A polémica palestra, em novembro deste ano, no Instituto de Ciências Politicas de Poitiers, no centro da França, na qual José Sócrates declarou que "pagar a dívida é ideia de criança", não surpreendeu quem já o ouvira discursar num colóquio, em Paris, em janeiro de 2010.
Neste colóquio - "Novo Mundo, Novo Capitalismo" -, no qual falou a convite do Governo francês, o então primeiro-ministro português defendeu abertamente o aumento dos défices públicos, o que, segundo disse então, "permitiu salvar o mundo de uma catástrofe económica".
José Sócrates, que discursava perante o Presidente francês Nicolas Sarkozy, o primeiro-ministro francês François Fillon, diversos ministros, embaixadores, professores, economistas e altos funcionários, elogiou o endividamento dos Estados para financiar a banca e a economia. "A dívida evitou a crise", disse.
"Prioridade não é combater a dívida"
Depois do discurso, José Sócrates, que fora muito aplaudido por Nicolas Sarkozy, desvalorizou, em declarações a alguns jornalistas, entre eles o correspondente do Expresso, a necessidade de serem cumpridos os limites do défice estabelecidos por Bruxelas. Citando o economista e Prémio Nobel Paul Krugman, explicou: "O défice salvou o mundo, o aumento dos défices públicos salvaram o mundo de uma catástrofe que poderia durar muito tempo".
Na altura, José Sócrates estava visivelmente otimista, tendo acrescentado: "Agora estamos em condições de recuperar economicamente porque os Estados tiveram a coragem de aumentar os défices e a dívida".
No discurso, bem como nas declarações aos jornalistas, que foram ambos gravados, José Sócrates reconheceu ser necessário "dar sinais de que queremos reduzir a dívida, sabemos fazê-lo e já o fizemos muito bem entre 2005 e 2007 em Portugal", mas logo acrescentou que, naquele momento, em 2010, não era essa a prioridade.
"Agora a prioridade não é essa, mas sim a recuperação económica e a criação de emprego", concluiu então, defendendo a necessidade de prosseguir na via do endividamento através, designadamente, do investimento na construção das linhas dos comboios de alta velocidade (TGV).
"Campanha da direita contra a divida"
Em Poitiers, na conferência com jovens estudantes do polo ibero-latino-americano do Instituto de Ciências políticas, José Sócrates declarou que a "dívida dos Estados é eterna" mas reconheceu: "Abateu-se uma grande crise sobre o mundo desenvolvido, em particular sobre a Europa, e estamos a viver um dos piores momentos da história, só comparável à crise de 1929".
No entanto, apesar de ter reconhecido que a crise começou em 2007 - "e, hoje, em 2011 ainda estamos no inferno" - o ex-primeiro-ministro disse aos estudantes de Poitiers que não estava arrependido de nada do que fez. "Penso que hoje existe uma campanha da direita contra a dívida, contra o Estado Social, em defesa da ideia do Estado mínimo que não gasta...".