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Um susto sem consequências. Polícia diz que não há crime na explosão na pedreira

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FOTO RUI MINDERICO / LUSA

As autoridades policiais não detetaram nenhum indício criminal relacionado com a explosão numa pedreira de Sesimbra, que se fez ouvir em quase toda a grande Lisboa há pouco mais de uma semana. Mas continuam sem saber o que correu mal. Aparentemente não há danos nas arribas da Arrábida.

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Afinal não passou de um estrondo, sem grandes consequências. A Polícia Judiciária não encontrou qualquer indício de crime e não conseguiu perceber se houve ou não negligência. "Foram cumpridos todos os procedimentos legais e a operação foi a adequada", afirma ao Expresso fonte da PJ.

Entretanto, o Ministério Público está a analisar o relatório policial "com vista à detecção de eventuais contraordenações" e "as queixas de danos feitas por particulares", que fazem avançar o inquérito criminal, indica a  Procuradoria Geral da República. Não houve mortos nem feridos, mas a empresa responsável pela explosão poderá ter de pagar uma coima pelo distúrbio provocado e de cobrir os danos materiais causados a particulares. 

Seguro cobre vidros partidos

A Maxampor, empresa responsável pela destruição do material explosivo e do cordão detonante na pedreira da Sobrissul (conhecida como da Mata Redonda), "garante que isto não costuma acontecer e está tudo coberto pelo seguro", afirma Francisco Luís, vereador da Proteção Civil na Câmara de Sesimbra.

O Expresso tentou saber se a Maxampor vai acionar o seguro para cobrir os danos, mas da filial portuguesa, em Alcochete, dizem que o diretor geral da empresa, António Milagre Martins, "aguarda pelos resultados do inquérito do Ministério Público e só se deverá pronunciar sobre este assunto na próxima semana". Num comunicado enviado às redações, a Maxampor afirma que "a operação de eliminação de explosivos em fim de vida e a forma como deve ser realizada, está devidamente contemplada na lei" e que "foram solicitadas e obtidas as pertinentes e prévias autorizações junto das autoridades", e "seguidos os procedimentos habitualmente praticados neste tipo de operação". 

O vereador Francisco Luís não se lembra de alguma vez ter sentido tamanho estrondo oriundo das pedreiras do concelho e recorda que, "sempre que se realizam operações do género, é normal acionarem um alarme para avisar as pessoas". Porém, não houve mensagem de aviso sonoro desta vez, porque não era suposto haver explosão.

A destruição do material explosivo começara às 16:30 e decorrera durante toda a tarde, tendo os 12 quilómetros de cordão detonador ficado para o fim. O material foi colocado, na parte mais funda da pedreira a cerca de 40 metros de profundidade e era suposto ser destruído por combustão, como explicou ao Expresso, na semana passada, o porta-voz da PSP, Paulo Flor. Este responsável garante que "foram cumprindo todos os procedimentos". Mas em vez da queima lenta, ocorreu uma explosão que se fez sentir na margem norte do Tejo, de Cascais a Vila Franca de Xira.

"Algo correu mal, mas aparentemente não houve consequências de maior", garante o vereador Francisco Luís. Esta "foi também uma lição" para a Câmara de Sesimbra. Apesar de legalmente não ter de ser notificada para este tipo de actividades, a autarquia pretende, daqui para a frente, ser "informada, mesmo que oficiosamente, para poder avisar a população e não haver o alarme social que aconteceu desta vez".

Arribas sem danos aparentes

A violenta explosão ? que deixou "sinais infrasónicos" às 22:19 de 1 de abril, em três estações sísmicas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera ? apenas teve como consequência vidros partidos e portas abertas pela deslocação de ar.

O facto de "ter sido uma explosão superficial, acima do substarato fez com que a maior parte da propagação das ondas tenha sido atmosférica  (e daí ouvir-se tão longe), embora o impacto da vibração no substrato geológico rochoso tenha sido diminuto", esclarece José Carlos Kullberg, investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

"O que aconteceu foi um acidente isolado que perturbou a tranquilidade naquele momento, mas numa primeira análise não foram detetadas evididências de fragiliaddes provocadas nas arribas da Arrábida", garante Paula Sarmento, presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). 

Este instituto não é consultado para este tipo de operações nas pedreiras do Parque Natural e Paula Sarmento faz votos para que "não haja outra ocorrência do género". E, sublinha, "numa área protegida é preciso haver tranquilidade".

Na noite de 1 de abril essa tranquilidade foi perturbada, mas o facto de não ter tido réplicas, terá permitido que as águia-de-Bonelli, que nidificam no Parque Natural da Arrábida, não se tenham assustado e debandado. O ICNF vai continuar a monitorizar a área protegida, para verificar as repercussões deste "evento isolado".

Também nas grutas que albergam espécies protegidas de morcegos não há "estragos visíveis". "Felizmente foi só uma onda de choque e nos locais incluidos na zona em redor da explosão, não verifiquei qualquer alteração, nem nas arribas, nem nos taludes das pedreiras", explica Francisco Rasteiro, dirigente do Nucleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA). Já "se a explosão fosse debaixo de terra, aí certamente  haveria outros estragos".