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Respostas românticas e observações dolorosas para uma pergunta fácil: porque és repórter de guerra?

Paulo Nunes dos Santos no Cairo

Pete Muller

Reportar a partir de cenários de guerra é o dia a dia de uma série de jornalistas de todo o mundo. São uma família aqui recordada por um colaborador do Expresso que era amigo de James Foley, norte-americano decapitado por jihadistas. Esta terça-feira, o Estado Islâmico voltou a divulgar um vídeo com a decapitação de mais um jornalista norte-americano - trata-se de Steven Sotloff, raptado com Foley.

Quem vê filmes ou lê livros sobre repórteres que trabalham em zonas de conflito, geralmente fica com a ideia que o nosso trabalho é uma constante aventura cheia de "glamour". Idealizam-se personagens cheias de bravura e carisma que ao som de um telefonema de um editor qualquer se apressam a fazer as malas a meio da noite, para de imediato se porem a caminho de uma guerra que acaba de rebentar num qualquer lugar inóspito do planeta. Idealizam-se vidas fascinantes, abastecidas a adrenalina e vividas ao limite. Vidas excitantes que para muitos seria um sonho viver.

De facto, é com essa mesma ideia que muitos dos apelidados "repórteres de guerra" (um título que nunca gostei muito que me fosse atribuído) iniciam as suas carreiras. E talvez seja por essas mesmas razões que quando se conhece alguém pela primeira vez, uma das questões que nos fazem é "porque fazes este trabalho?".  

Para quem pergunta, é uma questão fácil de colocar. Normalmente, esperam uma justificação romântica que esteja à altura dos tais personagens dos filmes que tanto fascinam. Mas para quem é questionado, é talvez uma das perguntas mais difíceis de responder.Se fosse há uns anos, enquanto jovem-adulto acabado de sair da universidade, certamente que a justificação dada seria semelhante à maioria dos colegas em início de carreira: "Faço-o porque estou convencido de que posso contribuir para melhorar este mundo cão em que vivemos". Uma coisa  em que todos nós, enquanto seres inocentes e idealistas, realmente acreditamos. E é importante que assim o seja. É isso que nos permite viver num planeta que, apesar de injusto e por vezes cruel, é ainda um lugar onde podemos sonhar e ter esperança. 

Ideais por terra  

Em reportagem em Alepo, Síria

Em reportagem em Alepo, Síria

Phil Moore

Mas há profissões que rapidamente deitam por terra os puros ideais em que quase religiosamente cremos quando somos jovens. Labores que nos expõem a situações até então inimagináveis e nos rouba a inocência como que de uma dose intravenosa de realidade se tratasse. Profissões que nos mostram na "primeira pessoa" o lado mais negro do ser humano, as atrocidades e barbáries que o Homem em plena consciência consegue infligir ao próximo. A profissão de jornalista, particularmente a de repórter em zonas de conflito, é uma delas!  

Ver gente a viver em condições inumanas, famílias inteiras a morrer à fome, idosos forçados a abandonar as suas casas debaixo de bombardeamentos, ou corpos de crianças estilhaçados em pedaços num pátio de uma escola ou à porta de um hospital, facilmente nos muda. Torna-nos cínicos, frios e, acima de tudo, faz-nos questionar se a nosso papel de observadores e mensageiros realmente serve para algo. 

Mas tudo isto nos traz também algo de bom. Leva-nos ao encontro de colegas que de uma forma quase mágica, numa questão de horas, se tornam amigos para a vida. Companheiros com quem se partilha os maus momentos tão presentes quando se está no meio de uma guerra e as dificuldades de quem trabalha num ambiente hostil. Gente que faz com que esses maus momentos sejam superáveis, mas com a certeza que quando de ali sairmos, iremos com certeza desfrutar ao máximo da companhia uns dos outros. 

Possivelmente há quem não compreenda ou acredite ser possível que se crie laços de amizade e companheirismo tão profundos num espaço de dias ou mesmo horas. Não é habitual isto acontecer num ambiente de rotina da zona de conforto em que normalmente se vive. Mas quando se partilham experiências extremas, os sentimentos expressam-se de um modo diferente. 

Freelances alimentam a indústria   

O repórter Robert Stodarth na Praça Maidan, em Kiev, Ucrânia

O repórter Robert Stodarth na Praça Maidan, em Kiev, Ucrânia

Paulo Nunes dos Santos

Esta indústria cada vez mais depende de nós para poder continuar a existir. Os orçamentos para reportagens em zonas de guerra são escassos. Cabe-nos a nós, na maioria das vezes, pagar do nosso bolso as despesas de viagem, os seguros de vida ou de material (que a maioria nem tem), os serviços de tradução, alojamento e transporte, em troca de honorários que muitas vezes nem nos permitem pagar a renda de casa. 

Nesta profissão não só se criam amizades, criam-se também famílias. Famílias de jornalistas independentes (freelance) que dependem uns dos outros para poder trabalhar. Talvez por não serem muitos os que tomam a decisão de fazer deste trabalho um modo de vida. Ou pelo facto de quem o faz, fá-lo por razões similares. Ou talvez seja mesmo pelo facto de que quando quase se morre juntamente com alguém, esse alguém fica para sempre na nossa memória. 

Podia escrever parágrafos sobre as vezes em que estive debaixo da mira de atiradores furtivos lado a lado com o David Sperry, um amigo norte-americano de longa data com quem muitas vezes partilho viagens. Podia escrever ainda a história de quando juntamente com o Phil Moore, outro amigo de longa data e um fantástico fotógrafo britânico, estive debaixo de fogo de um jato de guerra do exercito sírio.  

Podia contar as horas difíceis que partilhei com o Marc Hofer, um fotógrafo alemão, ao atravessar ilegalmente a fronteira para a Síria na companhia de traficantes de armas e debaixo de fogo dos militares turcos. Podia descrever o ambiente em que juntamente com o Goran Tomasevic, um dos melhores fotógrafos de guerra de sempre, entrevistei o comandante rebelde Abdalaziz, do SPLA-Norte, debaixo de bombardeamento dos aviões militares sudaneses nas montanhas Nuba. Ou talvez falar do dia em que no Sudão do Sul, Giulio Petrocco, um fotógrafo italiano, me levou ao colo para uma pequena clínica onde quase desfalecido me foi diagnosticado malária.  

O amigo Jim Foley 

Mas acho importante falar de James Foley, um amigo e um excelente jornalista a quem tão cobardemente foi agora tirada a vida por um grupo de psicopatas criminosos, algures no deserto entre a Síria e o Iraque. Os detalhes do seu assassínio não fazem falta a este texto. Jim, como era conhecido entre os amigos, tem de ficar para a memória como o gentil ser humano que sempre foi. Quem, como eu, teve o privilégio de cruzar trilhos e partilhar momentos com o Jim, certamente deseja o mesmo. Simplesmente porque ele merece. Simplesmente porque os cobardes que cruelmente puseram termo a alguém tão puro não merecem o espaço na minha prosa. 

Jim, além de um jornalista dedicado de corpo e alma às fabulosas histórias com que nos presenteou, era também alguém de quem se gostava ao primeiro contacto. Tinha uma aura que transpirava confiança e segurança. Sentia-me sempre bem quando estava com ele. De certa forma, sentia-me seguro. 

Ele tinha a habilidade de fazer as pessoas à volta dele relaxar. Trazia sempre com ele uma energia positiva. Talvez fosse o sorriso constante com que se apresentava. Talvez fosse o charme natural que emanava. Ou talvez fosse o facto de que no meio de tanta brutalidade, Jim continuava a acreditar que ele e nós podíamos realmente dar voz aos injustiçados do mundo em que vivemos. 

Jim presenciou e documentou, sempre com uma ética invejável, muitas atrocidades e injustiças pelo planeta fora. Testemunhou no Afeganistão, na Líbia (onde esteve enclausurado durante cerca de um mês e meio), no Iraque, em Gaza e na Síria, barbáries que a tantos de nós têm roubado a tal inocência da nossa juventude. Mas conseguiu manter-se fiel aos ideais que leva repórteres a escolher esta profissão. 

Perder o Jim é, para mim, perder um pouco mais de fé na humanidade. Mas ter conhecido e partilhado alegrias com ele supera tudo isto. Saber que o pesadelo que viveu nos últimos dois anos finalmente chegou ao fim, traz energia para continuar a seguir uma profissão que acaba de ficar mais pobre.