A principal testemunha de acusação do "Caso Isaltino" revelou hoje que depositou dinheiro de Isaltino Morais nas suas próprias contas a pedido do autarca, por este querer que os montantes não fossem considerados no seu processo de divórcio.
A ex-secretária e ex-chefe de gabinete do presidente da Câmara de Oeiras, actual funcionária do departamento municipal de Habitação, tinha a possibilidade de não depor em julgamento por ser arguida num processo conexo, indiciada por branqueamento de capitais, mas optou por responder a todas as questões, colocadas pelo procurador Luís Eloy e pela juíza Paula Albuquerque durante cerca de duas horas.
Nas contas bancárias que possuía, a antiga chefe de gabinete depositou várias vezes quantias entre 140 a 2.500 contos (700 a 12.250 euros) em numerário e chegou a ter nas mesmas cerca de 191 mil euros, dos quais "uma pequena parcela" era sua.
Donativos de campanhas
Segundo a testemunha, Isaltino Morais dizia que as verbas correspondiam sobretudo a donativos para campanhas eleitorais, entregues em reuniões e jantares não presenciados pela funcionária, e não costumava identificar o dador.
Paula Nunes referiu desconhecer se havia alguma relação entre as quantias que lhe eram entregues e eventuais contrapartidas por favores a construtores imobiliários, mas afirmou que vários empresários de construção civil com interesses no concelho eram contactados para apoiar as campanhas e tinham "relações de amizade" com o autarca, reunindo-se algumas vezes com Isaltino "a título pessoal".
Um desses empresários, José Guilherme, chegou mesmo a pagar um jantar de aniversário do presidente camarário na Fortaleza do Guincho, que custou 680 contos (3.400 euros).
"Não consigo estabelecer uma linha temporal, mas houve uma fase que, devido ao seu processo de divórcio, o doutor Isaltino pedia-me se eu não me importava de emprestar as minhas contas para depósitos, porque era uma forma de não se saber ou de não mostrar que existiam esses montantes", contou Paula Nunes, confirmando a indicação da pronúncia de que o autarca recorria a contas de conhecidos.
A funcionária municipal disse ter acatado as orientações devido à sua vontade em progredir na carreira e pela relação de "amizade e confiança" que tinha estabelecido com Isaltino Morais, motivos que a terão levado a não questionar por que continuava a receber as mesmas indicações depois de o divórcio estar concluído.
"Tinha algum receio de que, não obedecendo a alguma directiva, veria goradas as minhas expectativas ou tivesse de abandonar a Câmara. Quando temos alguma dose de inocência, quando temos um presidente de Câmara licenciado em Direito e é magistrado por profissão, não achamos que pode ser uma cobertura, via-se bem o que estava a fazer", disse.
"Hoje não o faria porque estava convicta de que havia uma relação de amizade e de confiança, que de facto não se veio a verificar, e esta resposta tem a ver com os últimos sete anos da minha vida", acrescentou, referindo-se ao desenvolvimento das investigações e do processo.
Paula Nunes explicou que as verbas depositadas nas suas contas eram empregues por Isaltino Morais em diferentes despesas, como material de propaganda, jantares da JSD ou ramos de flores para aniversariantes.
A ex-secretária explicou também que, tal como motoristas da autarquia de Oeiras, fez outros depósitos em numerário em contas de Isaltino Morais, também por ordem deste, e que sabia da conta do autarca na Suíça, já que tinha acesso a muitos dos seus documentos, mas assegurou nada saber sobre alegadas origens ilícitas desse dinheiro.
Testemunhas dizem a verdade
À saída do Tribunal de Sintra, onde o julgamento decorre desde o dia 25 de Março, o presidente da Câmara de Oeiras afirmou que "todas as testemunhas têm dito a verdade e é com a verdade que se faz um julgamento", considerando que Paula Nunes não foi uma excepção.
"Estou satisfeito desde o início, desde que fui ouvido. Acho que o julgamento está a correr normalmente, limito-me a dizer que está a correr bem, tive a oportunidade de dar a minha versão", declarou aos jornalistas.
Depois da audição de Paula Nunes, as sessões continuam depois da Páscoa, com o depoimento de mais testemunhas.
Isaltino Morais, 59 anos, foi constituído arguido em 2005 e pronunciado para julgamento em Junho passado por um crime de participação económica em negócio, três de corrupção para acto ilícito, um de branqueamento de capitais, um de abuso de poder e outro de fraude fiscal.