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Vamos ter mais guerra, guerra, guerra e alguma meteórica paz

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A 5ª temporada de "A Guerra dos Tronos" estreia no Syfy esta segunda-feira. O vício e a pirataria estão de volta.

António Loja Neves, em Londres

Gelo e fogo. Dia e noite, inverno e verão, guerra, guerra, guerra e alguma meteórica paz, ódio e amor, macho e fêmea, mais ódios e amores. É a série mais pirateada de sempre e baseia-se no conteúdo da sequência de livros escritos por George R. R. Martin, que já apresenta extraordinário pendor 'cinematográfico'. Não é de admirar: o escritor trabalhara, antes, dez anos em Hollywood como autor de argumentos e produtor de séries e filmes de sucesso. Depois de alguns best-sellers, em meados dos anos 90 inicia a saga que lhe traria definitivamente a fama mundial: "A Guerra dos Tronos". Passaram a ser os livros de fantástico mais vendidos, ultrapassando os concorrentes numa especialidade com muitos candidatos e que estava na moda. Daí à televisão foi um ápice.

Rodada principalmente nos estúdios Paint Hall, em Belfast, tem-se servido de décors na Irlanda, em Espanha, Marrocos, Croácia, Malta e Islândia. Nada de melhor para criar envolvências que se aproximam com génio de ambientes da Idade Média. A 1ª temporada estreou em abril de 2011. Em quatro anos venceu 14 Emmys.

Os argumentistas escolhidos - com algum cuidado de supervisão do atento Martin - foram David Benioff e D. B. Weiss, a que se juntaram mais tarde Jane Espenson e Bryan Cogman. Uma equipa de luxo. A cada temporada, Martin tem o privilégio de escrever um dos episódios. A série de televisão, que agora estreia a sua 5ª temporada, segue livremente as diversas histórias dos livros "As Crónicas de Gelo e Fogo" ("A Song of Ice and Fire"), como é chamada a sequência editorial.

Décors. Os de “A Guerra 
dos Tronos” são desenhados ao pormenor, com o rigor só usado usualmente em cinema e raras vezes visto em séries de televisão atuais

Décors. Os de “A Guerra 
dos Tronos” são desenhados ao pormenor, com o rigor só usado usualmente em cinema e raras vezes visto em séries de televisão atuais

Num voo picado sobre a temática, recordemos o essencial. Trata-se de apresentar a vida e as peripécias dos Sete Reinos, mostrando as lutas violentas entre famílias pelo controlo do Trono de Ferro de Westeros. Apesar do poderio desta estranha e heteróclita comunidade de clãs, nem a Muralha a protege de povos e tribos habitando regiões desconhecidas, situadas para lá dessa barreira quase intransponível. Os tempos não são de bonança e a vida é frequentemente austera e agreste. Trata-se, afinal, de um pastiche da ideia de Idade Média que nos habita desde sempre e que constrói em nós um certo imaginário.

As coisas, contudo, não são tão lineares quando falamos da escrita rica, criativa e irreverente de George R. R. Martin. Primeiro as referências, se incidem na caracterização dos tempos medievais, espalham-se por mais épocas e por episódios específicos que são quase como referenciais de homenagem. E há claras alusões a trabalhos, pelo menos a frases ou conceitos filosóficos, vindos de Shakespeare, Freud, Nietzsche, Maquiavel, Lovecraft, Cromwell, Platão e outros mais. Os campos de concentração, a Velha Grécia, o cristianismo e a sua luta contra 'hereges' e heresias, o Oriente com a sua filosofia e comportamentos... e mais piscares de olho à caminhada da Humanidade, numa prova de grande erudição que não é usual.

A produção televisiva guindou-se à altura desses pergaminhos. Primeiro com um exímio trabalho de resumo que respeita o discurso da escrita no essencial e no rigor e o introduz, com ritmo certo, na gramática cinematográfica, bem mais do que na estrutura tradicionalmente televisiva; depois, através de um rastreio de atores que vestem magnificamente as personagens que lhes são destinadas. São exemplo de brilhantes intérpretes - e dos mais queridos do público - o anão Tyrion, do clã Lannister; a princesa Daenerys Targaryen e a sua arte de domar e envolver-se com dragões, que reanima de longas letargias; a bruxa Melisandre; Jon Snow, um dos bastardos de Eddard Stark, ansioso por juntar-se à mítica Patrulha da Noite, grupo de estoicos vigilantes que, como cruzados, mantém uma cuidada atenção para evitar as invasões das tribos selvagens que vivem para lá da Muralha.

Jovem atriz. Maisie Williams no papel de Arya Stark, a filha mais nova do clã Stark. Treinada para usar armas, disfarça-se de rapaz para melhor poder escapar a perseguições — uma atitude clássica presente em muitos livros de aventuras considerados clássicos

Jovem atriz. Maisie Williams no papel de Arya Stark, a filha mais nova do clã Stark. Treinada para usar armas, disfarça-se de rapaz para melhor poder escapar a perseguições — uma atitude clássica presente em muitos livros de aventuras considerados clássicos

Mas esta 5ª temporada traz novidades. Há personagens que iniciam a sua participação: as filhas de Víbora Vermelha, o rei Oberyn Martell, assassinado na 4ª temporada, apelidadas de Serpentes da Areia, que juram vingar o pai; Obara Sand, a grande guerreira, letal e feroz, rápida de movimentos; Nymeria Sand, de uma beleza sedutora, que usa como arma mortal; Tyene Sand, doce e sensível, com "umas mãos suaves mas traiçoeiras", embora aparente inocência. Depois, mas em lugar de destaque, uma dupla 'única' (ver caixa na pág. 53): Doran Martell, senhor de Lançassolar, irmão mais velho do martirizado Oberyn, vítima de morte sangrenta - apesar de ser diplomata, furtar-se-á à luta de morte entre a casa Martell, a que pertence, e a de Lannister?; e o seu guarda-costas, o possante Areo Hotah. Estas novíssimas 'aquisições', além de serem personagens respigadas dos livros, cumprem a clara substituição da catrefada de mortes, um dos cartões de visita da série.

Dizem que a sequência que agora se estreia traz-nos ainda mais violência e mais sexo, dois tópicos que têm sido alvo de polémica ao longo dos anos de exibição de "A Guerra dos Tronos". Nas sucessivas entrevistas feitas em Londres, essa foi uma pergunta recorrente. O estreante Deobi reage categoricamente: "Quando dizem que é muito violenta, ponho-me a pensar onde têm essas pessoas a cabeça para imaginarem e desejarem uma sociedade pacata e pacífica em pleno ambiente de Idade Média, se nem hoje chegámos já a essa condição de forma permanente! Não é só no enredo criado por Benioff e Weiss que há mortes em barda, repentinas e imprevisíveis, até para nós atores que lhes damos corpo...

Na vida real, hoje, isso acontece de forma dramática. A bem dizer, nunca sabemos se, ao apanhar um comboio ou ao ir às compras ao supermercado, não seremos envolvidos por uma ação bombista." O seu companheiro de muitas cenas é da mesma opinião: "Não se trata de uma violência que choque o telespectador, está caracterizada e justifica-se no desenvolvimento do enredo, A meu ver, os argumentistas criaram para si um limite inteligente para o teor da violência patente na série." Liam Cunningham, o Davos Seaworth, também é taxativo: "Não acho que a série tenha ultrapassado os seus limites, os argumentistas têm sido perspicazes no seu enquadramento. Vale a pena realçar que se trata de colagem a uma época em que a vida humana era algo que valia muito menos do que hoje valorizamos, e a agressividade guerreira, irreprimível, era o pão de cada dia. Não defendo que cada vez mais violento melhor, mas cumpre a sua função no contexto da história e expõe com certo realismo o embate de personalidades guerreiras daqueles tempos." E continua: "É uma história de extremos onde as paranoias pululam quase sem controlo."

Quanto a isto, a 5ª temporada não muda nada. Até acentua. E há similitudes entre o que se passa na série e o mundo real. Liam conclui: "Sim, é tempo de ficarmos um pouco assustados. Também é verdade que confrontamos, na série, os poderosos diante dos desígnios do poder e o destino do homem comum, o que perfaz uma equação que obriga, instintivamente, a fazermos um paralelo com a política do nosso tempo. Não queria muito entrar num discurso político, mas, nos tempos que correm, até parece que os nossos políticos se debatem com a vontade de competir para ver qual deles é o maior! Não se interessam pelo nosso bem-estar, nem pelo nosso futuro, muito menos por assumirem decisões que poderiam trazer-nos conforto e estabilidade."

De facto, por várias vezes, a série denuncia o que o poder pode ocasionar, mesmo em gente decente, tornando-a oportunista e corrupta. Alexander Siddig lembra: "Se fizermos o nosso trabalho na série, é caso para dizer aos nossos políticos de hoje: 'Não sejam assim para com os que representam, não se comportem assim...' Penso que seria insultar a audiência se abrandássemos a violência. A mesma coisa para as cenas de nu e de sexo. As audiências voltar-nos-iam as costas e diriam: 'Não nos lixem, não sejam paternalistas, deixem-se de moralismos serôdios... Então como é que era naqueles tempos?'"

A política dos guionistas é tecer esse equilíbrio entre crueldade 'histórica' e fantasia, a que se junta a modernidade de determinados sentimentos então menos valiosos. Especialmente quando os dirigentes das nossas sociedades não cuidam desses conceitos de humanismo de maneira consistente e proba e até parecem desejar regredir até à Idade Média. Não será por acaso que George R. R. Martin integra no seu trabalho a tradição cultural entre os conceitos, os traumas, os princípios morais e as respetivas questiúnculas. Nomeadamente Alexander Siddig faz o paralelo entre as polémicas a propósito dos dois maiores excessos de que "A Guerra dos Tronos" é acusada: "No que respeita à violência, é igualmente o que se passa com a carga sexual patente. É preciso ser ingénuo para pensar que nos tempos que correm isso não passe nas televisões. Mas aqui há uma prorrogativa que conduz com naturalidade essas cenas. Estou muito satisfeito por poder fazer parte deste projeto. Mas cada pessoa deverá, em consciência, julgar por si e saber reagir perante o que concluir."

No seu conjunto, a temporada que nos preparamos para visionar tem diferenças, nos amores, nas guerras, em todos os confrontos. Porque esta é uma história que evolui constantemente, de forma surpreendente e inesperada, que os atores adoraram representar pela aventura que sentem ao poderem inovar a sua personagem e criar-lhe novas perspetivas e caminhos. E continua a haver um sem-número de arrepiantes zombies, dragões encantadores quanto ruins, prostitutas nuas, pactos e traições, ciladas, adultérios... Um não acabar de estímulos que nos entusiasmam enquanto fãs deste que é um dos mais importantes trabalhos para televisão dos últimos anos e cujo recorde de downloads já se cifra em quase seis milhões só após um episódio, o último da 3ª temporada, em 2013. Restará ainda saber quantas famílias veem, em todo o mundo, ao serão, os episódios, todas juntas. É que este enredo não está focado apenas para um só tipo de audiência.

Elas. Não são as únicas, mas são das personagens femininas mais poderosas: a holandesa Carice van Houten, a bruxa Melisandre (em cima), e a inglesa Emilia Clarke, a senhora dos dragões Daenerys (em baixo)

Elas. Não são as únicas, mas são das personagens femininas mais poderosas: a holandesa Carice van Houten, a bruxa Melisandre (em cima), e a inglesa Emilia Clarke, a senhora dos dragões Daenerys (em baixo)

Não haverá saga sem a presença da mulher. Dócil, cáustica, poderosa, servil ou ardilosa. Em "A Guerra dos Tronos", ao contrário da tradição nas histórias de recorte medieval, são candidatas diretas ao poder, em compita com os homens, pelejadoras por natureza. Não são donzelas românticas e perfeitas nem esperam por fins edílicos onde são felizes para sempre. Nas obras de George R. R. Martin, desenham os seus destinos e sofrem para consegui-los. Afirmam o mesmo poder que os homens, fazem o bem e o mal indiscriminadamente, não se demitem perante um mundo feito de regras machas.

Essa novidade tem suscitado o interesse dos espectadores pela posição da mulher, especialmente pelas personagens de Daenerys e de Melisandre. Nas entrevistas recolhidas em Londres, Carice destacou essa qualidade em comparação com a situação no campo do cinema: "Melisandre tem um carácter forte, por isso a admiram e aderem à sua performance. É uma personagem shakespeariana, o que agrada a largo leque de espectadores. Influenciará também o facto de no cinema haver cada vez menos papéis femininos relevantes. É muito triste, um péssimo sinal dos tempos." E acrescentou: "Eu própria tenho experiência dessa realidade. Mesmo para as grandes atrizes rareiam papéis centrais. São coadjuvantes, donas de casa, esposas, mulheres a tratar de crianças. Não há mal nisso, o complicado é quando a maioria das propostas se resume a essas temáticas. Por isso, mantive a decisão de filmar sobremaneira no meu país, por termos um número significativo de realizadoras, o que permite ter papéis femininos com perfis complexos, independentes, com 'destinos' autónomos." Emilia Clarke, que continua a dar-se maravilhosamente com os seus dragões, é, na série, a personagem com personalidade mais vincada.

É contactada na rua por jovens que lhe afirmam orgulho e admiração. "É das maiores recompensas como atriz, a constatação de que influenciamos a sensibilizamos de forma tão vincada pessoas muito jovens, em formação da personalidade. É espantoso. A minha personagem dá-lhes confiança e capacidade de impor-se nas circunstâncias que enfrentam na vida." Emilia não se considera militante radical do poder pelo poder para as mulheres, mas esclarece: "Atualmente, há uma regressão da condição feminina. Precisamos de ser fortes e reagir, ter consciência disso, combater as distorções, os retrocessos. Urge encorajar as jovens a crescerem livremente, a terem confiança na sua feminilidade. Estou muito satisfeita por ver que 'A Guerra dos Tronos' permite às mais novas - e espero que aos rapazes também - pensarem na sua condição e tomarem o seu futuro nas mãos."

Eles. Duas novas personagens sublinharão a 5ª temporada: Doran Martell (o ator Alexander Siddig, em cima) e Areo Hotah (Deobi Oparei, em baixo)

Eles. Duas novas personagens sublinharão a 5ª temporada: Doran Martell (o ator Alexander Siddig, em cima) e Areo Hotah (Deobi Oparei, em baixo)

Raras vezes se viu um duo tão diverso, quase antagónico, e ao mesmo tempo tão entrosado, no plateau quanto na vida real. Estreiam-se esta temporada na trama de "A Guerra dos Tronos". Serão o príncipe Doran, do clã Martell, herdeiro do trono após o assassínio dos seus antecessores, e o chefe da sua guarda pessoal e guarda-costas com a missão específica de o proteger e o apoiar na invalidez causada por um adiantado processo de gota que o deixa praticamente imobilizado.

O primeiro é branco, esguio e alto. Cidadão britânico nascido no Sudão, contracenou nas séries "Star Trek" e "Da Vinci's Demons" e no filme "Merlin", entre outros. O segundo é negro retinto, nascido em Londres, homenzarrão corpulento, qual númida saído das tábuas dos álbuns de Astérix imaginados por Goscinny e Uderzo.

O primeiro é muçulmano praticante e tem por nome completo Siddig El Tahir El Fadil El Siddig Abderahman Mohammed Ahmed Abdel Karim El Mahdi. Mas os mais próximos chamam-lhe Sid. Sortudos! O segundo grafa o seu nome também como Dhobi Operei, é gay assumido e tem um percurso vertiginoso no negócio do entretenimento: foi ator de teatro, mas o seu percurso profissional não se manteve estável, desistindo até de uma experiência shakespeariana, passando a atuar em cabarés, onde foi striper, drag queen, dançarino e criador de guiões para espetáculos. Ele completa e explica-se: "Fui até prostituto, quer dizer, escort boy. Não me incomoda que me perguntem por essa fase da minha vida, não acho que procedesse com licenciosidade, talvez haja licenciosidade na forma como alguns especulam quando falam disso. Eu andava de companhia em companhia a fazer papéis muito sérios. Cheguei a Sydney e pensei: 'É aqui que quero ficar uns tempos, mas não como ator!' Tinha 23 ou 24 anos, queria divertir-me, precisava viver, não sabia o que era a verdadeira vida fora dos ensaios e representações! Decidi escapulir-me, e foi importante para a minha maturidade enquanto ator, acho que era mesmo uma pessoa diferente quando regressei."

Siddig, que partilha a entrevista, remata: "Ele também deve ter aprendido o que era a brutalidade da sociedade em que vivemos, porque interpreta magnificamente esse lado da personagem dele e sabe como enfrentar a agressividade ao defender-me. Fazemos realmente um par curioso, eu doente e quase impossibilitado de mexer-me, ele meu guarda-costas... mais do que isso, meu guardião." Um após o outro, em considerações alternadas. É a vez de Deobi: "Eu destacaria o edonismo de Doran. Quando rodámos em Espanha, num palácio mourisco, estávamos no sítio ideal para as nossas personagens, um décor criteriosamente escolhido, como todos os sets da série, deslumbrantes, cinematográficos. Ele no papel de uma pessoa doente, quase entrevada, e eu esta personagem imensa, imponente. Todo o ambiente e o nosso contraste fazem uma espécie de fogo incendiário em televisão! Quanto à minha performance, isso não se ganha na noite nem sequer no bas-fond. A realidade, com gente a morrer às centenas na Síria e em países africanos, com o ataque ao jornal 'Charlie Hebdo', com a ameaça sob que vivemos, é aí que tomamos consciência de que o mundo está descontrolado e cruel e constatamos a fragilidade da vida."

 

O Expresso viajou a convite do Syfy