Foi a única preocupação do juiz e, também, a única verdadeira preocupação da defesa no primeiro interrogatório a Armando Vara. Das 15 intercepções telefónicas com que o vice-presidente do BCP e os seus advogados foram confrontados, o juiz António da Costa Gomes só se mostrou interessado em fazer perguntas sobre uma delas: uma chamada entre o antigo ministro socialista e o industrial da sucata Manuel Godinho em que os dois mantêm uma estranha conversa aparentemente em código. Esta escuta é o mais sólido elemento do conjunto de provas apresentadas pelo Ministério Público contra Vara sobre a sua alegada relação criminosa com Godinho - e que foram ponderadas ontem pelo juiz de instrução criminal de Aveiro para decidir sobre as medidas de coacção ao mais famoso arguido do processo 'Face Oculta', em que foi indiciado por dois crimes de tráfico de influências.
Mas os investigadores têm mais. Além da inesperada escuta que tanto interesse despertou no juiz - desconhecida até agora - e das outras 14 intercepções telefónicas, no processo constam também sete encontros entre Vara e Godinho, incluindo quatro almoços no intervalo de cinco meses. E há ainda dois factores-surpresa que podem vir a ser revelados: os resultados das buscas ao ex-ministro socialista a 28 de Outubro e as muito faladas escutas ambientais. O Expresso apurou junto de uma fonte ligada à investigação que, afinal, as gravações sempre terão registado o teor de alguns dos almoços entre os dois arguidos.
Apesar de aconselhado pelos advogados a não prestar declarações (o que lhe deixaria em aberto a hipótese de pedir mais tarde a nulidade das escutas como elementos de prova em julgamento), Armando Vara tem optado por falar, o que pode vir a dificultar a sua defesa. Ao ouvi-las, está a assumi-las. E a justificá-las.
Esta sexta-feira, no segundo dia de interrogatório, foi a vez de o arguido explicar o contexto das escutas que ainda tinha para rebater. Sobre o primeiro encontro com o sucateiro na casa de Vara em Vinhais, a 7 de Fevereiro deste ano, o administrador do BCP alega que costuma organizar um almoço todos os anos nessa data e que Godinho passou por lá para lhe oferecer uma caixa de robalos, recusando a imputação do procurador João Marques Vidal de que o empresário de Ovar lhe pediu nessa ocasião para interceder junto da Refer, ajudando a resolver um conflito de Godinho com a administração da empresa pública a troco de "vantagens patrimoniais".
Em relação aos encontros que se seguiram - em Abril, Maio, Junho e Julho - Vara nega ter pedido ou recebido dinheiro de Manuel Godinho, contrariando o que é descrito no processo pelo procurador. As escutas que os investigadores deram a ouvir ao ex-ministro não incluem referências feitas por ele aos 10 mil euros que o Ministério Público diz ter pedido para apresentar Godinho a um administrador da EDP Imobiliária, Domingos Paiva Nunes.
Em pelo menos nove das 15 gravações a que teve acesso, Armando Vara não participa nas conversas interceptadas. Duas delas (a 23 e 24 de Maio) são entre Godinho e uma funcionária de uma das suas empresas, Maribel Rodrigues. Na primeira, o sucateiro pede 10 mil euros em notas; na segunda, na véspera de um almoço com Vara, Maribel diz que tem o envelope com os "documentos pedidos" à sua espera em cima da secretária.
A defesa já consultou também o volume do processo que contém as fotografias tiradas a Armando Vara durante dois almoços com o sucateiro no Mercado do Peixe (a 18 de Abril e a 23 de Maio), em que, num deles, surge no parque de estacionamento do restaurante a receber um saco de papel das mãos de Godinho. O número dois do BCP contou ao juiz que se tratava de um equipamento do clube de futebol do Esmoriz -uma oferta para o seu filho.
As explicações da defesa não demoveram, contudo, o procurador e o juiz, que mantêm Vara indiciado no processo - quer quanto ao papel de intermediário com o administrador da EDP Paiva Nunes quer com a Refer.
No pacote de 15 intercepções telefónicas, há uma chamada de Manuel Godinho, a 5 de Junho, às 10h48, em que o vice-presidente do BCP lhe perguntou como estavam as diligências para uma reunião com o presidente da Refer. O sucateiro informou-o então que ganhara no Tribunal da Relação do Porto um processo posto pela Refer contra ele, ao que Vara lhe aconselhou calma e sugeriu que esperasse para agirem. Pelo que o Expresso apurou, o verbo surge no plural na gravação: "Para agirmos". Um mês e meio depois, a 30 de Julho, Vara recebia na sede do BCP o sucateiro e Carlos Vasconcellos, um funcionário da Refer implicado nas tentativas de Godinho de afastar Luís Pardal da presidência da empresa pública e também ele constituído arguido, por corrupção passiva para acto ilícito.
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| Veja o esquema das escutas no Face Oculta
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Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009