Luis Marques, 49 anos, tinha um dos piores serviços na Groundforce, ainda que não fosse mal pago. No Verão, por dia, chegou a enviar perto de 3 mil e quinhentas bagagens para os porões 'famintos' de malas, o que já lhe valeu duas operações aos ombros e alguma incapacidade para o trabalho, atestada pelo tribunal, isto em troca de cerca de 1.200 euros líquidos de salário ao fim do mês.
"O pior é quando temos de trabalhar de joelhos, quando o porão não tem altura suficiente e levantar as malas assim à altura da cabeça é muito complicado", gesticula.
Agora, em pé, Luís Marques não se quer vergar aos alegados sintomas da crise e protesta, junto com a família, à porta do Aeroporto Internacional de Faro, na sexta-feira à noite, com outros trezentos trabalhadores e amigos.
Para Fernando Miguel, outro dos muitos funcionários em protesto, os motivos até já eram conhecidos e o desfecho, de certo modo, previsível, mas ainda há esperança numa alternativa: "Desde há alguns anos para cá, nós temos vindo a perder clientes porque a concorrência faz preços melhores e temos estado a perder as companhias, temos menos trabalho é lógico que dê prejuízo mas penso que a culpa também deverá ser um pouco da gestão", diz.
Do mesmo modo, Maria Lourenço, 51 anos de idade, 31 deles no grupo TAP, não compreende a forma como foi despedida. "Ainda não pensei no que vou fazer, vou viver um dia de cada vez. É muito triste e a minha família está a reagir como estão as outras, a esta situação, o mais certo é eu ir para o desemprego", admite.
"Apesar de ter um bom currículo é na área da aviação, como isto está, com o número de desempregados que existe, é muito difícil arranjar um emprego", reconhece Maria.
Entre alguns ruídos de megafone e palmas de agradecimento há os que chegam mais tarde para engrossar o número e assim darem mais força ao protesto em Faro, que logo será amplificado pelos jornais e pelas televisões.
Luís Marques faz uma festa a um dos filhos de dez, onze anos, que dada a hora de jantar, no meio do ruído já lhe pede atenção. "Eles ainda nem se aperceberam bem do que isto é", solta, olhando para os jovens descendentes que correm entre a multidão.
Certo é que Luís, que já perdeu a conta às malas que carregou, acredita que pode estar mais perto de aviar as suas e rumar ao desemprego: "É inadmissível aquilo que fazem aos trabalhadores! Dei o meu sangue e o meu suor a esta empresa e agora estou na rua. É uma forma de despedimento brutal", conclui.