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Uma rádio pública, um assassinato com 15 anos e, claro, talento. É o que basta para cativar milhões

CRÉDITOS: FACEBOOK DO PODCAST "SERIAL"

Uma radionovela jornalística sobre um crime real nos EUA tornou-se o podcast mais popular do iTunes. É um mistério e uma dádiva.

Luís M. Faria

Jornalista

Embora se diga que uma imagem vale por mil palavras, a voz humana tem uma aptidão insuperável para transmitir a emoção de quem fala, as suas intenções e vulnerabilidades, e até, não raro, a verdade ou mentira do que se diz. Agora um podcast veio lembrar-nos isso mesmo. Intitulado "Serial" e produzido numa estação de rádio pública em Chicago, tornou-se o maior sucesso do género no iTunes, com cinco milhões de descargas e uma média semanal de milhão e meio de ouvintes. Espantoso é que não seja uma radionovela nem um programa desportivo ou sobre celebridades, mas uma obra de jornalismo. Concretamente, uma investigação sobre um crime de há 15 anos, cujo presumível autor - na realidade, há muito sentenciado como tal - se encontra preso desde então.

A 13 de janeiro de 1999, Hae Lee Min, uma adolescente de 18 anos que frequentava o liceu Woodlawn, em Baltimore County, no estado norte-americano de Maryland, desapareceu misteriosamente. Um mês depois, o seu cadáver apareceu num parque. Tinha sido estrangulada logo a seguir ao desaparecimento. A polícia veio a concluir que o assassino fora o seu ex-namorado, Adnan Syed. Filho de paquistaneses emigrados nos EUA, era um jovem popular tanto junto dos seus colegas como da sua comunidade, na qual muitas pessoas recusaram vê-lo como criminoso. Porém, um amigo chamado Jay relatou que, a solicitação dele, colaborara na ocultação do corpo. Após um julgamento de semanas, o júri demorou escassas horas a declará-lo culpado e Syed foi condenado a prisão perpétua (a troco do seu testemunho, Jay escapou à cadeia).

Syed negou sempre o crime, embora não recorde onde se encontrava à hora exata do crime - como se havia de lembrar, semanas depois? Mas os procuradores conseguiram convencer o júri da versão que apresentaram sobre ele. Contaram que Syed, filho de muçulmanos devotos, lhes escondia que saía à noite, bebia álcool e fazia sexo com raparigas - logo, era um mentiroso compulsivo. Que ficara furioso por Hae ter terminado a relação com ele, pouco tempo antes. Que transmitira previamente ao seu amigo Jay o plano de a matar (Jay não o levara a sério), entregando-lhe o seu carro e o seu telemóvel, para efeitos de alibi. E que, uma vez cometido o crime, mostrara a Jay o cadáver na bagageira do carro de Hae e lhe pedira que o ajudasse a enterrá-lo.

Nenhum amigo o viu irritado - excepto aquele que o denunciou

Os defensores de Syed notam que as alegadas provas da sua natureza falsa são afinal coisas banais, comuns a grande parte dos filhos de emigrantes, sobretudo os oriundos de países como o dele. Um adolescente com pais conservadores que cresce na América enfrenta diariamente o dilema entre cumprir os mandamentos ou viver a sua vida normal. Syed escolheu a rota mais frequente, cumprindo com regularidade os deveres do bom muçulmano - ir à mesquita, ajudar em boas obras, respeitar os pais - enquanto fazia às escondidas aquilo que é próprio da sua idade. A necessidade de mentir dava-se como adquirida numa situação como a dele na altura. Vários ex-colegas surgem no podcast a reconhecer que faziam exatamente o mesmo que ele.

Quanto à sua alegada fúria por ter sido abandonado por Hae, o facto é que os dois se mantiveram em contacto depois da separação, aparentemente bons amigos, ao ponto de ela lhe ter pedido que a socorresse num dia em que ficou parada na estrada. Syed acorreu, embora Hae estivesse acompanhada do seu novo namorado. Mais uma vez, todos os amigos - exceto Jay - garantem que nunca deram por quaisquer sinais de fúria ou obsessão na sua atitude. Claro que ele podia ter escondido esse lado, ou a vontade assassina ter-lhe surgido de repente. Mas não constam indicações disso. 

Também não há quaisquer provas físicas, à parte as impressões digitais de Syed no carro de Hae (onde ela foi estrangulada). Não provam nada, pois ele esteve com ela nesse carro muitas vezes durante os meses que durou a relação entre os dois. E é igualmente inconclusiva a evidência dos telemóveis. Em suma, se há um episódio que levanta suspeitas, ou pelo menos permite sugestões que alimentam a versão dos motivos apresentada pela acusação, é apenas o que teve lugar quando Syed levou Hay a um baile no liceu. Mal os dois apareceram, alguém avisou os pais de Syed e eles apareceram lá, gerando um pequeno escândalo e muita tensão.

Convém anotar que, conforme alguém explica no programa, na cultura dos pais dele as pessoas não namoram. Ou são casadas ou não são, ponto final. Ao surgir com uma rapariga em público, Syed violou essa norma conservadora e envergonhou a sua família. Os procuradores dizem que o profundo embaraço foi um dos fatores que mais tarde o fez reagir mal ao ser deixado por Hay. Tinha sacrificado demais por aquela relação, a nível familiar e emocional, e afinal não obtivera nada em troca. Contudo, os amigos dizem que ele até brincava como o assunto. Só Jay garante ter-lhe ouvido que ia matar a ex-namorada. 

Quinze anos depois, pessoas muito diferentes

"Serial" é um 'spin-off' de outro programa radiofónico bastante elogiado, "This American Life". Tal como anteriormente, o formato assenta em histórias reais. A ideia é, em cada temporada, acompanhar um caso ao longo de doze edições semanais, permitindo que a história, de certa forma, evolua com o programa. Assim acontece com o caso agora analisado, onde a jornalista Sarah Koenig entrevista os intervenientes originais - incluindo Syed, que lhe liga da cadeia - e ainda especialistas em questões de crime. O resultado é uma espécie de radionovela jornalística que mostra a flexibilidade desse meio para abordar temas factuais, em geral bastante superior à da televisão.

Koenig chegou à história através de uma amiga de Adnan que a contactou após ter lido um artigo dela sobre Cristina Gutierrez, a advogada que representara Syed no julgamento. Anos depois, Gutierrez fora obrigada a deixar a advocacia, por se haver apropriado de dinheiro de clientes, e a peça de Koenig era sobre isso. A jornalista concordou que os problemas profissionais de Gutierrez podiam eventualmente ir além do abuso de confiança e aceitou examinar o comportamento dela nesse caso antigo.

Cada edição tem um tema (O Alibi, A Separação, Inconsistências, O Caso Contra Adnan Syed, Rumores...) e dura entre 30 a 50 minutos. Koenig admite que não tem uma posição final sobre o assunto e examina com minúcia as camadas de ambiguidade que revestem as atitudes e afirmações dos participantes. Tem-se sempre a sensação de ver sucessivas caixas a abrir dentro de caixas dentro de caixas. A seguir a cada programa, há novos telefonemas a oferecer informação. Ninguém parece ser absolutamente verdadeiro, ou - no limite - absolutamente mau ou bom. E muitas pessoas, 15 anos depois, são de facto pessoas diferentes. Os adolescentes deram lugar a homens e mulheres casados, com angústias e responsabilidades e filhos.

Só algumas não tiveram essa oportunidade. Hae, que morreu, Syed, que vive uma meia-vida na cadeia, e o pai dele, que desde o assassinato passa os dias fechado no quarto a ler livros islâmicos. Em janeiro, um tribunal vai decidir um recurso extraordinário apresentado pelos advogados de Syed, com base no argumento de que a sua advogada não o representou devidamente. Gutierrez nem sequer procurou falar com uma jovem que lhe enviou uma carta onde assegurava ter estado com Syed na biblioteca da escola à hora do crime. A carta existe e a jovem também, mas esses recursos só têm sucesso numa ínfima minoria dos casos. Se desta vez acontecer, ninguém no tribunal dirá que foi por causa da rádio.

 

"Serial" vai para a internet às quintas-feiras, mas convém seguir a ordem dos episódios, começando pelo primeiro. O endereço oficial é serialpodcast.org. Os produtores anunciaram recentemente que, quando terminar a primeira série de doze programas, haverá uma segunda temporada, financiada com contribuições obtidas através de um apelo público.