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Se o povo é sereno e sabe esperar, em parte deve-se ao Spectrum

"Hoje era impossível ter um jogo que demorasse tanto tempo a carregar - as crianças e jovens não estão habituados a esperar essa eternidade. Nós não. Se ligarmos qualquer consola 'das novas' e houver um problema, recordamos com satisfação os tempos de Spectrum e achamos que os dois minutos entre estarmos sentados e começarmos a jogar são 'peaners'." Crónica de quem cresceu com o Spectrum, que agora está de volta.

O velhinho (ou vintage?) ZX Spectrum, criado por Sir Clive Sinclair, está de volta, 32 anos depois do lançamento e de ter feito as delícias de adolescentes que, nos anos 80 e 90, passaram horas em frente ao ecrã de uma televisão na companhia do "Chuckie Egg", do futebol de "Emilio Butragueño", do comilão "Pacman" ou a esquiar com o "Horace Goes Skiing". O novo equipamento terá o nome de Sinclair ZX Spectrum Vega, com um teclado simplificado e mais próximo de uma consola de jogos. 

Ainda hoje, em conversas com amigos de gerações semelhantes, é comum recordar o barulho metálico e eletrónico (parecido a uma máquina de ressonância magnética) que o Spectrum fazia enquanto carregava um jogo. Isso e a viagem alucinante que era olhar fixamente para o ecrã carregado de riscas de várias cores. E era nessa altura que uma parte do nosso mundo fazia sentido.

A sensação de incerteza era um dos momentos altos do dia e, por mais estranho que possa parecer, fazia o coração bater mais depressa. Nos dez minutos (ou mais!) que o jogo demorava a carregar, um misto de emoções acontecia. Nervoso, enquanto se esperava para saber se o jogo carregava ou dava erro; frustração se desse, e era frequente; alegria quando tudo acabava bem e começávamos a jogar! Acima de tudo, a ideia de que se fazia parte de um culto que, na minha modesta opinião, em muito contribuiu para desenvolver a capacidade de "saber esperar" da geração consumidora deste equipamento. Se o povo é sereno e sabe esperar, em parte deve-se ao Spectrum.

Hoje era impossível ter um jogo que demorasse tanto tempo a carregar - as crianças e jovens não estão habituados a esperar essa eternidade, os tais dez minutos, para começar a jogar seja o que for. Nós não. Se ligarmos qualquer consola "das novas" e houver um problema, recordamos com satisfação os tempos de Spectrum e achamos que os dois minutos entre estarmos sentados e começarmos a jogar são 'peaners' comparados com o antigamente.

Apesar de ter sido criado como computador pessoal, a verdade é que a magia e notoriedade do ZX Spectrum cresceram por causa dos jogos. A provar isso mesmo está esta nova versão, capaz de caber nas duas mãos como se de um comando de consola se tratasse. Além disso, virá "equipado de raiz" com mil jogos e a possibilidade de descarregar muitos outros, de uma coleção de 14 mil e que poderão ser instalados num cartão SD.

O preço rondará os 120 euros. Infelizmente não deve estar disponível no Natal, só lá para fevereiro. Até lá, resta recordar aquele som mágico... piiiiiiii... shshshshsh... piiiiiii... toctoctoc... e por aí adiante...