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"Vou ter dois minutos para decidir o resto da minha vida"

FOTO JOSÉ VENTURA

Futuros médicos começam esta terça-feira a escolher a especialidade que vão exercer. Tiveram apenas 18 horas para refletir e já há protestos em várias administrações regionais de saúde do país.

É um calendário muito apertado e sem qualquer precedente. Os médicos que terminaram o ano comum, o primeiro após os seis anos de licenciatura, tiveram apenas 18 horas para refletir sobre a especialidade que vão exercer e o centro de saúde ou o hospital onde vão passar, pelo menos, os próximos quatro, cinco ou seis anos - conforme a área clínica selecionada. E a escolha propriamente dita será ainda mais súbita: dois minutos no máximo, dizem os candidatos.

As vagas foram publicadas na segunda-feira à noite pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e o processo de escolha tem início esta terça-feira, às 14h30. Vai prolongar-se até sexta-feira, com os 1548 candidatos divididos por 'tranches' crescentes. Na primeira tarde do processo estão escalados 278 médicos e na sexta-feira já serão quase 500 a escolher. Nos dias respetivos, os candidatos a especialista vão ter de deslocar-se às instalações das administrações regionais de saúde (ARS), incluindo nas ilhas, e esperar para, à vez, se sentarem em frente ao computador dedicado ao processo.

"Todos levamos uma lista feita para ter opções face às vagas que vão ficando preenchidas, porque, fazendo as contas, temos poucos minutos para escolher. Eu vou ter menos de dois minutos para decidir o resto da minha vida", lamenta Diogo Pereira, médico formado na Covilhã e candidato na região Norte. "Todo o processo é baseado num regulamento do Internato Médico que não foi cumprido. Fala-se em dez dias de reflexão e tivemos 18 horas e querem terminar o processo em três dias e meio quando o concurso anterior se prolongou por três semanas", critica o jovem médico. "Isto é uma falta de respeito e de bom senso."

A opinião é partilhada por muitos outros médicos e pela própria Ordem dos Médicos (OM). Logo na segunda-feira à noite, os candidatos iniciaram uma petição para entregar nas várias ARS e na terça-feira de manhã já havia candidatos concentrados junto aos edifícios para tentarem obter esclarecimentos. Vários responsáveis da Ordem também protestaram, pedindo o alargamento dos prazos.

O presidente do Conselho Regional do Norte da OM, Miguel Guimarães, exige que "o início das escolhas seja adiado, pelo menos, 48 horas; que o tempo de escolha seja alargado para oito dias (em vez dos atuais três dias e meio), e que o início de funções na formação especializada (a 2 de janeiro) seja adiado 15 dias de forma automática para quem o solicitar". "O Ministério da Saúde mostra-se irredutível e não acatou as nossas sugestões. Como é possível tanta desorganização da ACSS num processo que acontece todos os anos?", pergunta o presidente do Conselho Regional do Centro e coordenador do Conselho Nacional da Pós-graduação, Carlos Cortes.

Os responsáveis da ACSS respondem ao Expresso que a intenção foi "garantir um rápido período de escolhas por forma a não coincidir com a quadra natalícia e a menorizar eventuais prejuízos aos candidatos, havendo a possibilidade do período de escolhas ser alargado por um ou dois dias conforme". E acrescentam que "a própria Associação Nacional de Estudantes de Medicina manifestou já junto da ACSS a sua compreensão com o atraso do processo, motivado por via do esforço desenvolvido para encontrar uma vaga para cada candidato".

No total serão 1548 candidatos para 1519 vagas normais e mais 29 preferenciais, em unidades do país mais remotas. A medicina geral e familiar lidera com 498 lugares, 11 dos quais nos Açores e na Madeira, enquanto a cirurgia torácica só tem uma vaga: no Centro Hospitalar de Lisboa Central, que inclui o Hospital de Santa Marta, por exemplo.