As estrelas estavam alinhadas para eu não gostar de Drive - Risco Duplo, o novo filme de Nicolas Winding Refn. No tratamento da violência, Refn tende para a gordura de Tarantino e não para a secura de Michael Mann. Mas, de vez em quando, o nosso gosto segue a lógica da batata, e, para mal dos meus pecados, adorei Drive. Sim, o filme tem demasiado papel-de-embrulho. Sim, namora com aquele esteticismo vazio, que tem muito fogo-de-artifício e pouca substância. Sim, o filme - repito - está mergulhado numa gordura visual (ex.: abusa do ralenti) que se pode tornar abusiva e oca. E, atenção, eu percebo quem não gosta do filme por causa deste ponto, precisamente. Esta é, aliás, a crítica que eu costumo fazer aos filmes de Tarantino: excessos formais que secam as personagens, que criam filmes sem dilemas humanos lá dentro, sem gente dentro; excessos típicos de quem está obcecado em dizer "olhem, olhem para mim, reparem como eu filmo tão bem, vejam esta montagem, vejam este ralenti, vejam esta fotografia, vejam esta citação de Cronenberg, De Palma e Leone".
Mas sucede que Drive tem gente dentro. Toda a artilharia visual está ao serviço de uma personagem, o condutor (Ryan Gosling), que é fustigado por uma das emoções humanas mais básicas: a necessidade de proteger uma prole, Carey Mulligan e o filho. Ao invés de Tarantino, Refn conta uma estória com dilemas e pulsões humanas, que, ainda por cima, tem um final trágico. Tal como salientou Francisco Ferreira no Expresso, esta personagem é um "real human being" (a canção final). Tirando Jackie Brown, as personagens de Tarantino não têm esta humanidade, são apenas bonecos histriónicos, metralhadores de diálogos engraçadistas. No fundo, a diferença é esta: Tarantino tem um estilo cinematográfico, aliás, meta-cinematográfico; Refn consegue transformar o estilo numa atmosfera, uma atmosfera que quer criar personagens que apelam ao espectador e não apenas ao cinéfilo. No suplemento "Tentações" da Sábado, Tiago R. Santos resumiu esta ideia: Drive é "um exercício de estilo que nunca é vazio nem desumano".
Mas, porventura, aquilo que me faz gostar deste filme é o abismo entre o imenso ruído visual e o imenso silêncio das personagens. Se quiserem, a gordura visual é compensada pela concisão do silêncio nos diálogos. Tal como o Blondie de Clint Eastwood, este cowboy de Gosling não tem nome, não tem passado e não fala. E, aqui, Refn é absolutamente clássico: deixa que Gosling e Carey Mulligan falem com o silêncio, só com o olhar. O amor não precisa de diálogos. No cinema ultra-dialogante que anda por aí (ex.: Aaron Sorkin), este silêncio de Drive parece coisa do Além.