O primeiro-ministro, José Sócrates, limitou-se hoje à ironia quando questionado sobre a acusação do director do Público de que a divulgação de um e-mail entre jornalistas sobre escutas na Presidência da República é da responsabilidade dos serviços secretos que estão sob a sua tutela.
"O director do Público [José Manuel Fernandes] sempre teve uma imaginação muito criativa, mas não vou fazer qualquer comentário sobre essa matéria", afirmou José Sócrates no programa Fórum da TSF.
A acusação de José Manuel Fernandes, com quem a Agência Lusa tentou falar sem sucesso, foi feita aos microfones da TSF e da Rádio Renascença, responsabilizando o Governo pela divulgação de um e-mail interno entre o editor da secção Portugal, Luciano Alvarez, e o jornalista Tolentino de Nóbrega.
"Conhecendo de quem dependem os serviços de informações, que dependem do primeiro-ministro, e sabendo que estávamos a falar de um caso de escutas e sobretudo quando percebi que tinham ido parar a três órgãos de informação diferentes, acho que é um trabalho dos serviços de informações ou de alguém desse género", afirmou o director do Público na TSF.
Segundo José Manuel Fernandes, a divulgação do e-mail "confirma as suspeitas do Presidente da República" de que existem escutas.
O Diário de Notícias (DN) avançou hoje que o assessor do Presidente da República Fernando Lima foi a fonte do diário Público na sua manchete de 18 de Agosto, já em pré-campanha eleitoral, segundo a qual Cavaco Silva suspeitava estar a ser espiado pelo Governo liderado por José Sócrates.
O DN publica uma alegada mensagem de correio electrónico entre Luciano Alvarez e o correspondente da Madeira, Tolentino de Nóbrega, com instruções para seguir pistas fornecidas por Fernando Lima, supostamente por ordem directa de Cavaco Silva.
O episódio que aumentou a desconfiança por parte da Casa Civil do PR terá sido protagonizado por um assessor jurídico de Sócrates, Rui Paulo de Figueiredo, por este ter seguido de perto a comitiva de Cavaco Silva na visita à Madeira, há um ano e cinco meses, na comemoração dos 500 anos do Funchal. Rui Paulo Figueiredo já foi de assessor no Ministério da Administração Interna na actual legislatura, tendo desempenhado funções de vereador na Câmara de Lisboa, eleito pelo PS, no mandato anterior. Tem vários livros publicados, entre os quais a sua tese de mestrado em Ciência Política, com o título "Aníbal Cavaco Silva e o PSD - 1985-1995".
Apesar de ter tido acesso às informações na semana seguinte ao sucedido, o Público só avançou para a publicação há um mês. Entretanto, o líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, tinha adiantando o nome de Fernando Lima como a fonte da notícia do Público, na passada semana, em entrevista à SIC.
A agência Lusa tentou obter um comentário de Luciano Alvarez, um dos envolvidos no e-mail hoje divulgado, mas o jornalista não quis prestar declarações sobre o caso.
Também o assessor Fernando Lima, um dos principais visados nesta polémica, não esteve disponível.