Standard & Poor's coloca 15 países da zona euro sob "observação negativa"
Ao final de segunda-feira a agência de notação Standard & Poor's (S&P, pertencente ao grupo McGraw-Hill) fez uma comunicação colocando sob "observação com implicação negativa" 15 membros da zona euro, dos 17 que a compõem atualmente. Exclui a Grécia que já é classificada em nível de default altamente provável a curto prazo e manteve a anterior decisão de observação negativa para o Chipre.
A colocação em observação com implicação negativa significa que a agência está em vias de rever as notações dos 15 países. A agência informa que só procederá à revisão após apreciar os resultados da cimeira europeia de 8 e 9 de dezembro. O comunicado da S&P já surgiu após o fecho dos mercados da dívida na segunda-feira.
Agência assume "papel político"
Ewald Nowotny, do Banco central da Áustria e membro do conselho de governadores do Banco Central Europeu (que reune dia 8 de dezembro), acusou as agências de notação "de crescentemente estarem a assumir um papel político". Nas declarações que fez em Viena, ainda na segunda-feira, o banqueiro central sublinhou que estas decisões das agências "geram efeitos pró-cíclicos, o que significaimpactos que agravam as crises".
Também, o governador do Banco de França, Christian Noyer (membro do conselho de governadores do BCE) criticou terça-feira a metodologia "cada vez mais política" da S&P. A França é o país com a probabilidade de maior corte de notação entre os atuais membros do triplo A.
Segundo cálculos da Bloomberg, uma descida generalizada das notações dos membros da zona euro poderá afetar cerca de €6 biliões (6000 mil milhões de euros) de dívida soberana daqueles países.
Portugal poderá descer para dívida "especulativa"
Estão abrangidos nesta decisão todos os seis membros da zona euro que têm notação triplo A. Todos poderão perder esta notação máxima. No entanto, a agência sublinha que dos seis - Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Luxemburgo e Holanda - provavelmente só a França sofrerá um corte mais drástico, de dois níveis, o que significa que poderá ficar com um rating abaixo do dos EUA, e com uma clara diferenciação em relação aos outros cinco da zona euro.Todos os outros 9 poderão, também, descer dois níveis.
A S&P é a única agência entre as três principais que, ainda, não baixou o rating da dívida de Portugal e da Irlanda para o nível especulativo (vulgo "lixo"). O que poderá, agora, acontecer com uma descida de dois níveis. Se isso se concretizar, a notação de Portugal ficará "alinhada" com a da Moody's - descerá de BBB- para BB.
Se houver um corte na notação dos seis membros da zona euro com triplo A, e uma descida ainda mais acentuada no caso de França, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira ficará em cheque. Ou seja, o principal instrumento de intervenção europeu nas crises de dívida soberana fica afetado.
Stresse sistémico
A agência considera que o "stresse sistémico" aumentou nas últimas semanas, o que ameaça a avaliação de toda a zona euro, e não só de alguns dos seus membros.
A S&P fala de cinco factores "interligados" que marcam a atual situação de crédito de toda a zona euro, incluindo o núcleo duro e o próprio eixo franco-alemão:
- condições de crédito mais apertadas;
- prémios de risco elevados num número crescente de países, incluindo alguns com notação de triplo A;
- desentendimentos entre os decisores políticos sobre o curto e o longo prazo;
- níveis muito elevados de endividamento quer dos governos como das famílias;
- risco crescente de recessão em toda a zona (a S&P atribui-lhe, agora, 40% de probabilidade), e não só em Portugal, Grécia e Espanha.



