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Três semanas depois de ver Julianne Moore a receber o Óscar pelo seu filme, terminou o calvário de Richard Glatzer

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Wash Westmoreland e Julianne Moore posam junto a Richard Glatzer, numa apresentação do filme "O meu nome é Alice" em Hollywood, California, em novembro do ano passado

Alberto E. Rodriguez/Getty Images

Uma semana triste para o cinema com a morte de Richard Glatzer, codiretor do filme "O meu nome é Alice", que valeu o Óscar de melhor atriz a Julliane Moore. Afetado pela esclerose lateral amiotrófica nos últimos quatro anos, realizara a sua última obra com a ajuda do marido e assistira já hospitalizado à entrega do Óscar.

Richard Glatzer suspirou pela última vez esta terça-feira, quase três semanas depois de ter visto Julianne Moore ganhar um Óscar de melhor atriz pelo filme "O meu nome é Alice", que dirigiu com o seu marido Wash Westmoreland, quatro anos depois dele ter sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Foram mais de mil dias em que Glatzer acordou e lutou para conseguir mexer os braços, os dedos, a cabeça, e respirar por conta própria. O esforço cada vez maior e a autonomia cada vez menor. É assim que a doença degenerativa do sistema nervoso leva à paralisia motora progressiva, sem cura mas com uma esperança viva: Stephen Hawkins. O cientista foi diagnosticado com a doença aos 21 anos de idade e hoje, aos 72, continua vivo e produtivo.

Richard Glatzer tinha 63 anos e era casado com um homem que partilhava a sua paixão: o cinema. Pouco depois do diagnóstico médico, o casal começou a trabalhar na adaptação à tela do best-seller homónimo de Lisa Genova, "O meu nome é Alice", que valeu à Julianne Moore o Óscar de melhor atriz nos Academy Awards, a 22 de fevereiro.

A atriz interpretou o papel de Alice, uma professora de linguística, que depois de passar a linha dos 50, começou a esquecer-se de algumas palavras. Efeitos da doença de Alzheimer, que a atacou "antes do tempo".

Com o Óscar nas mãos, Moore mostrou-se emocionada pela ausência dos seus diretores no Teatro Dolby, em Los Angeles, que tiveram de vê-la a subir ao palco na televisão do hospital, pois dois dias antes da cerimónia o estado de saúde de Glatzer piorara.

Com lágrimas nos olhos, a atriz agradeceu-lhes no seu discurso e aplaudiu a força de vontade de Glatzer: "Quando Richard foi diagnosticado com ELA, Wash perguntou-lhe o que ele queria fazer. Se queria viajar? Conhecer o mundo? Ele respondeu que queria continuar a fazer filmes, e foi mesmo isso que fez".

E não podia tê-lo feito da melhor forma. "Muitos dos problemas neurológicos que Alice tinha escrito no seu livro ecoavam os sintomas de Richard", explicava o seu marido numa entrevista à Associated Press em finais de 2014. Os paralelos entre Glatzer e a personagem de Moore, doente de Alzheimer, ajudaram à adaptação do livro ao cinema.

A atriz anglo-americana estava particularmente emocionada com estas semelhanças e explicou que foi precisamente isso que tornou a história mais pessoal e emocional. "É sobre a universalidade da nossa própria experiência e aquilo que nos preocupa, aquilo todos nós vivemos e todos nós amamos. E todos nós vamos embora um dia", disse Julianne citada pelo "New York Times".

Durante os 23 dias de filmagens, Glatzer "inspirou os atores e toda a equipa com a sua perseverança, codirecionando o filme apenas usando um dedo para comunicar através de uma aplicação no iPad", anunciou o seu agente num comunicado.

Apesar de demorar bastante tempo para conseguir passar as suas ideias, Glatzer disse que se sentia escutado "por toda a gente, todos os dias", explicando que a paciência é muito essencial para quem sofre de doenças do mesmo género: "É importante sentir que tu importas", frisou.

A morte do marido deixou Wash Westmoreland devastado e partilhou a sua dor esta quarta-feira, num tweet.

I am devastated. Richard was my soulmate, my collaborator, my life. A true artist and a brilliant man. @stillalice pic.twitter.com/hSRriYMjhe

— Wash Westmoreland (@Washmoreland) March 12, 2015

Foi precisamente por causa da doença que vitimou o realizador que milhões de pessoas participaram no Ice Bucket Challenge, um desafio de caridade que teve por objetivo a conscientização da esclerose lateral amiotrófica, e a angariação de dinheiro para a Associação da Doença Neuromotora. Os estudos continuam e dão esperança a todas as pessoas que sofrem com a ELA e lutam para viver cada dia da melhor forma possível.