27/05/2012 atualizado às 1:18
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Terrorismo social

8:00 Segunda feira, 16 de junho de 2008
O bloqueio que um grupo de empresários de camionagem e de profissionais ao seu serviço impôs esta semana ao país foi um acto de puro terrorismo social. Lá porque o pesadelo acabou, por agora, nada garante que não volte, mais cedo ou mais tarde. Por isso convém termos noção - aqueles que promoveram o bloqueio e a opinião pública em geral - de que não há justificação, argumento ou desculpa para comportamentos, alguns de natureza criminosa, que põem em causa liberdades e direitos elementares da generalidade dos cidadãos. Começando pelos dos camionistas forçados a paralisarem pela ameaça e pela coacção, praticamente sequestrados perante umas forças de segurança que só ao terceiro dia parece terem dado por isso.

Em situações deste tipo não se espera do Estado complacência e brandura; espera-se firmeza na aplicação e no respeito pela lei, condição prévia ao diálogo e à negociação. Afinal, os bloqueios são ilegais, ilegítimos e intoleráveis de qualquer ponto de vista - seja em Portugal, em Espanha ou em qualquer outra sociedade organizada - e como tal devem ser encarados.

É preciso recuarmos a este princípio de base porque, na prática, ele não parece ser tão consensual como devia. Tanto que, ao longo da crise, houve muita hesitação e oportunismo quanto ao modo de olhar para o que estava a acontecer. Desde cidadãos comuns furiosos com o preço da gasolina até profissionais de outros sectores castigados pela crise, passando por partidos políticos que tinham a obrigação moral de criticar vigorosamente o bloqueio, todos eram tentados a deixar uma palavra de compreensão para com um acto que só podia merecer total repúdio. Curioso e muito revelador foi o facto de nenhum líder partidário, sequer Manuela Ferreira Leite - um mau começo -, ter dado a cara nos dias da crise. Nem um teve a coragem de condenar o bloqueio sem 'mas' nem 'poréns', como ele devia ser condenado.

Em política tudo se paga. O PS recebeu agora uma parte da conta pelo seu lamentável empenho no buzinão e no bloqueio da ponte 25 de Abril, em 1994; qualquer dos partidos hoje na oposição pode precisar amanhã, no poder, da solidariedade que agora negou ao Governo.

Claro que é sempre mais fácil criticar as decisões "a posteriori" do que assumir a responsabilidade de uma posição clara quando a crise está em curso. E a menos que Sócrates começasse logo por mandar o Exército e esmagar a revolta, como pareciam pretender alguns, inclusive entre os seus apoiantes, uma resolução da crise pressupunha sempre cedências. Ora, o drama é que essas cedências nunca satisfarão os camionistas se não momentaneamente. Eles consideram que não são os seus clientes, mas todos os contribuintes, através do Estado, quem tem a obrigação de lhes assegurar o negócio. E sendo esta a atitude dominante em muitos grupos profissionais, não é fácil o Governo - qualquer governo - lidar com eles. Vamos a ver se, depois de ter cedido aos pescadores e aos bloqueadores, não acabará por ceder a outros, conforme a capacidade reivindicativa de cada um. A ser assim, o país corre o risco de, em matéria de finanças públicas, chegar a 2009 no ponto em que estava em 2005.

Outra vez a bola

Não é a primeira vez que acontece: noutro momento de grande depressão colectiva, com o escândalo Casa Pia no auge, em 2003, também foi o futebol a servir-nos de bálsamo momentâneo. O FC Porto trouxe de Sevilha a primeira taça UEFA ganha por um clube português e, naquela noite, compensou-nos um pouco a debilitada auto-estima. Agora, estava o país literalmente bloqueado - de outros bloqueios falamos todos os dias - e foi uma vitória da selecção nacional que, ao permitir o apuramento para a fase seguinte do Campeonato Europeu, pôs um sorriso na cara do povo. Não só do povo da bola, porque, diga-se o que se disser, serão poucos os portugueses totalmente indiferentes às vitórias e derrotas da equipa nacional de futebol.

Muitos desses provavelmente dizem-no com uma certa presunção snobe, outros sentem-no por reacção ao excesso de dramatismo encenado pelos "media", contra os seus exageros de cobertura, que não raro invertem totalmente a hierarquização natural das notícias, e contra outro facto indesmentível que é o de o futebol ocupar um espaço desmesurado na nossa vida pública, muitas vezes pelas piores razões.

Sem dúvida, há bola a mais na nossa sociedade e o futebol enquanto indústria tornou-se uma indústria suspeita. Mas o jogo em si não desperta apenas fanatismos mórbidos; também alimenta paixões saudáveis. Basta olhar para o entusiasmo e o carinho que a selecção desperta entre os emigrantes portugueses para o percebermos e sentirmos. Por vezes até à comoção.

Morrer de fórceps

Um bebé que estava vivo no ventre da mãe morreu ao nascer no Hospital Amadora-Sintra, depois de ter sido puxado por fórceps que lhe esmagaram o crânio. O caso ocorreu há vários anos e os pais levaram-no à Justiça, processando os médicos intervenientes no parto. A Justiça absolveu esta semana os médicos em causa. Nem eles nem ninguém responde por qualquer responsabilidade na morte do bebé. Morrer no parto com o crânio esmagado por fórceps é, pelos vistos, um risco normal e inerente ao acto de nascer. A Justiça terá, com certeza, as suas razões. Pena que as razões da Justiça sejam tantas vezes estranhas e incompreensíveis para os cidadãos que delas têm notícia.

Fernando Madrinha

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Experts
Kavai (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 18:23 | Terça feira, 17 de junho de 2008
Admiro-me que ainda não tenha aparecido aqui nenhum comentário a este artigo de HM, que considera a acção dos camionistas terrorismo social, e tanto quanto percebi, defendendo a intervenção das autoridades para que a coisa não chegasse onde chegou.
È que ontem, salvo êrro, apareceu por aqui um expert chamando sabichões aos que advogavam isso mesmo, ou seja, reposição da ordem e diálogo depois.
A maneira como o assunto foi tratado pelo Governo presta-se a que qualquer dia teremos aí de novo os camionistas (e não a entidade que os representa, como deveria ser ) com mais exigências, pois muitos houve que não ficaram satisfeitos : o País não chegou a parar e isso não agradou a todos.
Não entrando na análise da razão ou sem razão dos protestos, é lógico que a estabilidade do País não pode estar á mercê de grupos ou classes e as coisas têm maneira correcta de resolução. E a maneira seguida pelos camionista esteve longe de ser a melhor.
 
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    Re: Experts    Ver comentário
C. O. Casey (seguir utilizador), 1 ponto , 14:45 | Sábado, 21 de junho de 2008
Experts
Kavai (seguir utilizador), 1 ponto , 18:29 | Terça feira, 17 de junho de 2008
Por lapso atribuí a autoria do artigo que comentei há pouco, a HM, quando o autor foi Fernando Madrinha.
As minhs desculpas a ambos e aos leitores.
 
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De Cabo de Esquadra
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 20:54 | Terça feira, 17 de junho de 2008
Uma tristeza...
 
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Fernando Madrinha devia medir as palavras
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 11:12 | Quarta feira, 18 de junho de 2008
A capa do combate ao terrorismo é muito larga. Serviu, sob a capa de perseguição à organização de Bim Laden para invadir o Afeganistão e submeter o povo afegão a mais uma ocupação estrangeira. Serviu de capa para invadir o Iraque (onde não havia terroristas) e espalhar o terror entre os iraquianos, matando-os sem dó nem piedade aos milhares e empurrando-os para um misto de guerra civil e resistência contra a ocupação. Serviu para prender centenas de pessoas durante largos anos sem acusação nem julgamento. Serviu para raptar inocentes e tortura-los para obter informações de que obviamente não disponham. Serviu para introduzir leis que diminuem as liberdades e garantias dos indivíduos.

O combate ao terrorismo (real e imaginário) tornou-se uma autorização para atirar a matar. Fernando Madrinha devia pois medir as palavras.

Um protesto, uma revolta, mesmo quando não suportados na Lei, mesmo quando atingem interesses de terceiros não intervenientes no conflito, não são terrorismo. São movimentos sociais que urge compreender as causas para sobre elas poder actuar.

Fernando Madrinha devia pois medir as palavras. Mas Fernando Madrinha não nasceu hoje e não é ingénuo, sabe o que diz. O que ele pede é a repressão violenta de quem protesta. O que ele exige é policia nas ruas com o seu inevitável cortejo de prisões, feridos e mesmo mortes. Pensa que é assim que se consegue impor a autoridade do Estado. Por isso demagogicamente chama terroristas aos empresários da camionagem que protestam.
 
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    Re: Fernando Madrinha devia medir as palavras    Ver comentário
Andreas Baader (seguir utilizador), 1 ponto , 18:22 | Quarta feira, 18 de junho de 2008
    A mentira não é argumento    Ver comentário
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 0:07 | Sexta feira, 20 de junho de 2008
Os tachistas sentem-se ameaçados
furacom (seguir utilizador), 1 ponto , 11:34 | Quarta feira, 18 de junho de 2008
É suficiente ler o título do texto deste senhor para compreender os seus temores que por coincidência tem uma catrafuada de milhares como ele.
Certamente que´só com a colaboração dos motoristas de tão importantes máquinas foi possivel, de alguma forma, abanar a consciência dos governantes incompetentes.
Para que se saiba, o que não é novidade para ninguem, um motorista de carros pesados, que trabalha em média 10 horas por dia e consome em média 8 litros de gasóleo por hora, contribui indirectamente com 65% do valor deste produto para alimentar parasitas. Nada mais nada menos que 80 euros por dia é o valor que devolvemos ao estado e desta forma merecemos maior respeito. Não é terrorismo social é a razão e a verdade que V.Ex.ª procura esconder. A. Almeida.

 
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