Há aqui qualquer coisa que não bate certo.
Num dia o Ministério das Finanças ameaça punir os contribuintes a recibo verde que não entregaram uma declaração fantasma com a multa de duzentos e cinquenta euros, referente a dois anos. Num dos quais o Governo ignorou a declaração e não notificou os contribuintes. No dia seguinte, o protesto varre o país, a blogosfera, os jornais, chegando aos partidos da oposição, todos muito enfronhados. E ao terceiro dia, conforme as escrituras, as Finanças retiram a multa e abandonam a iniciativa.
Assim, sem mais. A ver se pega ou não pega. Não pegou? Ok, pensa-se noutra coisa. Esta é a política fiscal do Governo.
Uns dias depois, o próprio ministro das Finanças diz que admite retirar as garantias do Estado aos bancos se continuarem a não emprestar dinheiro às empresas. Espera aí, retirar as garantias aos bancos? Ele disse isto? Não foi ele que disse há pouco tempo que estas garantias serviam para salvar a economia portuguesa da crise e do colapso? E impedir a crise de chegar à economia real? Então, quando o Estado usa o dinheiro dos nossos impostos e do sacrifício colectivo para nos salvar, afinal não foi para nos salvar? E quando criou essas garantias com o nosso dinheiro não cuidou de verificar se os bancos as estavam a usar em proveito colectivo e não em proveito próprio? Não cuidou de sancionar e regulamentar o cheque que lhes passou? Ou foi um cheque em branco?
Suspeitamos que foi um cheque branco. Mais, passado sem utilidade nem benefício público e unicamente para que umas dúzias de milionários possam continuar a ser milionários, levantar o dinheiro das suas contas e preparar-se para uma vida com menos rendimento fácil. Conheço uma ou duas pessoas que tudo o que fizeram calmamente foi levantar o dinheiro e guardá-lo noutro lado, acabados os tempos das vacas gordas. "Noutro lado" significa num banco não português. Para que é que o estado salvou o BPN e o BPP? E para quem? E o BPN, a história interminável de vigarices e falcatruas, só produz um preso e um possível criminoso? Os outros, incluindo o intocável Dias Loureiro, já se explicaram? Não.
Os dias que vêm aí vão ser duros e José Sócrates e o seu Governo navegam à vista, sem se perceber o rumo. Injectam milhões atrás de milhões em instituições que não garantem retorno, e que não o vão dar. E de caminho exploram o contribuinte que não pode fugir ao fisco. O descontentamento ainda mal começou e Sócrates não percebe o sarilho em que está metido ao salvar os ricos em detrimento dos pobres e sobretudo dos remediados, a velha e pobre classe média, ameaçada com mais descontos, taxas, juros do empréstimo da habitação que não descem, aumentos brutais da electricidade, preços da gasolina e do gasóleo que não descem, e uma companhia aérea nacional que pratica preços exorbitantes, muito mais altos do que os da vizinha Iberia, que os portugueses começam a usar para não se sentirem tão explorados. Onde a espanhola Iberia cobra 625 euros para o Brasil a TAP cobra 835 euros. E ainda por cima ameaça com uma greve que põe em causa todos os que circulam entre Portugal e o Brasil e Portugal e África na altura do Natal e do fim do ano, e que são muitos milhares. Para que serve a TAP? Para nos cobrar mais? Para que serve o Estado? Para ser injusto, iníquo e imoral?
Na Grécia, o sr. Caramanlis pediu desculpa pela corrupção. Na França, o sr. Sarkozy continua a dar o dito pelo não dito, num dia é de extrema-esquerda e no outro de extrema-direita. Na América, o inacreditável Bush diz que tem que interferir na economia de mercado para salvar a economia de mercado. O sr. Barroso apela à unidade embora não se saiba bem para que serve a unidade. Como diz Sarkozy, o horizonte tem uma semana.
Tempos destes precisam de grandes homens e grandes chefes e a amostra que temos é a de meia dúzia de indecisos que não sabem o caminho a seguir. Num dia mostra-se a implacabilidade perante os professores, no dia seguinte mostra-se a falibilidade das contribuições e impostos e da sua perseguição aos cidadãos que pagam. Aquela multa seria dos actos mais vergonhosos de extorsão que um Estado pode praticar.
Se este Governo não arrepiar caminho esperam-no surpresas desagradáveis. As sondagens de nada servem quando metade da sociedade portuguesa vive em estado de quase pobreza, quando a desigualdade aumenta de dia para dia, quando as mulheres, as crianças e os velhos são as vítimas da crise, quando os preços continuam a subir, quando os milhões poupados na luta contra o défice e retirados aos contribuintes portugueses servem para salvar banqueiros infames e criminosos que continuam impunes. E ricos.
Neste cenário de desordem social, de que não estamos isentos, o melhor que Sócrates pode pedir à esquerda é que seja civilizada e faça encontros "de ideias" e "de estratégias". O melhor que Sócrates pode ter de Alegre é que ele seja, apenas, o candidato a Presidente da República. Quando a "economia real" perceber o atoleiro em que estamos, perceber para onde foi o seu dinheiro, o que Sócrates vai ter é barricadas e greves, palavras de ordem e protestos. É a rua, isso mesmo. A temível e formidável e perigosa rua. E sobre isso ele nada sabe.