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Saber o seu código genético por uma mão-cheia de euros

Por seis mil euros poderá ficar a conhecer os seus genes. Mas será que quer?

E se, por seis mil euros, lhe dessem a possibilidade de conhecer toda a informação contida nos seus genes? De saber, por exemplo, a predisposição que tem para certas doenças e preveni-las com maior eficácia antes de se desenvolverem no organismo? A isto chama-se genómica pessoal e, acreditam os seus impulsionadores, irá revolucionar a medicina do futuro. Nem será preciso esperar muito. A realidade está a menos de cinco anos, asseguram os mais optimistas.

Mas para que me serve afinal a leitura do genoma, interrogar-se-ão os mais cépticos. Em teoria, irá permitir personalizar a medicina do futuro e actuar de forma preventiva sobre muitas doenças de origem genética. Mas a realidade pode não ser tão linear.

"A maioria dos problemas de saúde está associada a factores ambientais e comportamentais, sem origem genética", lembra Nuno Barbosa Morais, investigador do grupo de Biologia Computacional da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Dito de outra forma: o facto de uma pessoa ter uma predisposição genética para uma doença não quer dizer que a vá desenvolver.

Do mesmo modo, sublinha Jorge Sequeiros, presidente do Colégio de Genética Médica da Ordem dos Médicos, "podemos vir a ter Alzheimer, por exemplo, mesmo que se comprove que não temos nenhuma alteração nos genes de susceptibilidade testados". A genómica está longe de ser uma ciência infalível ou a 'bola de cristal' que dirá ao paciente se viverá 100 anos ou sucumbirá a um cancro letal.

O pontapé de saída para a era do homem sequenciado foi dado em Maio do ano passado. Dois conhecidos e controversos cientistas americanos revelaram, com um intervalo de dias, a sequenciação do seu próprio genoma. Primeiro foi o biólogo Craig Venter, que em 2003 foi batido na corrida para a divulgação do mapa do ADN humano. Só que, nessa altura, a versão de referência do genoma foi compilada a partir de um conjunto de anónimos. A nova sequência pertence a um único indivíduo.

Duas semanas volvidas, foi o polémico Nobel da Medicina James Watson a abrir as páginas do seu livro genético, com uma definição curiosa: a do 'primeiro genoma pessoal sequenciado por menos de um milhão de dólares'. Não é uma observação despicienda: todo o processo demorou menos de dois meses e custou uma ínfima parte do genoma de Venter, que começou a ser compilado em 2003 e terá rondado os 45 milhões de euros.

Mais rápido e mais barato

O milagre da economia temporal e financeira foi conseguido graças a uma prova de amor paternal. Quando, numa noite de 1999, o filho recém-nascido deu entrada numa unidade de cuidados intensivos com dificuldades respiratórias, o americano Jonathan Rothberg decidiu criar uma máquina que revolucionou a genómica. "Quis ler o seu genoma e perceber se havia algo de errado", explicou ao Expresso. Inspirado no mundo da microelectrónica, Rothberg desenvolveu um "chip" que, podendo ser repetidamente miniaturizado com o vertiginoso avanço da tecnologia, possibilita um processo de sequenciação cada vez mais rápido e económico. O que antes levava meses - como sequenciar o genoma de uma bactéria -, passou a ser possível em horas e a custo mais acessível.

O investigador prevê que, dentro de cinco anos, seja possível sequenciar um genoma individual por pouco mais de 6 mil euros, mas o seu objectivo é torná-lo possível por uma décima parte. A concretizar-se a profecia, será a democratização do acesso ao ADN. "O genoma de Watson é o primeiro da próxima geração", garantiu.

Rothberg está também apostado em perceber melhor a forma como funcionam os mecanismos da saúde e longevidade. O seu novo projecto, baptizado Matusalém - em homenagem à personagem bíblica que viveu quase mil anos -, pretende sequenciar a região codificante (responsável por 95% das doenças genéticas) de uma centena de pessoas com 100 anos. Segundo o investigador, o trabalho "poderá encontrar a fonte da juventude, ao descobrir que genes, e que versões, protegem as pessoas das doenças". Jorge Sequeiros não é tão optimista. "Todas as grandes promessas estão por concretizar". "É provável que nunca venhamos a ter alimentos ou medicamentos individualizados como nos tem sido vendido".

20

mil a 25 mil genes compõem o ADN humano

23

pares de cromossomas constituem os genes do genoma

100

listas telefónicas da zona de Lisboa seriam preenchidas com toda a informação contida no código genético humano

Patentes dominam discussão

Na passada sexta-feira assinalou-se o Dia Europeu do ADN. No velho continente, a discussão centra-se nesta altura na questão das patentes. Estas têm servido para promover a inovação. No caso das patentes dos genes, muitos queixam-se e perguntam que sentido tem impedir a sua investigação. Na prática, o detentor da patente possui o gene. Ninguém mais pode testá-lo, pelo menos durante um período de 20 anos. Todos o temos, mas a sua propriedade é privada. É o que acontece com um quinto dos genes do nosso corpo. Para aclarar a situação, a Sociedade Europeia de Genética Humana divulgou recomendações sobre o uso de patentes e licenças nos testes genéticos. Os autores do relatório, entre os quais o português Jorge Sequeiros, director do Centro de Genética Preditiva e Preventiva da Universidade do Porto, reconhecem que o sistema de patentes alimenta a investigação e o desenvolvimento, mas pode bloquear o acesso a determinados produtos e limitar a concorrência.