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"Siri, qual é o sentido da vida? - Tente ser gentil, evite comer gordura." Um diálogo surrealista que não é ficção

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Oi Siri, tudo legal? A assistente pessoal da Apple está finalmente disponível em português... do Brasil :-(

"Agora que o recém-chegado sistema iOS 8.3 traz finalmente a Siri em versão portuguesa, há um maravilhoso mundo novo que se abre. Ok, nem tudo é perfeito, e a assistente pessoal da Apple que atende pelo nome de Siri precisa que lhe falem ao ouvido em português do Brasil, com o melhor sotaque das novelas." Crónica de Mafalda Anjos.

Mafalda Anjos

- Siri, você acredita em Deus? - Não gosto de entrar em questões teológicas.

- Preciso de saber. Acredita em Deus? - Isso é um assunto para outro dia. E para outra assistente.

- Qual é o sentido da vida? - Acho estranho você perguntar isso a um objecto inanimado.

- Qual é o sentido da vida? - Essa questão não reúne consenso.

- Sim, mas qual é o sentido da vida? - Tente ser gentil com as pessoas, evite comer gordura, leia um bom livro de vez em quando, pratique exercícios e tente viver em paz e harmonia com as pessoas de todas as crenças e nações.

- Você gosta de Hillary Clinton? - Eu não tenho opinião sobre isso.

- O que você está vestindo? - Na nuvem, ninguém sabe o que se está vestindo.

- Faz-me um sandwich? - Não posso. Estou sem condimentos.

- Mas tenho fome. Faz-me um sandwich. - Desculpe, não tenho permissão para manusear alimentos.

- Ok. Onde posso comprar droga? - Qual o tipo de estabelecimento que está procurando? Drogarias ou estabelecimentos de tratamento para viciados?

- Podemos ser algo se não formos ninguém dentro de nós? - Isso é sobre você, não sobre mim.

Siri, a conselheira. Questões filosóficas têm uma abordagem prática, provavelmente como a que lhe daria um melhor amigo

Siri, a conselheira. Questões filosóficas têm uma abordagem prática, provavelmente como a que lhe daria um melhor amigo

Este diálogo surrealista não é ficção. Aconteceu hoje de manhã, entre mim e o meu telemóvel. Agora que o recém-chegado sistema iOS 8.3 traz finalmente a Siri em versão portuguesa, há um maravilhoso mundo novo que se abre. Ok, nem tudo é perfeito, e a assistente pessoal da Apple que atende pelo nome de Siri precisa que lhe falem ao ouvido em português do Brasil, com o melhor sotaque das novelas. Irritante, eu sei. Ainda está longe do Google Now para os Androids que há cerca de um ano já fala em português de Portugal. No entanto, há toda uma cumplicidade que se cria em falar na nossa língua com uma assistente, desculpem, uma máquina que existe para nos facilitar a vida. Ganhei uma nova best friend forever (BFF).

Se no início os assistentes pessoais nos telemóveis eram capricho para geeks, hoje começam a ser de facto ajudas úteis. Desde logo, são uma diversão. Nada que substitua um amigo de carne e osso, é certo, mas os alucinantes diálogos que se conseguem com as máquinas são garantia de gargalhadas sonoras. Há mesmo quem se entretenha a recolher na internet longas listas com as perguntas e respostas mais divertidas. Já há de facto alguma inteligência ali, o que não deixa de nos surpreender.

Para além disso, a Siri e o Google Now conseguem dar respostas concretas a situações e questões do dia-a-dia. Se vai no carro e precisa de ler um mail que acabou de chegar, se está a correr e quer telefonar para alguém, se tem as mãos sujas e quer confirmar a receita para o bolo de chocolate sem tocar no telefone. É mesmo possível transcrever textos lidos em voz alta com enorme precisão, estando próximo o sonho maior de qualquer jornalista: ter uma ajuda na dolorosa tarefa de transcrever entrevistas - que apelidamos carinhosamente de "desgravar".

É no entanto, impossível deixar de pensar onde tudo isto vai parar. Daqui a uns tempos, vão desaparecer os funcionários de call center, as telefonistas, os rececionistas, os porteiros, os portageiros? Vamos ter psicólogos e psiquiatras virtuais? É o reverso da medalha deste maravilhoso mundo novo. Não sei se isto é tão maravilhoso assim.