Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Rebekah Brooks. A "imperatriz dos tabloides" está de volta

  • 333

O "The Guardian" apagou-a, de um ano para o outro, da sua lista dos mais poderosos. Agora volta a falar nela. Parece que Rebekah Brooks está de volta, seis meses após ser ilibada num processo de escutas telefónicas e subornos para arranjar notícias. Britânica, ex-diretora do "Sun" e ex-presidente executiva do News International no Reino Unido, Rebekah acaba de mudar-se para os EUA para voltar a trabalhar no império do magnata Murdoch, no desenvolvimento da área digital.

Rebekah Brooks, no ano passado, quando ainda esperava o veredito do tribunal de Londres

Rebekah Brooks, no ano passado, quando ainda esperava o veredito do tribunal de Londres

Peter Macdiarmid/Getty Image

Casou-se e abriu uma polémica que ocupou "medias" e redes sociais um verão inteiro. Foi em junho de 2009, quando a primeira mulher diretora de "The Sun", já a caminho da administração da filial inglesa do império jornalístico de Robert Murdoch, resolveu trocar o seu apelido de solteira pelo do marido, Charlie Brooks. Estava no auge da carreira: nesse mesmo ano, o "The Guardian" colocou-a no topo da sua lista das mulheres mais poderosas, mas rapidamente a apagou... 

Uma quinzena depois do casamento dos Brooks no lago de Sarsden, numa organização prodigiosa que conseguiu iludir tabloides e paparazzi, contrariando o que a noiva profissionalmente fazia no "The Sun", a colunista Michele Hanson dava voz às criticas, lamentando no "The Guardian" que Rebekah Wade estivesse a "deixar ficar mal as milhares de mulheres que, desde 1850, desde a sufragista de Massachusetts Lucy Stone, lutaram para preservar os seus apelidos e a sua independência".  

Durante algum tempo, a partir de junho de 2009, jornalistas e opinadores escreviam "Rebekah Brooks (nascida Wade)" quando se referiam à mulher de 41 anos que estava a ter uma carreira fulgurante, que em vinte anos passara de secretária de redação a diretora do tabloide mais vendido do Reino Unido e, de seguida, a presidente executiva do News International, grupo de comunicação social de um dos homens mais ricos e poderosos do mundo.

Ambiciosa, inteligente, mais intuitiva do que académica, Rebekah não mudou de apelido quando se casou a primeira vez, com Ross Kemp, em 2002, fase em que o ator de novelas era uma estrela de TV cintilante. Talvez, como diz Michele Hanson, a fama do marido fosse tão grande que ela tivesse medo que a apagasse numa altura em que ela preparava a sua escalada. Kemp há de queixar-se de que ela passava a vida a trabalhar - mesmo de férias, não largava o telefone. Há, aliás, uma foto de ambos a assistir a um jogo em Wimbledon, em 2006, que mostra Kemp com uma cara aborrecida, olhando para o campo, e Wade com o olhar fixo no seu telemóvel. O divórcio seria oficializado em 2009.  

Rebekah com o primeiro marido Ross Kemp, em Wimbledon

Rebekah com o primeiro marido Ross Kemp, em Wimbledon

Daniel Berehulak/Getty Images

Rebekah Mary Wade, nascida a 27 maio de 1968, filha de um marinheiro de rebocadores e jardineiro, conseguiu ser, aos 31 anos, a diretora mais jovem de um jornal britânico de âmbito nacional, no caso o "News of the World", diário que encerrará portas em 2011 após o escândalo que, afinal, além das escutas telefónicas a personalidades britânicas, também incluía subornos e que arrastou para fora do circuito a executiva do News International.  

"O poderoso grupo de comunicação social News International não distinguiu o bem do mal. Violou regularmente a privacidade dos cidadãos com escutas telefónicas, corrompeu a polícia com generosos subornos e comprometeu a imparcialidade dos processos legais publicando artigos que influenciam os jurados", escreveu o jornalista de economia Andreas Whittam Smith, em 2011, no jornal inglês "The Telegraph".  

Fizeram-se manifestações por causa do processo das escutas e subornos quando Rebekah Brooks foi prestar contas ao Parlamento

Fizeram-se manifestações por causa do processo das escutas e subornos quando Rebekah Brooks foi prestar contas ao Parlamento

LEON NEAL/Getty Images

Em julho de 2009, o mês seguinte ao matrimónio de Rebekah com Charlie, ex-treinador de cavalos de corrida e "playboy internacional" amigo de infância do, à época, futuro primeiro-ministro David Cameron, o jornal "The Guardian" revelava que jornalistas do "News of the World" estavam implicados em escutas telefónicas ilegais, relacionadas com pelo menos três mil personalidades, de entre as quais políticos, desportistas, membros da família real, militares e polícias.   

Nessa data, ainda não se envolvia o "The Sun" no caso e era deste jornal populista que Rebekah Wade era diretora há seis anos. Foi a primeira mulher a dirigir o tabloide fundado em 1964 para ser distribuído na Grã-Bretanha e na Irlanda. O jornal vendia uma média de dois milhões e meio de exemplares por dia. E em 2011 passou a vender mais meio milhão com a sua edição ao domingo em substituição do encerrado "News of the World".

No segundo casamento de Rebekah Brooks, além de David Cameron, na altura o líder dos Conservadores, e da sua mulher Samantha, marcaram presença o primeiro-ministro Gordon Brown (trabalhista) e a esposa Sarah e, entre muitos outros, Rupert Murdoch, que a protegeu durante todo o processo judicial, e a filha deste, Elisabeth, figura habitual das listas dos mais poderosos.

Como escreveria o "The Guardian", e que hoje continuará válido, Rebekah Brooks "é a mensageira entre o líder trabalhista e os Murdoch. Será a única a ir visitar Cameron a Downing Street. É uma embaixadora e brilhante fabricante de redes", ou facilitadora como hoje se diz. Só para lembrar mais um nome na sua lista de amigos, falemos no ex-primeiro-ministro Tony Blair, a quem deve alguns conselhos para conseguir aguentar e ultrapassar os três anos negros da sua vida, desde que foi detida e acusada até ser ilibada.

O mail em que James Murdoch, filho de Rupert, envia um mail a Rebekah Brooks com os conselhos do amigo comum Tony Blair

O mail em que James Murdoch, filho de Rupert, envia um mail a Rebekah Brooks com os conselhos do amigo comum Tony Blair

DR

Já depois de se demitir, de ser detida, libertada e de novo detida (2011), e acusada de subornos e obstrução à justiça, no âmbito do que ficou conhecida por operação "Elveden", Rebekah Brooks voltou a ser notícia. Ela e Charlie foram pais da menina Scarlett Anne Mary Brooks, um "pequeno e belo milagre", segundo um comunicado emitido pelo casal para anunciar o nascimento da sua filha, vinda ao mundo em 2012 através de uma barriga de aluguer, após cinco anos infrutíferos de tentativas.  

Ao contrário do que a opinião pública esperava, com exceção daqueles que, em qualquer lado do mundo, acreditam que nunca os poderosos serão castigados pela justiça, e do que a própria procuradora do Ministério Público Alison Levitt anunciara ("há provas suficientes para acusar", disse), Rebekah Brooks foi ilibada das quatro acusações que sobre ela pendiam, em junho do ano passado. "Estou inocente das acusações que me fizeram e considero-me vingada pela decisão unânime do júri", disse no final do processo que envolveu igualmente o seu marido Charlie, também ele inocentado.  

Rebekah e Charlie na conferência de imprensa à saida do Tribunal de Londres, em junho de 2014

Rebekah e Charlie na conferência de imprensa à saida do Tribunal de Londres, em junho de 2014

Rob Stothard/Getty Images

Mesmo quando o processo estava na ordem do dia, com as acusações a alimentar jornais, televisões e sites, Rebekah manteve a mesma atitude determinada que muitos cidadãos do mundo passaram a ver na ruiva "imperatriz dos tablóides", já que até ao rebentamento do escândalo pouco da sua vida e da sua personalidade era conhecido. Ela raramente falava em público e quando o fazia nunca abordava pormenores da sua vida pessoal. Mas, para muitos, tardou em demitir-se.   

"A senhora Brooks não se demitiu porque os cortesãos não se demitem. Mantêm os lugares ou são afastados, ao bel-prazer do monarca. Se é difícil para os advogados de negócios compreenderem o funcionamento de uma empresa de tipo monárquico, os juízes, esses, não deveriam ter o mínimo problema. Afinal, não são 'juízes de Sua Majestade'?", escreveria quinze dias antes da demissão o jornalista Andreas Whittam Smith.  

Rebekah Brooks não parece ser pessoa para desistir dos seus propósitos, nem Rupert Murdoch. Demitiu-se, mas agora regressa, e ao que parece com um poder reforçado no gigante da comunicação social norte-americano: acaba de se mudar para os Estados Unidos para voltar a trabalhar no império do magnata.