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Um telemóvel é uma dor de cabeça

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Alerta. A forma como segura o telemóvel pode estar a afetar-lhe a coluna

Jonh Lamb/Getty Images

É frequente consultar o telemóvel quando vai a andar na rua? Costuma levar o tablet para a cama? Já sentiu o pulso dorido depois de estar muito tempo a enviar mensagens? Então, atenção, pode estar a arranjar problemas de saúde.

Carolina Reis (texto) Ana Serra (infografia)

Quando, no intervalo das consultas, Fernando Fonseca viu uma paciente, com mais de 50 anos, a jogar no Blackberry percebeu que a força e a velocidade com que ela teclava podiam ser a razão para as dores de que se queixava. Depois do alerta, o ortopedista fez um teste clínico e confirmou a teoria. Tratava-se de uma tendinite do polegar, ou melhor uma "blackberrynite". A palavra pode parecer brincadeira, mas o assunto é sério. "Há lesões de sobrecarga, como as tendinites, que se devem ao mau uso que fazemos das novas tecnologias", explica Fonseca, que é diretor da Ortopedia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Movimentos repetitivos como estar sempre a teclar, passar várias horas por dia com a cabeça inclinada para ver o ecrã do smartphone, ou segurar no aparelho só com uma mão são hábitos que, à primeira vista, parecem inofensivos. Mas não são. "Tenho visto mais síndromas do túnel do cárpio e isso está relacionado com as tecnologias", sublinha o médico.

Num país que é, na Europa, o que mais usa a internet para comunicar nas redes sociais, segundo um inquérito do Instituto Nacional de Estatística, os médicos devem estar alerta. Porém, não é fácil estabelecer uma relação entre as lesões e os smartphones. Os pacientes que chegam à consulta de Fernando Fonseca não se queixam de usar muito tempo o telemóvel. Chegam com dores típicas das lesões de sobrecarga, sendo a tendinite a mais comum, causadas pela constante repetição de movimentos e posições. "Muitas vezes as pessoas não admitem estes comportamentos e não podemos fazer uma relação direta." É por isso que o médico tenta perceber quais são os gestos que os pacientes mais fazem no dia a dia antes de determinar a causa.

Foi precisamente a ver a ligação de um paciente com o seu iPad que o cirurgião ortopédico norte-americano Kenneth Hansraj desenvolveu um dos primeiros estudos sobre a relação da postura com as novas tecnologias. O chamado "pescoço do SMS", como ficou conhecido, veio confirmar o que já se suspeitava: estar sempre a consultar o telemóvel faz mal à coluna. É que a maneira como inclinamos a cabeça, aproximando o queixo do peito, algo que milhões de pessoas fazem todos os dias para ver os e-mails, atualizar o estado do Facebook ou colocar uma foto no Instagram, faz uma pressão nas vértebras cervicais que pode chegar aos 27 quilos. Quase o mesmo que andar com uma criança de oito anos aos ombros. "É muito comum ver pessoas, principalmente jovens, com um desgaste precoce e com os discos e as vértebras danificadas. É muito frequente e já há algum tempo que isso me intrigava", explica ao Expresso o médico norte--americano, que já operou mais de 30 mil pacientes.

Fã assumido das novas tecnologias, Kenneth Hansraj faz questão de dizer que a tecnologia é uma "grande aliada da medicina", mas nem sempre se usufrui dela da melhor maneira.

Uma questão de postura Com o aumento do uso dos smartphones - o Barómetro de Telecomunicações da Marktest diz que metade da população portuguesa já tem um -, cresceu também a quantidade de tempo que se passa online. E o nível de stresse no pescoço também. "Parece uma epidemia, não é exagero. E torna-se mais grave quando se trata de jovens. É possível que num ano acumulem 5 mil horas nesta posição", alerta o cirurgião norte-americano.

No ano passado foi identificada, pela primeira vez, uma whatsappinite, ou seja, uma tendinite provocada pelo excesso de mensagens enviado através da aplicação Whatsapp. A história parece bizarra mas é bem real. Na véspera de Natal de 2013, uma médica espanhola esteve de banco e não pôde enviar as tradicionais mensagens. Para compensar, no dia seguinte esteve agarrada ao telemóvel, e de pulso fletido, a desejar Boas-Festas.

"Ela [a paciente] segurou o seu telemóvel, que pesava, pelo menos, 130 gramas, durante 6 horas. Durante este tempo fez movimentos contínuos com os dois polegares para enviar mensagens", lê-se na revista científica "The Lancet", onde o caso foi relatado. Nos primórdios da 'whatsappinite' está a 'nintendinite', uma síndroma parecida que nos anos 90 foi detetada em jovens que passavam demasiadas horas a jogar consola.

O resultado para evitar estes problemas não passa por deixar de usar o telemóvel ou jogar no computador. É uma questão de adotar uma posição correta e ter moderação. "Se a postura for correta não há dor ou lesão. Aliás, se estiver a ler um livro mal apoiado tem o mesmo resultado do que se segurar de forma errada no telemóvel", explica Paulo Beckert, fisiatra e médico da Federação Portuguesa de Futebol. Sem querer estabelecer uma relação direta entre telemóveis e dores de coluna - porque não conhece estudos científicos suficientes -, o médico admite que crescem as lesões por causa da postura. "Sim, há mais queixas, mas isso também acontece porque as pessoas estão mais expostas à tecnologia." O tratamento é só um: reeducar a postura. Para isso, há que perder o hábito de andar na rua inclinado para conseguir ler e responder aos e-mails, deixar de ir no autocarro apoiado só com uma mão enquanto se usa a outra para mandar mensagens, ou ficar enterrado no sofá a jogar. Acabar com estes comportamentos pode evitar muito mais do que dores.

"A boa postura é uma questão de sobrevivência", alerta o médico posturologista Orlando Alves, o primeiro a estudar o tema em Portugal. Desde que começou a analisar a maneira como nos sentamos para trabalhar, comer ou estudar, o médico tem observado um declínio. "O nosso conceito de postura mudou e piorou. 10% da população tem problemas posturais." Ao seu consultório chegam cada vez mais pessoas com tendinites e contraturas causadas por coisas tão simples como a maneira como se sentam no emprego em frente ao computador. Os problemas de saúde, porém, não se ficam por aí. A palidez, mãos e pés frios e suados, morder a bochecha involuntariamente, tonturas, sensação de embriaguez, dislexia, fadiga ou dificuldades em respirar são sintomas que costumam surgir. "O sistema propioncetivo, que transmite as informações ao nosso cérebro, dá-lhe indicações incorretas. Por exemplo, a respiração pode passar a ser feita com a parte superior do tórax em vez de ser com o diafragma, que é a melhor maneira de respirarmos." É a prova de que o homem está preparado para andar numa posição ereta, não foi feito para ter a cabeça baixa e inclinada.

O computador também queima As doenças ou síndromas impulsionadas pelas novas tecnologias não se ficam pelas más posições que adotamos. Desde que os portáteis começaram a substituir os computadores de secretária, graças à sua leveza e duração de baterias, que passaram a ir para todo o lado. Quem nunca levou o portátil para a cama ou ficou sentado com ele ao colo no sofá que levante o braço. Quem já o fez, muito provavelmente, sentiu um calor que obrigou a colocar uma manta ou um pano entre as pernas e o portátil. E ainda bem. É que senão corria o risco de ficar com umas manchas vermelhas que, em caso extremo, podem deixar danos para o resto da vida. "Chama-se eritema ab igne, também acontece quando se passa demasiado tempo ao pé do aquecedor ou quando se coloca um saco de água muito quente em contacto com a pele, e é uma consequência da exposição prolongada ao calor acima dos 43ºC. Não causa queimaduras, mas, nos casos mais graves, as manchas vermelhas tornam-se castanhas e ficam para o resto da vida", explica a dermatologista Daniela Cunha.

Em Portugal, ainda não há re latos de casos assim tão graves. O ano passado, porém, um investigador da Universidade de Miami descreveu o caso de um homem de 24 anos que durante três dias seguidos, e por períodos de 4 horas, esteve com o portátil ao colo. "O paciente reconhece que sentiu o calor, contudo não mudou de posição", lê-se no artigo publicado na PubMed, uma base de dados dedicada aos artigos médicos e gerida pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. A história mais dramática vem da Alemanha. Um homem sofreu uma amputação parcial do pé esquerdo por ter estado demasiadas horas com o portátil ao colo. "Este é um caso em que em que os danos térmicos causados por um portátil no colo resultaram em graves queimaduras de segundo e terceiro graus", escreveu o cirurgião plástico Felix Julian Paprottka num artigo também publicado na PubMed.

Mais comum, e já agora menos grave, é a síndroma da vibração-fantasma, aquele momento em que se jura que se ouviu o telemóvel tocar ou vibrar sem que isso tenha acontecido. Já existia com o telefone, agora intensificou--se. Para a médica Helena Estêvão, especialista em sono no Centro Cirúrgico de Coimbra, "tem a ver com estados de ansiedade ou com o medo de que alguma coisa vá acontecer."

Igualmente comum é a sensação de cansaço provocada pelas luzes do ecrã do computador. Mas isso pode não ser mais do que um incómodo passageiro. "Há 41 anos que estudo a visão e nunca vi um trauma ocular, como uma perda aprofundada da visão, devido a um computador", frisa o médico António Travassos. Porém, recentemente, a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia alerta que os tablets e smartphones estão a fazer aumentar a miopia nas crianças.

O mais grave para os mais pequenos, no entanto, são as influências que estes aparelhos provocam no sono. "Ao usá-los antes de ir dormir isso vai fazer com que levem mais tempo a adormecer, pois vão estar estimulados", frisa Helena Estêvão, que também é pediatra. Deficiência de sono em tenra idade deve ser uma preocupação para os pais, pois afeta a capacidade de performance na escola, dificulta o convívio e pode provocar agressividade. "Se os pais usarem moderadamente estas novas tecnologias há uma probabilidade de as crianças seguirem o exemplo."

No que toca ao sono, também os adultos têm motivos para estarem preocupados. É que levar o telemóvel para a mesa de cabeceira, estar a mandar mensagens e ver o e-mail até adormecer, pode estar a roubar-lhes horas de sono. As luzes libertadas por estas novas tecnologias impedem a libertação de melatonina, uma hormona que desregula o ciclo circadiano, espécie de relógio biológico, influenciado pela luz, que nos dá a indicação para dormir. Computadores, televisões, tablets e telemóveis devem ficar barrados à entrada do quarto, não é suficiente desligá-los apenas minutos antes de dormir. As imagens da televisão, mesmo que já se esteja a dormir, perturbam o sono. É caso para dizer que ao quarto o que é próprio do quarto.

Texto publicado originalmente na edição do Expresso de 20 de dezembro de 2014