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Sete raridades e outros tesouros

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Dama. Condessa de Bardi retratada por Augusto Bobone (entre 1880 e 1890), negativo estereoscópico em suporte de vidro.

Arquivo de Documentação Fotográfica/DDCI/DGPC

O que retratavam as primeiras fotografias da sociedade portuguesa do século XIX? Esta quarta-feira, no Museu do Chiado, em Lisboa, é inaugurada uma exposição com mais de 150 imagens desse tempo. O Expresso mostra-lhe sete fotografias que até agora nunca foram expostas em público.

Se se olhar com atenção para uma certa imagem, vê-se um grupo de lavadeiras com os pés no rio retratadas por baixo de uma ponte de caminho de ferro. Por cima dessa mesma ponte estão vários trabalhadores da linha férrea a acenar para o fotógrafo. Noutra fotografia assiste-se à chegada da rainha D. Estefânia à Praça do Comércio, para se casar com o rei D. Luís. Muito curiosos são também os registos de Lisboa antiga e do pitoresco feitos pelas mãos da Rainha D. Maria Pia. Há belas paisagens; imagens da inauguração da Praça da Figueira e dos Restauradores; retratos de família, alguns deles com os rostos e os corpos dos familiares colados e compostos num certo cenário (no que terão sido os primórdios da manipulação fotográfica que hoje tem grande expressão através do photoshop); senhoras muito bem-postas em poses seráficas; meninos sorridentes que posam em barcos de papel; rostos com lepra antes e depois do tratamento; atores que representam de forma sequenciada para a câmara.

Fotografias que mais parecem pinturas feitas por Alfredo Keil, que, antes de se lançar às tintas e ao pincel fotografava para estudar a luz e a composição das suas obras. E há muito, muito mais.

Uma imperdível viagem ao passado que o Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado proporciona a todos os visitantes a partir desta quarta-feira, 29 de abril, com a exposição Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX. São quase duas centenas de imagens raras de uma época que vai de 1840 a 1900.

Algumas não eram exibidas em público há muito. Através das imagens que vão estar expostas pode entender-se o grande papel que a fotografia ocupou na sociedade, como nova cultura visual do país. As máquinas da época tinham nomes complicados, quase impronunciáveis, e eram muito pesadas, com processos extremamente complexos.

O daguerreótipo  foi o primeiro processo fotográfico a ser comercializado para o grande público. Produzia imagens únicas, sem hipótese de reprodução, e consistia numa imagem fixada sobre uma placa de cobre ou outro metal, com um banho de prata, formando uma superfície espelhada. As imagens eram oferecidas a familiares ou instituições. Posteriormente foi inventado o calótipo, que consistia na exposição à luz através de uma câmara escura de um negativo em papel, semelhante à revelação fotográfica atual.

As curadoras desta mostra, Emília Tavares e Margarida Medeiros, chamam a atenção para a raridade de se terem conseguido juntar obras que estão normalmente dispersas, originárias de diversas instituições públicas e cinco colecionadores privados. "Queremos avivar a memória da fotografia em Portugal e revelar os inúmeros registos e abordagens temáticas da sociedade portuguesa da época. A fotografia surge já com uma forma muito contemporânea, inovadora, a atravessar várias áreas do conhecimento e a transformar o testemunho histórico, científico, artístico e social do país", resume Emília Tavares.

Eis sete fotografias que estarão expostas pela primeira vez.

Henrique Nunes [1820-1882], centro de mesa da Baixela Veyrat, final da década 1870, albumina, 21,2x26,5 cm, Biblioteca da Ajuda, inv. 232-IV, reg. 1498

Henrique Nunes [1820-1882], centro de mesa da Baixela Veyrat, final da década 1870, albumina, 21,2x26,5 cm, Biblioteca da Ajuda, inv. 232-IV, reg. 1498

O retrato deste requintado centro de mesa da Baixela Veyrat, feito por Henrique Nunes no final da década de 1870, ganhou nova relevância e valor por ter sido recentemente notícia pela aquisição em leilão para o Palácio da Ajuda. Integrava na origem a baixela de prata francesa da Casa Veyrat, presumivelmente encomendada pela casa real italiana para D. Maria Pia, por ocasião do seu casamento com o rei D. Luís I, em 1862. O centro de mesa é a peça mais importante de uma baixela e esteve durante muitos anos com paradeiro incerto. Foi este retrato de Henrique Nunes que o permitiu identificar em leilão.

Alfredo Keil [1850-1907]. Estudo fotográfico para a pintura "O vapor que passa: recordação do Cabo da Roca", 1873, albumina, 8.9 x 10.6 cm /22.5 x 22.7 cm, Depósito Família Keil do Amaral / Arquivo de Documentação Fotográfica /DGPC

Alfredo Keil [1850-1907]. Estudo fotográfico para a pintura "O vapor que passa: recordação do Cabo da Roca", 1873, albumina, 8.9 x 10.6 cm /22.5 x 22.7 cm, Depósito Família Keil do Amaral / Arquivo de Documentação Fotográfica /DGPC

Duas senhoras olham para longe com um binóculo. Este é um estudo fotográfico para uma pintura a óleo de Alfredo Keil, feito no Cabo da Roca, em 1873. A obra ganhou o título: "O vapor que passa: recordação do Cabo da Roca". Alfredo Keil ,que também fora um ilustre compositor, poeta, colecionador de arte e pintor, é um dos artistas da época que mais usaram a fotografia para melhor estudar a luz e a composição das personagens retratadas. Deverá ser o único pintor português do século XIX com obras fotográficas que resistiram ao tempo e documentam esse processo criativo.

Augusto Bobone [1852-1910]. Grupo dos vencidos da vida. 1889, albumina, 26 x 31 cm. Coleção João José P. Edward Clode

Augusto Bobone [1852-1910]. Grupo dos vencidos da vida. 1889, albumina, 26 x 31 cm. Coleção João José P. Edward Clode

Há três fotografias conhecidas do ilustre grupo dos "vencidos da vida". Um retrato da elite intelectual da época, conhecida como a geração de 70. Nesta imagem, feita por Augusto Bobone, em 1889, podem ver-se da esquerda para a direita, em pé, o conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos de Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Luís de Soveral, Guerra Junqueiro, Conde Arnoso. Do grupo das personalidades sentadas estão Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Conde do Arneiro e António Cândido. 

Carlos Relvas [1838-1894]. Queda de água, c.1867-1869, fototipia, 12 x 16.6 cm, Coleção Casa Museu Carlos Relvas, inv.5019

Carlos Relvas [1838-1894]. Queda de água, c.1867-1869, fototipia, 12 x 16.6 cm, Coleção Casa Museu Carlos Relvas, inv.5019

O pormenor da queda de água, a sugerir o movimento, e o detalhe das rochas e paisagem em redor revelam o potencial dos processos de impressão fotográfica através da técnica da fototipia. Esta é uma obra de Carlos Relvas (feita entre 1867 e 1869), um abastado proprietário agrícola alentejano, exímio cavaleiro e toureiro e fotógrafo amador, que deixou um valiosíssimo património de imagens que o consagraram como um dos grandes fotógrafos da época.

Autor desconhecido, retrato do Dr. Lucas Fernandes Falcão, 1840-1850, Daguerreótipo, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra

Autor desconhecido, retrato do Dr. Lucas Fernandes Falcão, 1840-1850, Daguerreótipo, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra

Este é um retrato, de autor desconhecido, do doutor Lucas Fernandes Falcão, uma ilustre figura da época. O que é mais curioso nesta imagem é que foi feita através de um daguerreótipo, o primeiro processo fotográfico a ser comercializado. Neste método, que produzia fotografias únicas, sem possibilidade de reprodução, o fotografado tinha que ficar absolutamente imóvel durante cerca de 15 segundos. Caso contrário a imagem ficava desfocada.  De tal maneira que costumava haver um suporte para o pescoço dos visados. O retrato era por excelência o género de fotografia em que este processo era mais aplicado, para que as pessoas pudessem oferecer estas imagens aos familiares ou a instituições. Nesta exposição estará presente também um daguerreótipo de paisagem portuguesa, que é bem mais raro.

Atribuído à Rainha D. Maria Pia [1847-1911], Azenhas do Mar (?) retrato de mendigo, 1898, albumina, 16.2 x 21.3 cm, Palácio Nacional da Ajuda, inv. 62307

Atribuído à Rainha D. Maria Pia [1847-1911], Azenhas do Mar (?) retrato de mendigo, 1898, albumina, 16.2 x 21.3 cm, Palácio Nacional da Ajuda, inv. 62307

A família real sempre se interessou pelas artes, como é o caso da fotografia, com especial gosto pela sua prática desde que as primeiras máquinas surgem em Portugal. Este retrato de um mendigo nas Azenhas do Mar deverá ter sido feito pela rainha D. Maria Pia no ano de 1898, num dos seus passeios fotográficos, nos quais costumava retratar o lado mais pitoresco e contrastante da sociedade portuguesa.  Várias destas imagens podem ser vistas nesta exposição e no Palácio Nacional da Ajuda.

Francisco Rocchini [1822- 1895], [panorâmica de Lisboa, tirada do jardim de São Pedro de Alcântara], 1858 - 1893, seis provas em albumina montadas em cartão, 22.2 x 173.5 cm, Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico, inv. PT/AMLSB/ORI/00

Francisco Rocchini [1822- 1895], [panorâmica de Lisboa, tirada do jardim de São Pedro de Alcântara], 1858 - 1893, seis provas em albumina montadas em cartão, 22.2 x 173.5 cm, Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico, inv. PT/AMLSB/ORI/00

Retrato panorâmico feito no alto do miradouro de São Pedro de Alcântara. Nesta imagem a preto e branco de Lisboa do século XIX pode reconhecer-se a Praça dos Restauradores e o Castelo de São Jorge, ao fundo. As paisagens panorâmicas eram um estilo apenas usado até então na pintura e gravura e só nesta altura começa a ser aplicado à fotografia. Uma técnica feita de várias imagens, coladas em sequência, a pretender proporcionar uma visão mais lata da paisagem e abarcar todo o cenário como o olhamos ao vivo. O autor desta imagem é o italiano Francisco Rocchini, que montou estúdio em Lisboa e se tornou um dos mais influentes e importantes fotógrafos da época, com retratos comerciais e artísticos.