27/05/2012 atualizado às 1:18

Transplantes: Marido e mulher que lutaram pela nova lei foram pioneiros na sua aplicação (C/FOTOS)

Lisboa, 13 Fev (Lusa) - Depois de dois anos de luta pela alteração da lei de transplantes bastaram duas horas e meia para Ana Pereira receber um rim do marido, no primeiro transplante com um dador vivo sem relação de consanguinidade realizado em Portugal.

19:05 Quarta feira, 13 de fevereiro de 2008

Lisboa, 13 Fev (Lusa) - Depois de dois anos de luta pela alteração da lei de transplantes bastaram duas horas e meia para Ana Pereira receber um rim do marido, no primeiro transplante com um dador vivo sem relação de consanguinidade realizado em Portugal.

Após o período dedicado ao tratamento de diálise e à luta pela alteração da lei nacional, que apenas previa a doação entre familiares até ao terceiro grau, a professora de 40 anos foi hoje submetida a uma intervenção cirúrgica no Hospital de Santa Cruz (Carnaxide).

O chefe de equipa de cirurgiões, António Pina, diz que tudo correu bem.

"O programa de transplantes neste hospital começou há 10 anos e esta foi uma operação de rotina, a única novidade foi ter sido a primeira a envolver cônjuges", sublinhou.

Momentos após a cirurgia, José Pereira estava "perfeitamente acordado e com um discurso coerente", enquanto a receptora foi, como habitualmente, encaminhada para os cuidados intensivos.

Enquanto o casal era operado simultaneamente em duas salas contíguas, numa intervenção que envolveu um total de 12 profissionais, o filho Pedro esperava na zona da recepção na companhia do tio.

"Estou à espera com ansiedade. Critico o facto de não ter havido mais interesse e pessoas a batalhar para mudar as leis. Mas o mais importante é o que está a decorrer neste momento, que há-de ser um alívio não só para a minha mãe", referiu o jovem, que quando fez 18 anos se apresentou como dador.

Essa intenção foi recebida com receio pelos seus pais e acabou por fracassar depois de verificado que cada um dos seus rins não funcionava a 100 por cento, mas juntos complementam-se e possibilitam uma vida normal.

Mesmo sem ser dador, Pedro manifestou a sua satisfação por ver os pais serem pioneiros na aplicação da nova lei e por perspectivar uma vida de maior "liberdade" para a sua mãe, que deixará de usar uma máquina de diálise durante oito a noves horas durante a noite.

"A qualidade de vida deste casal vai melhorar muito", considerou também António Pina, explicando que à excepção da toma de medicamentos para o resto da vida e a impossibilidade de praticar actividades radicais, Ana Pereira poderá viver normalmente.

A proibição de grandes esforços físicos relaciona-se com o facto de o rim transplantado ser colocado na zona correspondente ao apêndice e assim ficar mais desprotegido.

No entanto, o especialista explicou que as vantagens de colocar o rim, que será o terceiro no corpo de Ana Pereira, naquela zona permite, por exemplo, um mais fácil acesso nas realizações de biopsias e uma ligação mais próxima à bexiga.

Os rins com insuficiência apenas são retirados do organismo se desenvolverem infecções.

A transplantação começa com a intervenção no corpo do dador, que passa pelo isolamento de artérias e veia renal para que seja possível retirar o rim. Quando na sala ao lado, o receptor está pronto procede-se à transplantação do órgão, ao qual foi retirado sangue e que é conservado numa espécie de taça com gelo esterilizado.

"Neste caso quase não houve tempo de espera entre as duas intervenções", notou António Pina.

A percentagem de rejeição aguda, facilmente tratável segundo os especialistas, é de 15 a 20 por cento, enquanto se for crónica terá uma atenção a mais médio/longo prazo. "A estatística e a nossa experiência mostra há 95 por cento de probabilidade de o rim estar a funcionar normalmente ao final de um ano", acrescentou.

Actualmente no Hospital de Santa Cruz a transplantação com dador vivo corresponde a 25 por cento das intervenções, enquanto a nível nacional o valor deverá rondar os 10 por cento.

As vantagens de envolver um dador vivo passam por agendar as operações, para que dador e receptor estejam em condições óptimas, evitar o tratamento por diálise e pelo facto da esperança de vida do rim ser o dobro em relação ao mesmo órgão quando retirado de um cadáver.

"Também é uma vantagem para a comunidade porque os receptores ficam rapidamente fora da lista de espera de um bem que é escasso", acrescentou Domingos Machado, director de serviço de transplantes do hospital.

Apesar de esta prática ser consensual clinicamente, o médico ressalva as questões éticas que se podem levantar quando um médico "pode prejudicar quando trata", ao operar uma pessoa saudável.

O risco para os dadores é igual ao de qualquer cirurgia, estando actualmente em discussão na comunidade científica se a longo prazo estes podem também sofrer de pressão arterial alta e insuficiência renal. As estatísticas indicam que existirá uma morte em cada 30 mil dadores.

Certo é que estes doadores não contam com qualquer protecção legal, uma vez que não está prevista a obrigatoriedade de seguros nas situações de transplantação, lamentou Domingos Machado.

"Tem de se proteger os dadores de forma mais consistente, assegurar que não ficam prejudicados mesmo quando têm de faltar ao trabalho, que têm os mesmos direitos na celebração de contratos com seguradoras, e que ficam isentos de pagar taxas moderadoras, como os dadores de sangue", defendeu.

O médico, que tem acompanhado o casal hoje operado, considerou ser um privilégio seguir de perto "uma atitude que deve servir de exemplo e que pode ser útil para muitas outras pessoas."

"É do melhor que a humanidade tem: alguém dar parte de si próprio" para contribuir para a sobrevivência de outra pessoa, sublinhou Domingos Machado, lamentando que a falta de informação não aumente o número de dadores.

O marido doador, que ficou mais tempo no bloco operatório, deverá ser o primeiro a chegar a casa, dentro de quatro dias, ficando um mês proibido de fazer esforços físicos violentos.

Ana Pereira deverá receber alta dentro de uma semana e os médicos esperam o evoluir da situação.

Ainda sem saber o que fazer a partir de Março, quando realizar o seu estágio de educador infantil, está o filho Pedro.

É que a mãe necessita de cuidados redobrados e Pedro receia contagiá-la "com todas as doenças" que as crianças com quem vai trabalhar normalmente têm.

PL/FZP

Lusa/Fim

Lusa
Palavras-chave  Saúde
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