18 de abril de 2014 às 14:49
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Tomara que caia

Daniel Oliveira

O primeiro-ministro Mohammed Mossadegh queria uma coisa simples: nacionalizar os valiosos recursos do Irão. O Ocidente não gostou e, em 1953, entregou o poder absoluto ao Xá Reza Pahlevi, que chegara ao trono por abdicação forçada do pai. O Xá, como a prestimosa ajuda dos serviços secretos americanos e britânicos, começou por esmagar a oposição de esquerda. Depois, tratou de impor bons e maus hábitos ocidentais. À porta ficou a democracia. Não foi preciso esperar muito para a reacção do clero. E, entre todos, sobressaiu Ruhollah Khomeini. Pelo atrevimento, teve guia de marcha para o exílio. Mas ao tocar num dos principais líderes religiosos, o Xá assinava a sua própria sentença.

Depois de décadas de modernização, veio a crise económica e os sonhos do milagre iraniano caíram por terra. O Xá tinha agora contra ele o clero conservador, a classe média que ele próprio criara, os pequenos comerciantes esmagados pela modernização, a esquerda nacionalista e comunista e todos os democratas que tinham sentido a mão pesada da repressão. Quando, há 30 anos, a revolução islâmica derrubou a ditadura, foi recebida de braços abertos. Mas a festa acabou cedo. Os ayatollahs rapidamente provaram ser capazes da mesma brutalidade: à ocidentalização forçada sucedeu a islamização forçada, à brutalidade da polícia política sucedeu a brutalidade da polícia religiosa, ao poder arbitrário do Ocidente sucedeu o poder arbitrário do clero.

Tal como quando caiu a ditadura de Pahlevi, juntam-se, por estes dias, nas ruas de Teerão, descontentamentos contraditórios. Laicos que esperavam o seu momento, religiosos que desconfiam do excessivo poder de Ahmadinejad e simples apoiantes de Moussavi, um homem com impecáveis credenciais no regime. Mas a maioria são jovens urbanos, o que não é pouca gente no Irão. Herdeiros da ocidentalização forçada, não se lembram do Xá. Estão fartos de viver às escondidas nos mais pequenos gestos do seu quotidiano. E é por isso que este movimento, mais recontagem menos recontagem, é imparável. Ele está muito para lá da política.

Quem, no meio deste furacão de liberdade, tenha como primeiro critério o prazer de ver Teerão a afrontar os EUA comete um erro sem perdão. O Ocidente não tem o direito de impor a ninguém a sua suposta superioridade cultural. Mas os iranianos estão a mostrar que dispensam a ajuda de "impérios benignos" para derrubar a teocracia que os oprime. Esperemos que a sua revolta seja apenas o princípio.

Sócrates 2.0


O PS deu Xanax ao primeiro-ministro e lançou um novo modelo para as próximas eleições: o Sócrates 2.0. De esquerda, claro, não fosse para essas bandas que o eleitorado lhe foge. Mas acima de tudo, como se viu na entrevista à SIC, de uma doçura comovente. Todo ele, da voz às palavras, é compreensão, tolerância, modéstia. A começar com um quase pedido de desculpas aos professores. Tudo muito certo, tudo muito plástico. Fica apenas uma dúvida: esquecerão os eleitores o software anterior do nosso primeiro? Se a memória dos seus computadores for muito limitada, pode ser que sim. Isto, claro, partindo do princípio que o PS consegue manter o animal feroz fechado na jaula até Setembro.

Comentários 2 Comentar
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interesses do Ocidente
Tomara que caia…
Qual «derrubar a teocracia que os oprime» qual nada. Só um ocidental poderia falar assim! Ou o Irão é um país muçulmano ou o Irão não é um país muçulmano. Se é um país muçulmano será sempre uma teocracia, uma monarquia islâmica ou uma qualquer estrutura política mista que contemple uma componente do poder religioso muçulmano. O islamismo contém, em si mesmo, uma orientação política. Qualquer forma de governação plenamente laica num país muçulmano abrirá as portas ao conflito.
Os iranianos não põem em questão a teocracia… O único homem capaz de se opor a uma nova tentativa de subjugação do Irão aos interesses do Ocidente é Ahmadinejad. E esta é que a questão. Não há aqui mais questão nenhuma. Ahmadinejad sabe bem por quantas vezes e de quantas maneiras o Ocidente se intrometeu com o Irão. Ele está convicto que só quando tiver demonstrado que pode fabricar a bomba o seu país, tal como a Índia, poderá sonhar com a prosperidade. Ou alguém tem duvidas que o Irão, que já tem tropas ocidentais à porta em mais de 60% das suas fronteiras, é a peça mais importante do puzzle do Médio Oriente?
O resto é conversa de jornais, e de jornalistas a soldo, acossados e medrosos…
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