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Sardinha nos Santos será (ainda) mais cara

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A quota de sardinha atribuída a Portugal, em 2015, equivale a menos de um quarto da pescada há quatro anos. A escassez fará disparar o preço.

Carla Tomás

A sardinha é rainha na mesa dos portugueses, sobretudo quando chega a época dos Santos Populares. E a portuguesa é a melhor de todas. Mas há pescadores que temem que em junho seja a espanhola que vá parar ao prato. "Podemos chegar ao Santo António e não ter sardinha portuguesa", receia Carlos Macedo, dirigente da organização Artesanal Pesca. Mas nem todos são tão pessimistas. "Vamos ter Santos com sardinha portuguesa", garante o secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto de Abreu, "mas provavelmente a sardinha vai estar mais cara". No ano passado o quilo de sardinha chegou aos cinco euros. É de prever que este ano seja ainda mais cara. 

As embarcações portuguesas e espanholas não puderam pescar sardinha do stock ibérico entre 20 de setembro de 2014 e final de fevereiro deste ano, como medida de proteção da espécie. O regresso à faina começou a 1 de março. E num mês os pescadores portugueses  capturaram 430 toneladas das quatro mil a que têm direito até final de abril. "Estão a acumular para os Santos", brinca o secretário de Estado. Mas na regra da oferta e da procura, sempre que há escassez, os preços disparam. 

Em causa está o facto de a quota do stock ibérico para 2015 (19 mil toneladas até ao final do ano) ser muito pequena. Os portugueses têm direito a 68% da quota ibérica, ou seja, 13.500 toneladas - o que equivale a um quarto da que tinha sido atribuída em 2011 (58 mil toneladas); a menos de metade das capturas de 2012 (31 mil toneladas) e a menos 10% do que o pescado em 2014 (15 mil toneladas até setembro).

"Concorrência desleal"

Esta pequena quota leva Carlos Macedo - que fala em nome de quatro organizações de produtores (Artesanal Pesca, BarlaPescas, OlhãoPesca e SESIBAL) - a mostrar-se pessimista e a dizer que "vai entrar mais sardinha espanhola no mercado português". Apesar de admitir que "há menor abundância de sardinha que há uns anos", Carlos Macedo argumenta que "é preciso dados científicos mais credíveis sobre a redução do recurso" e que "o Governo português devia aumentar a quota, já que o espanhol atribuiu às suas embarcações uma quota ibérica de mil toneladas por mês, o que dá 10 mil toneladas até ao final do ano, quando só poderiam pescar seis mil toneladas". E contesta o que chama de "concorrência desleal". Os  espanhóis ainda têm stocks para explorar no golfo de Cádis e da Biscaia, que continuaram a explorar durante os cinco meses de suspensão, tendo assim sardinha para vender à indústria conserveira portuguesa. 

Porém, o secretário de Estado do Mar diz manter "um diálogo permanente" com o Governo de Madrid e garante que, "se os espanhóis capturarem as seis mil toneladas a que têm direito no stock ibérico até setembro, não pescam mais nada a partir de então". Quanto ao aumento da quota portuguesa, Pinto de Abreu aguarda por novos dados da campanha científica da primavera para que o comité conselheiro (que reúne diferentes organizações de pescadores, indústria, ambientalistas e cientistas) sugira as quotas a atribuir a partir de maio. A chave de repartição histórica da quota ibérica de sardinha é de 68% para Portugal e 32% para Espanha e tanto o Governo como os operadores nacionais querem que a decisão da distribuição das quotas continue a resultar do diálogo ibérico, sem que a Comissão Europeia a chame a si. 

Um recurso escasso

"Aceitámos submeter-nos às recomendações científicas, apesar de sabermos que levaria a grandes sacrifícios e o nosso o objetivo é a recuperação do stock de sardinha e o aumento da quota atribuída", afirma Humberto Jorge, dirigente da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco, que espera que a próxima campanha científica traga dados mais positivos.

Há 20 anos estimava-se que o stock do Atlântico albergasse cerca de 800 mil toneladas de sardinha, mas este valor foi reduzido para 500 mil em 2007 e não vai além das 150 mil toneladas atualmente. Por isso, lembra Pinto de Abreu, "há três anos não se conseguiu capturar tudo o que a quota permitia, porque não se encontrava o que pescar". A tendência é negativa há anos, devido também a questões ambientais que estão a ser estudadas.

A sardinha chegou a ser a única espécie ibérica certificada  em 2010 com o ecolabel do Marine Stewardship Council, mas Humberto Jorge não sabe se haverá condições para nova candidatura em 2015: "Apesar da biomassa adulta estar estabilizada, estamos todos à espera do babyboom".