O bloqueio que um grupo de empresários de camionagem e de profissionais ao seu serviço impôs esta semana ao país foi um acto de puro terrorismo social. Lá porque o pesadelo acabou, por agora, nada garante que não volte, mais cedo ou mais tarde. Por isso convém termos noção - aqueles que promoveram o bloqueio e a opinião pública em geral - de que não há justificação, argumento ou desculpa para comportamentos, alguns de natureza criminosa, que põem em causa liberdades e direitos elementares da generalidade dos cidadãos. Começando pelos dos camionistas forçados a paralisarem pela ameaça e pela coacção, praticamente sequestrados perante umas forças de segurança que só ao terceiro dia parece terem dado por isso.
Em situações deste tipo não se espera do Estado complacência e brandura; espera-se firmeza na aplicação e no respeito pela lei, condição prévia ao diálogo e à negociação. Afinal, os bloqueios são ilegais, ilegítimos e intoleráveis de qualquer ponto de vista - seja em Portugal, em Espanha ou em qualquer outra sociedade organizada - e como tal devem ser encarados.
É preciso recuarmos a este princípio de base porque, na prática, ele não parece ser tão consensual como devia. Tanto que, ao longo da crise, houve muita hesitação e oportunismo quanto ao modo de olhar para o que estava a acontecer. Desde cidadãos comuns furiosos com o preço da gasolina até profissionais de outros sectores castigados pela crise, passando por partidos políticos que tinham a obrigação moral de criticar vigorosamente o bloqueio, todos eram tentados a deixar uma palavra de compreensão para com um acto que só podia merecer total repúdio. Curioso e muito revelador foi o facto de nenhum líder partidário, sequer Manuela Ferreira Leite - um mau começo -, ter dado a cara nos dias da crise. Nem um teve a coragem de condenar o bloqueio sem 'mas' nem 'poréns', como ele devia ser condenado.
Em política tudo se paga. O PS recebeu agora uma parte da conta pelo seu lamentável empenho no buzinão e no bloqueio da ponte 25 de Abril, em 1994; qualquer dos partidos hoje na oposição pode precisar amanhã, no poder, da solidariedade que agora negou ao Governo.
Claro que é sempre mais fácil criticar as decisões "a posteriori" do que assumir a responsabilidade de uma posição clara quando a crise está em curso. E a menos que Sócrates começasse logo por mandar o Exército e esmagar a revolta, como pareciam pretender alguns, inclusive entre os seus apoiantes, uma resolução da crise pressupunha sempre cedências. Ora, o drama é que essas cedências nunca satisfarão os camionistas se não momentaneamente. Eles consideram que não são os seus clientes, mas todos os contribuintes, através do Estado, quem tem a obrigação de lhes assegurar o negócio. E sendo esta a atitude dominante em muitos grupos profissionais, não é fácil o Governo - qualquer governo - lidar com eles. Vamos a ver se, depois de ter cedido aos pescadores e aos bloqueadores, não acabará por ceder a outros, conforme a capacidade reivindicativa de cada um. A ser assim, o país corre o risco de, em matéria de finanças públicas, chegar a 2009 no ponto em que estava em 2005.
Outra vez a bola
Não é a primeira vez que acontece: noutro momento de grande depressão colectiva, com o escândalo Casa Pia no auge, em 2003, também foi o futebol a servir-nos de bálsamo momentâneo. O FC Porto trouxe de Sevilha a primeira taça UEFA ganha por um clube português e, naquela noite, compensou-nos um pouco a debilitada auto-estima. Agora, estava o país literalmente bloqueado - de outros bloqueios falamos todos os dias - e foi uma vitória da selecção nacional que, ao permitir o apuramento para a fase seguinte do Campeonato Europeu, pôs um sorriso na cara do povo. Não só do povo da bola, porque, diga-se o que se disser, serão poucos os portugueses totalmente indiferentes às vitórias e derrotas da equipa nacional de futebol.
Muitos desses provavelmente dizem-no com uma certa presunção snobe, outros sentem-no por reacção ao excesso de dramatismo encenado pelos "media", contra os seus exageros de cobertura, que não raro invertem totalmente a hierarquização natural das notícias, e contra outro facto indesmentível que é o de o futebol ocupar um espaço desmesurado na nossa vida pública, muitas vezes pelas piores razões.
Sem dúvida, há bola a mais na nossa sociedade e o futebol enquanto indústria tornou-se uma indústria suspeita. Mas o jogo em si não desperta apenas fanatismos mórbidos; também alimenta paixões saudáveis. Basta olhar para o entusiasmo e o carinho que a selecção desperta entre os emigrantes portugueses para o percebermos e sentirmos. Por vezes até à comoção.
Morrer de fórceps
Um bebé que estava vivo no ventre da mãe morreu ao nascer no Hospital Amadora-Sintra, depois de ter sido puxado por fórceps que lhe esmagaram o crânio. O caso ocorreu há vários anos e os pais levaram-no à Justiça, processando os médicos intervenientes no parto. A Justiça absolveu esta semana os médicos em causa. Nem eles nem ninguém responde por qualquer responsabilidade na morte do bebé. Morrer no parto com o crânio esmagado por fórceps é, pelos vistos, um risco normal e inerente ao acto de nascer. A Justiça terá, com certeza, as suas razões. Pena que as razões da Justiça sejam tantas vezes estranhas e incompreensíveis para os cidadãos que delas têm notícia.
Fernando Madrinha