Tal como tinha feito no debate quinzenal de há duas semanas, José Sócrates voltou esta tarde a colocar no centro do debate político a questão do Freeport, que não tinha sido levantada por nenhum deputado da oposição.
O primeiro-ministro fez mais do que isso: acusou, mais do que uma vez ao longo do debate, o PSD
de alimentar contra ele uma "campanha negra", à semelhança de outra que teria lançado antes das eleições de 2005. Só não esclareceu se essa campanha que atribui ao PSD
é a mesma de que tem falado ao longo das últimas semanas e que até agora vinha atribuindo a "forças ocultas".
Sócrates aproveitou uma pergunta do líder parlamentar do PSD
para abrir as hostilidades. Paulo Rangel questionou-o sobre as notícias recentes que davam conta de suspeitas de escutas do SIS sobre magistrados, considerando que se trata de "matéria gravíssima para o Estado", e pedindo esclarecimentos ao chefe do Governo, por ser ele o responsável máximo dos serviços de informações.
Sócrates garantiu que os serviços de informação cumprem a lei, mas desviou a questão para o Freeport, num tom muito exaltado: "Considero insultuosa a sua pergunta, e percebo bem... É um truque e uma táctica de quem quer trazer a questão do Freeport e dos serviços de informações para o debate na Assembleia da República
. Mas faça frontalmente e com coragem."
E acusou os sociais-democratas de fazerem uma campanha contra ele: "O PSD já desenvolveu essa campanha há quatro anos e procura desenvolve-la na mesma, afixando cartazes com ataques pessoais", disse, dando como prova o cartaz em que o JSD o acusa de não cumprir a palavra, comparando-o ao Pinóquio.
Rangel acusou Sócrates de se estar a vitimizar de forma "lamentável" e recusou a acusação de "manha" que lhe tinha sido deixada por Sócrates.
Exigiu que Sócrates respondesse às dúvidas, enquanto primeiro responsável pelos serviços de informações. "Ou é o responsável máximo pelos serviços de informações ou não é. Se é, tem que responder ao Parlamento.
Acha que há questões tabu? Não se lhe pode perguntar se os serviços de informações está a cometer ilegalidades?", indignou-se o líder parlamentar laranja. "Só faltava o primeiro-ministro gozar de imunidade de resposta relativamente a questões delicadas ou sensíveis!"
Sócrates contra-atacou, considerando que o PSD
"utiliza agora a JSD, como em 2004,para fazer cartazes vergonhosos para a nossa democracia". E mais tarde, no fim do debate, voltaria por sua iniciativa ao tema, apontando à oposição a "preocupação de o "atacar pessoalmente". Deu até outro exemplo dessa "preocupação": as conferências de imprensa em que Manuela Ferreira Leite o tem acusado de mascarar a realidade e não cumprir as promessas.
"Todas as semanas o PSD
dá uma conferência de imprensa para atacar o Governo e me atacar pessoalmente", acusou Sócrates - um sinal de que a nova estratégia dos sociais-democratas, focada nos conceitos de verdade e credibilidade, está a incomodar Sócrates e o Governo.