O primeiro-ministro e secretário-geral do PS afirmou hoje que, se voltar a formar Governo, tudo fará para restaurar uma relação "delicada" e "atenta" com os professores, reconhecendo falhas na forma como lidou com este sector.
José Sócrates falava em entrevista à RTP, após ter sido confrontado com as medidas tomadas pelo seu executivo em relação a magistrados e professores.
Interrogado sobre o que fará para reconquistar a confiança destes sectores profissionais caso vença as próximas eleições legislativas, o líder socialista respondeu: "Farei o meu melhor".
"Acredito que exista crispação" e "um sentimento especial em relação às medidas que o Governo tomou", mas "farei tudo o que puder e o que estiver ao meu alcance para que esse ambiente não subsista".
Sobre as razões do mau relacionamento entre executivo e docentes, Sócrates admitiu que, da parte do Governo, "talvez não tivesse havido suficiente delicadeza no tratamento com os professores".
"Porventura falhámos aí nessa forma de nos explicarmos. Deixar criar a ideia de que nós fizemos isso contra os professores é tão infantil, nunca esteve no nosso espírito. Se isso aconteceu, farei tudo o que estiver ao meu alcance para corrigir isso", disse.
Sócrates disponível para relação "atenta"
Ainda neste capítulo da relação entre professores e Governo, Sócrates admitiu que a sua personalidade tenha contribuído igualmente para o ambiente de crispação.
"Não posso pôr isso de parte, mas não gostaria que isso acontecesse. Estou muito disponível para restaurar uma relação delicada e atenta a todos os problemas dos professores", frisou.
No entanto, segundo Sócrates, "os professores também têm de olhar para o que o Governo fez".
"Todas as medidas que tomámos foi em benefício do sistema público de ensino", disse, dando como exemplos o facto de o executivo ter colocado professores colocados por quatro anos, investido na requalificação das escolas secundárias e encerrado escolas com menos de dez alunos.
No início da entrevista, José Sócrates procurou encostar a presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, a posições conservadoras.
Sócrates declarou que o PSD "nunca esteve tão à direita como agora" e que entre si e Manuela Ferreira Leite "há fundamentalmente uma diferença de atitude".
Interrogado sobre o facto de o ex-dirigente socialista Pina Moura ter considerado o programa do PSD como o mais focado nas questões essenciais, Sócrates procurou desvalorizar, alegando que o PS é um partido plural com diversidade de opiniões. "Essa questão não tem essa dimensão e importância. Não vou perder tempo com isso", respondeu.
"Saímos da recessão, estamos longe de sair da crise"
Segundo José Sócrates "Portugal está longe de ter saído da crise" económica, sublinhando, no entanto, que o país "já está a crescer desde o segundo trimestre".
"As empresas estão a cancelar os 'lay-off', os dados do segundo trimestre mostram um crescimento pequeno, mas positivo, e os indicadores de confiança melhoraram nos últimos cinco meses", salientou José Sócrates. "Portugal foi dos primeiros a sair da recessão, mas estamos longe de sair da crise" económica, frisou. "Saímos da condição da recessão técnica, e isso é um belíssimo sinal", vincou o primeiro-ministro.
No dia em que os dados do Eurostat revelaram um desemprego de 9,2 por cento em Julho, o primeiro-ministro lembrou que "Portugal está abaixo da média europeia" e sublinhou que o país "tem dos subsídios de desemprego mais longos da OCDE".
Questionado sobre se o desemprego poderia chegar aos 10 por cento, José Sócrates admitiu que "o desemprego não parou ainda de subir", mas acrescentou esperar que "rapidamente entrará em declínio". De resto, o primeiro-ministro lembrou que "o desemprego começa normalmente a descer cerca de um ano depois da recuperação" que o país iniciou" no segundo trimestre, com um crescimento de 0,3 por cento.
Ferreira Leite "tem preconceito contra o Estado"
Questionado sobre se deixa o país em melhor estado do que em 2005, o primeiro-ministro respondeu que "não é possível comparar um país com a maior recessão mundial dos últimos 100 anos com um país que, há três anos, estava a crescer". Sócrates, aliás, considerou que "a legislatura tem dois momentos: houve 130 mil postos de trabalho criados em dois anos e estávamos a crescer 2 por cento, e de repente veio a crise", fazendo subir o desemprego, argumentou.
A protecção social, por isso, foi um dos aspectos que José Sócrates apontou como diferenciador face à líder do PSD, a quem acusou de ter um "preconceito contra o Estado". Há coisas, argumentou Sócrates, "que se o Estado não fizer, mais ninguém fará".
Durante a entrevista que durou cerca de 45 minutos, o primeiro-ministro anunciou também a criação de cinco mil estágios na Administração Pública para jovens licenciados e de 25 mil estágios no sector social para desempregados que não tenham apoio social. "Temos de pôr o Estado a ajudar", afirmou.
Se voltar a ser primeiro-ministro, as primeiras coisas que irá fazer na área económica passam por lançar o "Inov Social, um programa para colocar mil jovens licenciados nas instituições sociais, aprovar a conta poupança-futuro e apostar em mais internacionalização das empresas".
A verdade no caso Freeport
Sócrates manifestou-se convicto que a verdade "está a vir ao de cima" no caso "Freeport" e acusou Manuela Ferreira Leite de "asfixia democrática" por afastar pessoas por "delito de opinião".
"Espero uma conclusão do processo [Freeport] de forma formal. Até agora são apenas notícias", declarou José Sócrates na parte final da entrevista depois de confrontado pela jornalista Judite de Sousa com notícias que indicam que não será chamado a depor no âmbito deste caso.
No entanto, José Sócrates manifestou-se confiante que "a verdade vem sempre ao de cima e ela está a vir ao de cima e virá ao de cima" no caso Freeport.
Interrogado se espera que o caso Freeport esteja encerrado antes das eleições legislativas, Sócrates limitou-se a sublinhar a sua confiança na justiça. "A justiça tem de ter o seu próprio tempo. Não tenho o direito de exigir para mim mais do que para qualquer outro cidadão", respondeu o primeiro-ministro.
Questionado sobre o motivo por que nunca tomou a iniciativa de pedir ao Ministério Público para ser ouvido sobre o caso Freeport, o secretário-geral do PS afastou totalmente essa hipótese. "Não devo nada ao Ministério Público nem tenho nenhum problema de consciência. Era só que o que faltava", reagiu.
A seguir, Sócrates salientou que, no processo de licenciamento do Freeport, a sua "única participação nesse caso resumiu-se a uma única reunião".
"Dei orientações aos serviços para que se cumprisse a lei escrupulosamente, uma nova avaliação de impacto ambiental e nada mais do que isso. Esse empreendimento foi aprovado garantido todas as regras ambientais e, se houve alguém que referiu o meu nome, essa referência foi abusiva, ilegal e ilegítima", declarou.
Asfixia democrática
Ao longo da entrevista, José Sócrates traçar um cenário de bipolarização entre PS e PSD nas próximas eleições: "Só há dois partidos que podem ganhar as eleições e só há duas pessoas que podem ser primeiro-ministro", disse, já depois de ter apresentado as diferenças entre si e a líder social-democrata, Manuela Ferreira Leite.
Boa parte da entrevista foi de resto marcada por sucessivas críticas a Manuela Ferreira Leite.
Sócrates acusou a líder social-democrata de "confundir o país com o partido" a propósito das críticas que esta lhe fez sobre a existência de asfixia democrática em Portugal.
O secretário-geral do PS exemplificou com o caso de Pedro Passos Coelho que "não está nas listas [do PSD] porque pensa de maneira diferente", o que indicia um afastamento por "delito de opinião".
"Eu tenho nas listas do PS pessoas que discordam de mim", contrapôs, lembrando que João Soares, que foi seu adversário na corrida à liderança dos socialistas em 2004, é cabeça de lista do partido por Faro e na primeira vez que foi deputado entrou pela sua quota pessoal.
"Manuel Alegre foi convidado" para integrar as listas de deputados do PS "e decidiu não aceitar", acrescentou, referindo-se a outro dos seus opositores internos.
Interrogado sobre o papel que poderá ter o Presidente da República nas próximas eleições, José Sócrates começou por sublinhar a existência da parte do Governo de uma "cooperação institucional sem falhas".
A seguir deixou o seguinte comentário: "acho que o senhor Presidente da República não permitirá que ninguém utilize a sua figura institucional em seu favor. Cada um deve pedalar a sua bicicleta".
Um dos mais sexy primeiros-ministros
A fechar a entrevista, Judite de Sousa questionou Sócrates como se sente quando dizem que é um dos mais sexy primeiros-ministros da Europa.
"Não tenho a vaidade da falsa modéstia", disse, antes de referir que, em termos de apresentação pública, "não faz mais do que o cidadão comum", procurando andar "arranjadinho".
"Tenho uma vaidade, isso tenho. A minha única vaidade é os meus filhos", respondeu.