Os descapotáveis sempre exerceram um certo fascínio sobre os amantes de automóveis. No início da história do automóvel, quase todos eram assim ou, melhor, sucedâneos das carruagens do século XIX. Mais tarde, na belle époque, começaram a ser vistos dos dois lados do Atlântico como objectos de status, e os construtores faziam gáudio das suas criações, muitas delas extravagantes. Esta tendência prolongou-se mesmo depois do período do pós-guerra, em que eram vistos como uma afirmação de estilo de vida e até como um objecto exibicionista.
Hollywood contribuiu para esta aura com Humphrey Bogart, Clark Gable e Gary Cooper a cruzarem as avenidas ao volante dos magníficos Jaguar XK, Duesenberg, Bentley ou Bugatti. Porém, a mitologia dos descapotáveis também tem capítulos terríveis, como o acidente que vitimou a dançarina Isadora Duncan na Riviera francesa, na década de 20. Ela seguia a bordo de um Amilcar tripulado pelo seu jovem amante, quando a sua écharpe se enrolou na roda do carro, provocando-lhe a morte por estrangulamento. Depois, em 1955, um outro rebelde do star system perdia a vida ao volante do "The Little Bastard", alcunha que James Dean deu ao seu raro Porsche Spyder. Mas estes episódios não travaram a popularidade dos descapotáveis, que se democratizaram nos anos 60, com as grandes banheiras americanas como o Cadillac Eldorado ou os pequenos roadsters (de dois lugares) como Lotus, MG, Austin e os Alfas.
Hoje, quase todas as marcas têm descapotáveis, com motores diesel económicos ou de alta cilindrada. Alguns oferecem engenhocas para melhor isolar o habitáculo e aquecer os ocupantes, como o sistema Airscarf da Mercedes - uma espécie de cachecol de ar aquecido. Aqui ficam alguns dos que vão embelezar as estradas da nossa orla costeira. Porque conduzir com o céu como capota é um dos prazeres possíveis da vida.
Publicado na Revista Única do Expresso de 24 de Abril de 2010
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