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Toronto Jane, a primeira mulher identificada na frente de combate do Estado Islâmico

Movimentações de "Toronto Jane" em Aleppo, na Síria, entre 11 e 16 de janeiro e, ao lado, um mapa da frente de batalha

TRAC

Os jiadistas proíbem as mulheres de entrar em combate, mas uma organização internacional controlou os passos de uma cidadã canadiana na linha da frente. A pergunta para um milhão de euros: o que estava lá a fazer?

Na conta do Twitter, entretanto suspensa, tinha a imagem de uma decapitação levada a cabo pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI). Entre as pessoas que seguia na rede social estavam várias dezenas de combatentes e simpatizantes jiadistas. E nos seus posts fazia múltiplas referências de apoio ao grupo terrorista que quer instalar um estado islâmico no Iraque e na Síria: "Deus apoie aqueles que vivem no Seu caminho e que morrem no Seu caminho". 

É esta mulher canadiana - conhecida apenas por "L.A." no Twitter mas que recebeu a alcunha "Toronto Jane" em referência à sua origem - que está a intrigar as autoridades e investigadores antiterrorismo. Segundo um artigo publicado esta sexta-feira pelo Consórcio de Análise e Investigação em Terrorismo (TRAC, na sigla em inglês), uma das fontes mais confiáveis em matérias relacionadas com o EI, é o primeiro caso documentado de uma mulher que se movimenta na frente de batalha do grupo terrorista. A identidade foi mantida em segredo para não interferir com as investigações.

Mulheres ocidentais que se juntam às fileiras do EI não são uma novidade: são já mais de meio milhar, segundo um relatório divulgado quinta-feira pelo Instituto para o Diálogo Estratégico, com sede em Londres. Mas o EI proíbe as mulheres de entrarem em combate, razão pela qual estão quase limitadas a comportarem-se como "noivas" dos jiadistas. É precisamente este papel que pode estar a mudar, admitem os responsáveis do TRAC, pegando no exemplo de "L.A."

Analisando os dados de geolocalização do Twitter da mulher canadiana, o TRAC conseguiu monitorizar os seus passos ao longo do último mês. E chegou a uma conclusão surpreendente: ao contrário das funções quase "domésticas" reservadas às mulheres que se juntaram à Jihad, "L.A. parece ter um papel muito ativo dentro do EI".

As coordenadas retiradas dos posts de "L.A." permitiram verificar que ela viajou em diversas ocasiões para praticamente todas as grandes cidades que o EI controla. Mais: "Viajou por mais territórios controlados pelo EI do que qualquer outro operacional que tenhamos monitorizado", sublinha o TRAC. Um facto que levanta muitas interrogações, para já sem resposta: qual o papel desta mulher? Quem está a escoltá-la durante as suas movimentações? Qual o interesse do EI numa operacional feminina?

"Até agora as mulheres [que se juntaram o EI] só tinham um papel de apoio. Mas parece que o seu papel no campo de batalha está a mudar. Existem provas que demonstram que as localizações desta mulher coincidem com os ganhos do EI no terreno, o que sugere que ela pode estar envolvida em missões de reconhecimento para o Califado", explica Veryan Khan, diretora editorial do consórcio de investigação do terrorismo.

Outra possibilidade, adiantada pelo analista Jeff R. Weyers, coautor do artigo, é que a mulher esteja "sexualmente envolvida ou a ser escoltada por alguém com uma posição elevada dentro da hierarquia do EI".

Geolocalização de L.A. em Kobane, na Síria, a 25 de dezembro

Geolocalização de L.A. em Kobane, na Síria, a 25 de dezembro

TRAC

O caminho para a Jihad, tweet a tweet  "L.A" chamou a atenção de Weyers, um doutorando na Universidade de Liverpool, quando este monitorizava a ação do EI na Síria e no Iraque e a encontrou nas ligações de outro simpatizante jiadista. Ao esquecer-se de desligar o serviço de localização do telemóvel, a mulher estaria longe de imaginar que os seus movimentos passariam a ser acompanhados passo a passo. Ou melhor, tweet a tweet. Cada vez que postava na rede social, dava inadvertidamente a sua localização.

Até 23 de novembro, "L.A." estava em Toronto. Depois o sinal do seu telemóvel Android desapareceu. Quando voltou a ligar o telefone, a 8 de dezembro, a mulher estava já em Raqqa, na Síria, considerada a capital do Estado Islâmico. Duas semanas depois, estava em Kobane, que o EI tentava então, sem sucesso, conquistar a milícias curdas. Nessa altura, a canadiana escreveu em árabe no Twitter sobre os combatentes do EI: "Não vi nas suas ações outra coisa que não o maior respeito por mim como irmã".

A 9 de janeiro, "L.A." estava na linha da frente em Mossul, no Iraque. Curiosamente, esteve depois cinco dias (de 11 a 16) em Aleppo, no norte da Síria, que não é controlada pelo EI, apesar de este ter apertado o cerco à cidade. "Enquanto esteve em Aleppo, passou todo o tempo em território controlado por inimigos do EI", nota o artigo, que adianta a hipótese de a canadiana poder estar a assegurar "vigilância" para o grupo.

"O caso de L.A. reflete uma tendência de as mulheres se tornarem mais ativas no apoio aos jiadistas, seja na recolha de informações, na implementação e adesão à Sharia [lei islâmica], e até na execução de castigos a mulheres julgadas pela transgressão da Sharia", concluiu Veryan Khan ao Expresso. "O ativismo de jiadistas femininas não significa uma redefinição da posição da mulher de acordo com a ideologia do EI ou dos extremistas da Jabhat al-Nusrah [uma fação da Al-Qaeda na Síria], mas antes uma necessidade de táticas e recursos adicionais no campo de batalha."