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Uma viagem ao passado com os Guias de Portugal

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Gulbenkian. Raul Proença concebeu o Guia de Portugal em papel nos anos de 1920. Agora poderá ser lido em versão digital

D.R.

Fundação Calouste Gulbenkian lança em versão digital os históricos guias concebidos por Raul Proença.

Em 1924, num tempo português muito conturbado, feito de intensas lutas políticas e grandes movimentações sociais, com a Ditadura Militar a germinar no espaço que lhe abriam para despontar dois anos depois, Raul Proença, acompanhado dos melhores escritores do seu tempo, deitou mãos à empresa de editar um Guia de Portugal que iria ficar para a história e preencher o imaginário de gerações de portugueses, com reedições sucessivas ao longo de décadas.

Originalmente editado em cinco volumes com oito tomos publicados entre 1924 e 1969, o Guia de Portugal conhece agora uma nova vida ao ser disponibilizada uma versão digital dividida em oito volumes que poderão ser descarregados para telefones inteligentes e tabletes, após a compra no sítio da Fundação. 

A apresentação dos primeiros livros eletrónicos integrados no Plano de Edições da Gulbenkian foi feita numa sessão com a presença de José Afonso Furtado, antigo diretor da Biblioteca de Arte, e de Manuel Carmelo Rosa, responsável pelas edições da Fundação.  

Concebido entre a 1ª República e os inícios do golpe militar de 28 de maio de 1926, que deu origem ao regime fascista vigente em Portugal até 1974, o Guia de Portugal surgia numa altura de crescente atenção ao turismo, como o demonstra a criação da Sociedade de Propaganda de Portugal, em 1926, ou a realização do 4.º Congresso de Turismo de Portugal, em 1911.

Escadaria do Bom Jesus (Braga)

Escadaria do Bom Jesus (Braga)

D.R.

Constituía, além disso, uma espécie de resposta portuguesa a guias como os Baedeker, criados pelo alemão Karl Baedeker e que rapidamente conseguiram assinalável sucesso na Europa dos finais do século XIX e princípios do século XX. Com um volume dedicado a Espanha e Portugal, tratava-se de guias feitos com um cuidado extremo, e sobretudo pensados para que o viajante pudesse ter autonomia total. Conta-se, inclusive, que os guias Baedeker, iniciados em 1828, dispunham de um sistema de asteriscos tão completo, destinados a localizar e valorizar os principais sítios, que os alemães, durante a II Guerra Mundial os utilizaram para bombardear em Inglaterra todos os pontos assinalados com três estrelas. 

O Guia de Portugal dirigido por Raul Proença distinguia-se, antes de mais, pela quase ausência de imagens e pela qualidade literária das descrições, ao ponto de, como assinala uma nota da Gulbenkian ao reproduzir o pensamento de Raul Proença, pretender ser "simultaneamente um minucioso roteiro do país; um repertório artístico; uma obra de sólida literatura descritiva; uma antologia da nossa literatura pitoresca; um processo, um testemunho dos estrangeiros sobre Portugal; e, enfim, uma bibliografia escolhida do que se tem escrito sobre o nosso país".

Vista do Porto

Vista do Porto

Sérgio Granadeiro

O projeto desenvolvido por Proença não pode ser desligado das suas próprias opções políticas e dos meios em que se movimentava. Este político nascido em 1884 nas Caldas da Rainha, iniciara, nos anos finais do regime monárquico, uma carreira de jornalista em jornais republicanos de Lisboa. Muito próximo de António José de Almeida, defendeu em armas a República contra as tentativas restauracionistas e, como sublinha a "Infopédia", da Porto Editora, "contra as correntes filo-fascistas que iam ganhando força".

Em 1921 ajuda a fundar a "Seara Nova", integra a Renascença Portuguesa e o chamado grupo da Biblioteca Nacional, onde era bibliotecário e onde colaborou com Jaime Cortesão. Ora, é no âmbito da Biblioteca Nacional que vai nascer o primeiro volume, com 700 páginas, dedicado a "Generalidades - Lisboa e Arredores". 

Logo aí se percebe o recurso ao que de melhor havia entre a intelectualidade portuguesa, o que lhe garantia, até do ponto de vista científico, o rigor e a qualidade tantas vezes ausentes dos guias vulgares. Proença quis ter do seu lado, não só os melhores escritores, como os melhores especialistas em história de arte, geografia física e humana, arqueologia, etnografia ou antropologia. Entre os convidados para este volume de estreia estão Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Reinaldo dos Santos, a que se juntam inúmeros textos do próprio coordenador, bem como de Afonso Lopes Vieira, Jaime Cortesão, José de Figueiredo, Câmara Reis, Teixeira de Pascoaes, Júlio Dantas, Orlando Ribeiro, Oliveira Ramos ou Raul Lino, autor da imagem gráfica do projeto e um dos mais importantes arquitetos da época.

O segundo volume é ainda publicado pela Biblioteca Nacional, incide sobre "Estremadura, Alentejo, Algarve" e é disponibilizado no final de 1927, já com o país submetido à ditadura militar. O escritor participara em fevereiro daquele ano numa fracassada sublevação constitucionalista contra o novo regime, o que acaba por o levar ao exílio em Paris, onde passa para inúmeras privações testemunhadas pelo escritor José Rodrigues Miguéis. 

À capital francesa acabam por lhe chegar ecos de uma polémica suscitada por algarvios descontentes com o modo como era descrito e desvalorizado o vinho da região. Continuam a colaborar alguns dos que já apareciam na estreia, aos quais se juntam, entre outros, Hernâni Cidade, José Rodrigues Miguéis, Sarmento de Beires ou Teixeira de Sampaio. O prefácio é assinado por Raul Proença, agora, como assinala o embaixador Francisco Seixas da Costa no seu blogue intitulado "Duas ou três coisas", já na qualidade de "ex-chefe dos serviços técnicos da Biblioteca Nacional". O regime tinha-o, entretanto, "demitido das funções que ocupava desde 1911".

Neste prefácio, Proença assume que o Guia não pretende ser "um bonzo doméstico" para "o fútil destino de ornamentar as estantes e os móveis das saletas". Pretende-se, antes, "um companheiro de viagem (...), pronto a ser consultado a cada momento". Nesse sentido tem vantagem em ser um livro portátil. Seixas da Costa assinala que "do texto transparece já, todavia, uma amargura profunda em Proença, sintoma do seu destino político e pessoal trágico, depois de ter combatido com armas o novo regime, que o levaria ao exílio em Paris, onde viveu alguns anos em condições de enorme dificuldade, em St. Germais-en-Auxerrois".

Mata do Bussaco

Mata do Bussaco

Ana Baião

O terceiro volume é publicado apenas em 1944, em plena ditadura salazarista, e versa a "Beira Litoral, Beira Baixa e Beira Alta". Tem ainda o carimbo da Biblioteca Nacional, mas Raul Proença já morrera três anos antes, no Porto, no Hospital Conde de Ferreira, onde chegara com uma saúde muito débil. Júlio Dantas, iInspetor Superior das Bibliotecas e Arquivos, colaborador da obra desde o início, terá tido um papel crucial na publicação, bem como o diretor da Biblioteca, tenente coronel Costa Veiga. O escritor e pensador Sant'anna Dionísio aparece como novo coordenador, situação em que se manterá até o final do projeto. É um volume que inclui ainda textos de Egas Moniz, Eugénio de Castro, Ferreira de Castro, João de Barros, Raul Brandão, Tomaz da Fonseca e Vitorino Nemésio. 

Os quarto e quinto volumes são já da responsabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian, cujo então presidente, Azeredo Perdigão, fora amigo pessoal de Raul Proença e participara também na "Seara Nova". Surgem, porém, vinte anos depois da publicação do terceiro volume. É só em 1964 e 1965 que são divulgados os dois volumes relativos a "Entre Douro e Minho", um sobre o Douro Litoral, o outro sobre o Minho. Em 1969 e 1970 são editados os volumes sobre "Trás-os-Montes e Alto Douro", um sobre "Vila Real, Chaves e Barroso", o outro sobre "Lamego, Bragança e Miranda". Após uma diminuição de qualidade dos textos no quarto volume, este último volta a contar com nomes de peso, como Miguel Torga, João Sarmento Pimentel ou Ribeiro de Carvalho.

Terreiro do Paço (Lisboa)

Terreiro do Paço (Lisboa)

Ana Baião

Raul Proença propunha uma viagem singular, rigorosa e informada ao património material, paisagístico e histórico das cidades, vilas e aldeias de Portugal. Lê-lo agora é como que uma aliciante peregrinação a um tempo outro, onde reconheceremos as marcas de uma existência perdida, e onde conviveremos com a memória do que tendo sido e proporcionado um conjunto de sensações e imagens, é agora fator de novas vivências. Porque os tempos mudam. Porque Portugal, sendo o mesmo, é já outro.