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Traga a poesia para a sua vida

Jacques de Coulon, pedagogo suíço, diz que a poesia salva. Os gestores Costa e Silva e Vítor Bento afiançam que liberta.

Ana Soromenho (www.expresso.pt)

Escrevia Juan Gelman, o grande poeta argentino, Prémio Cervantes 2007: "Aí está a poesia. De pé contra a morte", porque a poesia salva. Já Carlos Drummond de Andrade, o brasileiro modernista que muito prosou sobre o amor, gostava de afirmar que o seu "divã" era a poesia. Porque a "poesia cura", e agora quem o diz é Jacques de Coulon, filósofo e pedagogo suíço, que lançou os livros "Soyez Poéte de Votre Vie" e "Exercices Pratiques de Poésie-Thérapie" e a quem a revista francesa "Psychologies" dedica um extenso artigo.

Coulon, que recentemente passou por Lisboa para falar sobre a importância da poesia no nosso quotidiano, revela que a magia das palavras pode ter um efeito terapêutico e servir-nos como um veículo prodigioso para entrarmos em contacto com o centro do nosso ser.

António Costa e Silva, professor no Instituto Superior Técnico (IST) e presidente da Partex, uma empresa petrolífera da Fundação Gulbenkian, conta-nos como a poesia o salvou, literalmente, da loucura e da tortura, nos anos em que esteve preso em Luanda. Foi entre 1977 e 1980. Diz Costa e Silva: "No início, quando nem sequer uma cama tinha para me deitar, quanto mais uma caneta ou papel, compunha poemas na minha cabeça que ia memorizando, para mais tarde transcrevê-los para o papel. Depois, quando já podia escrever, o desafio era pôr em papel os poemas que viviam na minha cabeça." Passava horas nisto.

Mais do que um exercício de memória nos anos em que esteve na prisão, António Costa e Silva servia-se da relação com as rimas e o ritmo das frases para revisitar a sua vida. Neste sentido, a poesia e o prazer das palavras foi a aliança que estabeleceu para se orientar no caminho da sobrevivência. Como uma bússola. Essencial e reformadora da sua integridade. "Quem escreve não morre", conclui. A escrita de poemas era uma prática antiga, vinha do tempo da adolescência - nos anos em que descobriu Homero - interrompida mais tarde e retomada nos anos da prisão. Até hoje. "Ensinou-me, sobretudo, a profundidade do silêncio e a não prescindir desse tempo interior", diz o gestor. "São momentos importantíssimos na vida frenética que levo. Escrevo sempre que posso, sobretudo quando viajo."

A poesia como escultura

Vítor Bento, presidente da SIBS, revela que escrever poesia é um exercícuo libertador. Nunca editou, escreve para um círculo mais reservado

Vítor Bento, presidente da SIBS, revela que escrever poesia é um exercícuo libertador. Nunca editou, escreve para um círculo mais reservado

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Para Vítor Bento, presidente da SIBS - empresa que gere o Multibanco - e um dos nomes apontados para suceder a Vítor Constâncio no Banco de Portugal, o que o leva a escrever poesia é, sobretudo, o prazer de brincar com as palavras: "Por ser uma forma de expressão que está para além do significado literal. A prosa poética é uma comoção que nos transcende e que no diz sempre mais do que aquilo do que é escrito", justifica. O líder da SIBS, que também começou a escrever poemas na sua adolescência, apesar de considerar quase embaraçoso falar desta prática por não se considerar um poeta, diz: "Escrever pode ser libertador. As melhores palavras surgem de forma espontânea, mas depois vem o trabalho modelar. Como numa escultura." Esculpir um texto até ganhar a forma e o corpo de um poema. "É um exercício libertador", confessa, mostrando um maço de folhas redigidas com poemas seus. "Escrevo por fases. A minha vida não me permite fazê-lo em contínuo. Neste momento, por exemplo, tenho a cabeça mais ocupada com a economia. Naturalmente, por causa da crise." O gosto pela poesia levou-o a traduzir poemas de Yeats, apenas pelo prazer de desfrutar da poesia do poeta irlandês. De resto, gosta de Sophia, Eugénio de Andrade... e de Pessoa, "claro". Sobretudo de Ricardo Reis. "O mais racional e o mais clássico entre os heterónimos", indica Vítor Bento.

"É inerente à condição artística esse desejo de proximidade com aquilo que é mais profundo no nosso ser", esclarece Maria Antónia Carreira, psicanalista e professora no ISPA, que dedicou a sua tese de doutoramento à poesia de Paul Célan, sobrevivente do Holocausto, e um dos grandes poetas do século XX. "É impossível descrever o ser humano. A nossa vivência e a expressão daquilo que somos é de um outro nível. Neste sentido, a escrita poética é a procura da palavra mais justa para descrever essa vivência emocional." E a poesia salva? Responde-nos a psicanalista: "Para escrever é preciso entrar em contacto, fazê-lo com verdade. Escrever tem um lado restabilizador e organizador do pensamento. Pode ser catártico."

Jacques de Coulon, o filósofo que acredita que a poesia cura, avança com ideias muito simples para quem não escreve: "Escolha um poema que represente, para si, a liberdade, o convite à mudança, ou à viagem. Recite-o em voz alta, enquanto caminha. A cada sílaba faça corresponder um passo. Durante este exercício relaxe as costas, inspire e expire de maneira confortável. Vá repetindo o texto até se sentir embalado e ficar quase hipnotizado pelas palavras."

E já que falamos de poesia, todas as quartas-feiras, ao fim da tarde, Fernando Pinto do Amaral, poeta e comissário do Plano Nacional de Leitura, orienta na livraria Leya um curso de Poesia Contemporânea. Escrever, ler, aprender... Qualquer um pode experimentar. Todos os pretextos são bons para nos pôr em contacto com as palavras dos poetas.

Publicado na Revista Única do Expresso de 20 de Março de 2010