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ZX Spectrum. Muito mais que um espectro

O sucessor do mítico computador dos anos 1980 regressa com menos botões, um acesso à Internet e 1000 jogos instalados. Custa 100 libras (cerca de 127 euros).

Hugo Séneca

Quem nunca afinou um gravador de cassetes para correr um videojogo nunca vai perceber bem o que é um ZX Spectrum. O que não o impede de tentar a sorte no novo ZX Spectrum Vega. O "culpado" pelos TPC entregues fora de horas de mais de cinco milhões de crianças e teenagers dos anos 1980 voltou a dar sinal de vida, 32 anos depois, numa época em que as crianças têm dificuldade em perceber para que serve uma cassete. Mas vamos aos factos: aos 74 anos de idade, Sir Clive Sinclair, o criador do primeiro ZX Spectrum, apadrinhou uma campanha de angariação de fundos no IndieGoGo e, em apenas uma hora, amealhou as 100 mil libras necessárias junto de entusiastas que estão apostados em encomendar o novo sucessor do pequeno pioneiro da informática doméstica. Não vale a pena correr às lojas. O ZX Spectrum Vega apenas está disponível para encomenda no site IndieGoGo, por 100 libras (127 euros) - e já esgotou. As encomendas só serão entregues depois de fevereiro de 2015.

Desta vez, não são precisos gravadores nem cassetes para carregar jogos. A versão Vega do ZX Spectrum já terá mais de mil jogos compatíveis instalados. Não chega? Bom, então, o utilizador mais insaciável poderá recorrer aos downloads da Internet para jogar alguns títulos históricos ou simplesmente descarregar esses mesmos títulos através de cartões de memória SD. Sim, porque, segundo garante a Sky In-Home Service Ltd, que detém os direitos deste singular espólio, ao longo dos oito anos de comercialização (de 1982 até 1990) foram produzidos pelo menos 14 mil títulos para o antigo ZX Spectrum - e que agora ganham vida nova.

Notoriamente, Spectrum ainda é um nome que faz palpitar os corações de quem foi criança nos anos 1980 e esperou horas a fio em filas de espírito pouco natalício à porta de lojas cujos nomes soam quase tão estranhos quanto os nomes de Chuckie Egg, Manic Miner, Match Day, Jet Set Willy e um sem número de jogos que inundaram o imaginário da pequenada sempre à boleia da pirataria que as cassetes permitiam. Na ressurreição do histórico computador, há essencialmente um móbil predominante: a nostalgia. O nome da empresa que garantiu o fabrico da nova máquina é elucidativo: Retro Computers, empresa sedeada nos arredores de Londres, que conseguiu conciliar o desejo dos gammers mais velhos com o engenho de Chris Smith, a maior sumidade em ZX Spectrum, e a participação da Sinclair Research, a empresa em que Clive Sinclair prosseguiu a carreira, depois do fim do sonho do ZX Spectrum.

Sim, porque o ZX Spectrum foi um sonho que acabou (apesar de na Rússia e em alguns países de Leste se ter mantido vivo até à década passada). Clive Sinclair acumulou prejuízos com alguns modelos mais evoluídos do Spectrum e também com um não menos ambicioso projeto de desenvolvimento de um carro elétrico e teve de vender o ZX Spectrum para a rival Amstrad, em 1986.

Antes desta passagem de testemunho e nos quatro anos que se seguiram, surgiram modelos com memórias de 16 KB, 48 KB, 128 KB (hoje, é normal encontrar nas lojas de especialidade PC com 8GB de memória RAM), mas o destino estava traçado: o ZX Spectrum já não podia competir com o crescendo de popularidade das consolas nipónicas ou com os computadores pessoais montados à medida dos desejos dos clientes nas lojas de esquina - e que gradualmente passaram a correr um sistema operativo quase universal (o Windows!). 

Sem comandos estranhos ou tempo de espera

O novo Vega pouco terá de PC - é uma consola e os mentores da nova máquina não têm pruridos em assumi-lo. Não foi feito para programar; e não exige comandos estranhos como load " " , nem é necessário esperar cinco ou dez minutos para carregar um jogo que, por vezes, terminava numa mensagem de erro (tape loading error) que, hoje, seria suficiente para deixar um operador da linha de reclamações da DECO de cabelos em pé, mas que, nos idos 1980, se repetia vezes sem conta - até ao computador conseguir interpretar os sons que eram ditados pelo gravador enquanto lia a cassete. No caso do novo Spectrum, basta navegar por menus para escolher o jogo, que é carregado imediatamente, ou pressionar o botão de reset para sair desse jogo.

Sendo assumidamente uma consola, o novo Vega resume-se ao que é essencial nos dias de hoje: um cabo para se ligar à TV, os botões de cursor similares aos de qualquer comando de consola; o já referido leitor de cartões de memória; e o não menos importante acesso à Internet. No interior, encontra-se um processador ARM, que não será propriamente um portento quando comparado com os PC de hoje que têm processadores de 1,5 GHz, mas será seguramente bem mais sofisticado que o processador de 3,5 MHz do modelo dos anos 1980.

Na página da IndieGoGo, não há muitos mais detalhes sobre o armazenamento de dados e sobre a memória RAM, placa gráfica (sabe-se que o sistema vai dar mais cores aos jogos antigos) ou sistema operativo: o que reforça a ideia de que, para a família "Spectrum", a nostalgia é mais importante que a sofisticação tecnológica. Os números ajudam a confirmar o poder da nostalgia: enquanto foi escrito este texto, o primeiro stock de 1000 máquinas vendidas esgotou. Mais de 107 mil libras (136 mil euros) foram angariadas; e quem chegou atrasado terá de se contentar com uma de duas alternativas - ou envereda por um livro ou pela inscrição do nome num memorial; ou tenta reservar uma das três mil máquinas que serão produzidas depois de fevereiro.

No vídeo de apresentação, Chris Smith lembra que o Vega pouco mais é que uma placa de eletrónica com um processador, memória RAM e armazenamento flash. A placa será pouco maior que um telemóvel, mas o mentor técnico da nova consola garante que "tem todos os jogos que queremos jogar". Será desta que o ZX Spectrum sai do museu?