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Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar

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Numa aula dirigida a alunos do 10º ano, o presidente do Tribunal de Contas falou sobre o que "não tem preço - a honra, a dignidade e a verdade" - numa lição para prevenir o futuro e a corrupção. E houve Sophia de Mello Breyner para lembrar quem somos e o que há à nossa volta.

Mafalda Ganhão (texto) Marcos Borga (fotos)

"Estão a ver o empreiteiro que faz o orçamento aos vossos pais, para as obras lá em casa? E de como, geralmente, se acaba no 'já agora aproveitava e fazia também...' Nesse dia, o orçamento morreu e a família acaba a pagar o dobro, porque pediu algo que não estava 'contabilizado".

Depois das gargalhadas da plateia - na sua maioria jovens de 15 e 16 anos, a frequentarem o 10º ano - o presidente do Tribunal de Contas (TC), Guilherme d'Oliveira Martins, continua a aula especial que foi apresentar esta quinta-feira de manhã na Escola Secundária de Miraflores, em Algés, e explica como a analogia serve para perceber o grande problema das obras públicas.

"O Tribunal de Contas, no âmbito das suas funções, percebeu que ao longo de 30 anos há derrapagens que vão desde o dobro do inicialmete previsto a valores que representam sete vezes mais", detalha, o que na prática significa "estar-se a desperdiçar dinheiro que é de todos nós".

E o que tem isto que ver com corrupção? De "maus cadernos de encargos" e regras que permitem a desresponsabilização resulta a "libertação de dinheiro" que, por sua vez, favorece a corrupção", conclui o presidente do TC

Os alunos estão atentos. "Todos somos imperfeitos e vulneráveis a ela", acrescenta Guilherme d'Oliveira Martins, para depois insistir na necessidade da prevenção. 

Subornar o Pai Natal Antes mesmo da sua apresentação, o tom da manhã ficou dado com a exibição dos vídeos distinguidos no concurso "Imagens contra a corrupção", uma iniciativa já com três anos e que incentiva os alunos de todo o país a criarem um pequeno filme onde o tema seja abordado "pela positiva", ou seja, pela promoção dos valores de cidadania e formação cívica.

São vídeos originais, com um deles a mostrar um Pai Natal a deixar-se subornar com um copo de leite e uma bolacha. Em troca, risca o nome de uma criança da lista das que se portaram mal, para a inscrever no grupo das que vão receber prendas (retirando de lá uma menina de facto merecedora).

Nem de propósito, Guilherme d'Oliveira Martins afirma, mais tarde, que é assim. "A corrupção começa por um pequeno favor e por algo que até toleramos", para depois evoluir até escalas mais complexas e criminosas, tendo manifestações em todas as áreas da sociedade."

Os paraísos fiscais favorecem-na, diz ainda o presidente do TC, referindo-se aos crimes económicos, mas fala depois da experiência do "mayor" de Nova Iorque - muito criticado no início - mas cuja ação ao nível da pequena criminalidade (penalizando coisas como partir montras ou fazer grafitos não autorizados) "teve resultados extraordinariamente positivos". 

"Não podemos ignorar" Tem de se começar pelas pequenas coisas, o que no caso dos alunos que tem à sua frente, acrescenta, passa por combaterem a indiferença, fazendo o que está certo. "Estando atentos, participando, estando informados." 

Está a terminar a aula "Prevenir o Futuro", que também sentou na sala/auditório da Secundária de Miraflores o presidente da Câmara de Oeiras, Paulo Vistas, a coordenadora da rede de bibliotecas escolares, Manuela Silva, o diretor-geral do Conselho de Prevenção da Corrupção, José Tavares, e a própria diretora da escola, Fátima Rodrigues. Mas antes da fase das perguntas, difíceis de se fazer ouvir - seja pela ausência de dúvidas ou pelo embaraço - ainda há tempo para citar Sophia de Mello Breyner: "Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar".

Há acenos de concordância. E muitos aplausos quando Guilherme d'Oliveira Martins termina, voltando ao início. "Somos todos imperfeitos, mas temos uma enorme qualidade: podemos ser melhores".