A probabilidade de bancarrota subiu terça-feira em 9 países da zona euro, ainda que em patamares distintos de risco. O que é sintoma de um agravamento da crise das dívidas soberanas na Europa.
Este panorama negativo coincidiu com despachos divulgados na imprensa económica de que, na segunda-feira, "o Banco Central Europeu (BCE) recebeu pedidos de 178 bancos solicitando €247 mil milhões de financiamento, o mais alto valor desde meados de 2009", refere a agência de informação financeira Markit. Esta corrida ao BCE advém do "deserto" em que se está a tornar o mercado de financiamento na Europa, com os fundos norte-americanos e de outras paragens a reduzirem a sua exposição à zona euro.
Ultimato à Grécia faz disparar risco
A Grécia liderou hoje os aumentos do risco, voltando a níveis de custo dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento) acima de 9000 pontos base e com uma probabilidade de default na ordem dos 96,33%, no valor de fecho, tendo chegado durante o dia a 97,10%, segundo dados da CMA DataVision.
Um nível tão próximo de 100% equivale a uma perceção pelos investidores de eminência de um evento crédito, apesar das diligências que o novo governo chefiado por Lucas Papademos está a fazer, numa ronda pela Europa, para obter o desbloqueamento da já atrasada 6ª tranche de €8 mil milhões do primeiro pacote de resgate.
Contudo, o líder da Nova Democracia, um dos partidos que está presente no governo tripartido chefiado pelo independente Papademos, recusa-se a assinar uma carta de compromisso exigida pelas instâncias europeias, que colocaram o limite na próxima reunião do Eurogrupo que se realizará na terça-feira, 29 de novembro. O ultimato foi, hoje, claramente dado. O ministro das Finanças holandês, um dos políticos sem papas na língua, disse preto no branco: "Queremos ver a assinatura do Senhor Samaras [líder da Nova Democracia]. De outro modo, no que me diz respeito, a Grécia não receberá o dinheiro. De modo algum".
Segundo fontes oficiais gregas, Atenas só dispõe de recursos financeiros por mais 20 dias.
Bélgica e Áustria em destaque
Dois pequenos países do "centro" da Europa continuam a dar nas vistas. Bélgica e Áustria foram os membros da zona euro que hoje viram o risco de incumprimento das suas dívidas subir mais, depois da Grécia.
Ainda que em patamares distintos - a Bélgica subiu para um risco de 26,12% e a Áustria para 17,80% -, longe de entrarem no "clube da bancarrota" (cujos mínimos exigem um risco de mais de 33%), estes dois países têm estado sob stresse nos mercados da dívida nas últimas semanas. Para se ter uma noção do agravamento da situação em menos de dois anos, o risco da Bélgica era de 4,9% e o da Áustria de 5% no final do primeiro trimestre de 2010. Mais do que quintuplicou para o caso belga e mais do que triplicou para o caso austríaco.
Hoje soube-se que o Banco central austríaco limitou o crédito a conceder pelos bancos do país aos países do Leste europeu limítrofes. Os bancos austríacos já concederam um crédito total de €226 mil milhões a esses vizinhos, quase tanto como o PIB do país. A bolsa austríaca foi a que mais caiu hoje na Europa - fechou com perdas de 3,1%.
Na Bélgica, apesar do rei estar em convalescença, prossegue no castelo real de Ciergnon com as audiências aos partidos políticos, procurando superar o impasse na formação de um governo e na apresentação do orçamento para 2012. O país, capital das instituições europeias, continua sem governo formado desde as eleições de junho de 2010. As yields (juros) dos títulos belgas a 10 anos fecharam no mercado secundário em 5,07%, segundo dados da Bloomberg. Um novo máximo histórico, desde a adesão ao euro, depois dos 5% em julho de 2008.
Espanha e Itália continuam sob stresse
Apesar da atenção que tem sido dada ao alastrar da crise da dívida aos países do "centro" da zona euro, Espanha e Itália não deixaram de ver o seu risco aumentar hoje, apesar de em menor grau do que os três membros da zona euro já referidos.
O custo dos cds para a dívida italiana subiu para mais de 550 pontos base e o risco fechou em 37,67%. No caso de Espanha, o risco subiu para 34,15% e o custo dos cds para mais de 485 pontos base. O nosso vizinho peninsular acabaria por subir para o 9º lugar do "clube da bancarrota" (o TOP 10 dos países de maior risco).
A Itália viu hoje o spread em relação aos juros alemães reaproximar-se dos 500 pontos base (5 pontos percentuais) e as yields dos títulos do Tesouro a 3 anos no mercado secundário fecharam acima dos 7%. Os investidores estarão a apertar o cerco tendo em conta os leilões de dívida de médio e longo prazo que se vão realizar na próxima terça-feira, 29 de movembro (dia da reunião do Eurogrupo), em que se pretende mobilizar €17 mil milhões. Até final do ano, o Departamento do Tesouro italiano realiza mais 17 leilões deste tipo.
No caso de Espanha, as yields das obrigações espanholas a 10 anos fecharam em 6,61%, acima do valor de segunda-feira, e um novo máximo histórico desde a adesão ao euro, apenas dois dias depois de se saberem os resultados das eleições legislativas, que conduzirão, a partir de 20 de dezembro, a uma mudança de governo.
Também se agravou o risco da Alemanha (apesar do seu nível baixo, na ordem dos 8,41%), da Irlanda, de Portugal e da França. Mas com dinâmicas de crescimento muito distantes dos casos acima abordados. No caso de França, o stresse que se observou ultimamente nos spreads e nas yields das OAT (títulos franceses) diminuiu hoje significativamente.
Iniciativa do FMI parece "talhada" para Itália e Espanha
O anúncio por Christine Lagarde de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai concretizar uma promessa feita na última cimeira do G20 de lançar uma "linha de liquidez preventiva" está a ser interpretado pelos investidores como um instrumento para socorrer as duas grandes economias europeias aflitas - Itália e Espanha.
O novo instrumento do FMI é uma linha de curto prazo para "romper a cadeia de contágio", no dizer do fundo, em relação a países com situação sólida em termos de indicadores orçamentais, mas com problemas temporários de aumento dos custos de financiamento. Está por conhecer o perfil destes "espetadores da crise", como os baptizou a Markit.