Sim, também acho: o Paulo Macedo é fascista, pá. Quem é que esse senhor julga que é para chegar a um debate na posse de números certíssimos? Se os factos, pá, são reacionários, os números são fascistas. Sim, porque o fascismo é isso. O fascismo esconde-se atrás dos números. O fascismo é um ministro da saúde preocupado com a falência iminente do SNS. O fascismo é um ministro dizer que metade das pessoas que vão a uma urgência hospital só precisa, na verdade, de um enfermeiro do centro de saúde ("ai, cortei o dedo, tenho de ir ver um cirurgião"). O fascismo é um ministro da saúde a governar a partir de um pressuposto idiota, a saber: os médicos e os medicamentos são caros. Que pressuposto tão fascista, pá. E, acima de tudo, o fascismo é este Paulo Macedo dar isenção a 5,4 milhões de portugueses, quando antes apenas 4,5 milhões tinham esse direito. Não posso mesmo com estes fascistas que apoiam os mais pobres da sociedade, pá.
E fascismo, pá, também está em alguém que tem o desplante de olhar para estes números fascistas: uma consulta num centro de saúde custa (ao estado) cerca de 80 euros, mas o utente só pagava 2,25 euros.
E agora este ministro tem a lata de aumentar o custo para uns escandalosos 5 euros, quando a coisa certa a fazer era, ora essa, baixar a taxa moderadora para, sei lá, 50 cêntimos. Isso, sim, é que era uma política justa e bondosa e preocupada com o futuro do SNS. Ora, enquanto pensam nesta tirada-que-prova-a-minha-superioridade-moral-sobre-os-fascistas-e-neoliberais, peço que olhem para outro número deveras fascista: umas análises custam ao estado cerca de 13 euros, mas a Senhora Amélia só paga 80 cêntimos pelas ditas.
Um bom ministro da saúde não pode olhar para esta discrepância, porque o fascismo aparece quando deixamos de pensar na bondade do SNS e passamos a considerar as contas do SNS. Como é que Paulo Macedo se atreve a pensar em contas? Pior: como é que Paulo Macedo se atreve a pensar em pagar as contas do SNS?
O problema é que Paulo Macedo ainda não percebeu que a bondade progressista e anti-fascista é suficiente para sustentar o SNS, que, vejam bem, vai recolher 2% do seu financiamento através destas taxas moderadoras fascistas. Ah? Como diz, caro leitor? De onde vem o resto? De onde vêm os outros 98%? Ah, pá, isso é uma pergunta típica do fascismo, na sua variante neoliberal. V. ainda não percebeu que não podemos falar no financiamento do SNS?