinta que a situação do país pode ser dramatizável de modo a recuperar a maioria absoluta. Por fim resta a dúvida sobre o partido mais alegrista, o BE, que embora veja de fora o negócio entre Alegre e Sócrates, pretende ser um actor principal na candidatura. Repare-se que ainda antes de Alegre anunciar o que quer que seja, Francisco Louçã declara que o Bloco está pronto para apoiar Alegre
, construindo desde logo um discurso de apelo à esquerda. E se Alegre lhe pedir para apoiar o governo?
(também publicado no 5dias
)