Apesar de manter a paixão pelo mar, José Horta é um dos muitos portugueses que deixaram de ter uma embarcação de recreio. Mas, aos 74 anos, ainda se sente tentado a praticar windsurf. "Se tiver uma prancha disponível na água, dou umas voltas com gosto", garante.
Hoje reformado, foi gestor na maior petrolífera mundial, a Mobil, e comprou o seu primeiro barco ainda jovem. "Comecei muito novo na vela, em regatas da classe andorinha e depois passei pelos snipes e pelas classes 420 e 470", diz.
Com o decorrer dos anos, para desfrutar confortavelmente do mar, optou por ter embarcações motorizadas de dimensões "generosas".
O seu último barco tinha dois potentes motores a diesel e dispunha de várias cabinas para alojar convidados, oferecendo todas as comodidades.
"Curiosamente, no meu grupo de amigos mais chegados, todos se desfizeram dos barcos nos últimos três anos porque, apesar de sermos pessoas sem dificuldades financeiras, sabemos fazer contas e avaliamos o custo/benefício da manutenção anual de um barco", refere José Horta.
"O encargo de um barco pesa em qualquer orçamento familiar", comenta, explicando que "os lugares numa marina são caros e que qualquer reparação num barco custa três vezes mais do que um arranjo doméstico semelhante, desde uma avaria numa máquina de lavar pratos à reparação dos sistemas de comunicações".
Concluiu, assim, que não fazia sentido continuar a manter um elevado encargo anual, de que a sua família só tirava partido durante poucas semanas no verão. Foi por isso que vendeu o seu último barco.
"Os meus amigos fizerem o mesmo e nas gerações seguintes ninguém assumiu o encargo de manter um barco", refere.
Famílias com menos embarcações
As estatísticas disponíveis confirmam que aumentou o número de agregados familiares que deixaram de ter embarcações.
Segundo a Direção-Geral da Autoridade Marítima, em agosto, todas as capitanias portuguesas (do continente, Madeira eAçores) tinham registadas 78.144 embarcações de recreio, contra 92.346 em 2009. Isto é, no auge do verão de 2010 (na época em que as embarcações de recreio têm maior utilização), havia menos 14.202 registos de barcos de recreio do que no ano anterior.
Quase todas as capitanias sofreram quebras nos registos. Aveiro terá sido das poucas exceções onde houveumaumento considerável de registos, passando de 7798, em 2009, para 9075, em agosto de 2010.
Para quem trabalha no mercado das embarcações de recreio, esta quebra não é facilmente explicável. Renato Santos, que vende as marcas Monterey e Sessa na zona de Lisboa, considera que "a conjuntura de crise não justifica tudo".
"Em Portugal, são as classes média-alta e alta que compram amaioria das embarcações e essas pessoas continuam a ter dinheiro", comenta.
Porém, "há ideia de que o mercado português absorve uma média anual de 4 mil barcos novos, mas agora quase não há compras", considera.
Há três anos, empresas de leasing francesas e italianas fizeram campanhas de vendas em Portugal, oferecendo soluções financeiras para transações de novas embarcações. "Parte das pessoas que então fizeram compras em leasing não voltará a adquirir novos barcos nos próximos dois, três anos", diz Renato Santos.
Leasing francês poupa 50% no IVA
A vantagem do leasing feito por sociedades francesas ou italianas relaciona-se com a poupança no IVA pago pela compra de um barco. Quer França, quer Itália - que lideram a construção naval de recreio na Europa - aplicam a estes contratos de leasing apenas 50% da taxa de IVA em vigor. Em França, o IVA tem uma taxa de 19,2%, logo aplica-se a este tipo de leasing uma taxa de IVA de 9,6%.
Por exemplo, a compra de um veleiro médio, de 10,8 metros, por ¤200 mil, cobraria cerca de €40 mil em IVA. Se o mesmo barco for comprado através de um leasing francês, pagará menos de €20 mil de IVA. De qualquer forma, não será essa a justificação para a quebra de 14.202 registos em 2010.
Lino Correia, presidente do Clube Naval de Sesimbra, diz que entre os 200 postos de amarração da sua doca, só há três barcos de bandeira estrangeira e, desses, apenas um foi financiado com um leasing francês. "A redução dos registos tem que ver com a crise vivida, com a carga fiscal relativa ao Imposto Único de Circulação (IUC) - que em muitos casos duplicou o valor anual pago por cada barco -, com o aumento de encargos com vistorias e, também, com as condições restritivas de utilização dos barcos de recreio nalgumas das principais zonas costeiras de lazer, como é o caso da Arrábida", admite.
Texto publicado no caderno de Economia do Expresso de 17/09/2010
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