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Profissão: gestor. Salário: milionário. Malfeitoria: o bilhete de comboio

Gestor de fundos londrino ganhava um milhão por ano, mas não pagava bilhete no comboio. Apanhado, ficou banido da City para toda a vida. O esquema durou cinco anos e rendeu dezenas de milhares de libras. Uma vez apanhado, o homem pagou o que devia - e acabou despedido.

Luís M. Faria

Jornalista

Um gestor de fundos vai ficar proibido de trabalhar na City - a zona financeira londrina, talvez a mais importante do mundo - até ao fim da vida. Motivo: durante anos, cometeu fraude nos transportes públicos. Apanhava o comboio na vila rural de Stonegate, onde não há cancela, e ia até Londres. Uma vez chegado, o que passava na máquina à saída era o cartão Oyster, utilizado para circular no perímetro da capital (dentro dessa zona, o cartão é válido mesmo em comboios). Eram-lhe então debitadas 7,20 libras (€9), na altura o máximo do Oyster, aplicável quando o cartão não diz onde a pessoa entrou.

Como o homem vinha de fora, o valor correto seria 21 libras e meia (€27,10 euros). Ou seja,"poupava" mais de 14 libras (€17,64 euros) em cada viagem - quase 29 libras por dia (€36,5). Multiplicando por algumas centenas de dias de trabalho, são quase dez mil libras anuais (€12.600), o que, ao longo de quase meia década, dá as 42.500 libras (mais de €53.000) que as autoridades lhe exigiram quando descobriram o esquema.

O banqueiro foi apanhado pelos fiscais um dia ao chegar à estação londrina de Cannon Street, em novembro de 2013. Detido e levado à polícia, constatou-se que há cinco anos não renovava o passe necessário à sua viagem diária. Acabou por admitir o que fizera e prontificou-se logo a pagar. Apenas pediu que não contassem nada no seu emprego. Mas não conseguiu. A Financial Conduct Authority (autoridade da conduta financeira) foi informada e contactou a gestora de fundos Black Rock, onde o homem trabalhava. 

Malfeitorias

Em condições normais, talvez o castigo não tivesse sido severo. Mas com todos os casos recentes de fraude e irresponsabilidade na área financeira, a história de um gestor que ganhava um milhão de libras por ano (mais de 1,2 milhões de euros) e tinha casas no valor de quatro milhões mas ainda assim recusava pagar o que pessoas muito menos afortunadas tinham de pagar diariamente, era um escândalo a mais. Os tabloides exigiram a sua cabeça - e já este ano o homem demitiu-se da Black Rock. 

Agora veio a notícia da interdição vitalícia. "O sr. Burrows", disse a FCA, "demonstrou uma falta de honestidade e integridade (...) Em várias ocasiões, deliberada e conscientemente, não comprou um bilhete válido para cobrir a sua viagem inteira (...) Como alguém que ocupava uma posição sénior na indústria dos serviços financeiros e era uma pessoa aprovada, devia ter sido um modelo para outros e a sua conduta ficou aquém do padrão esperado para alguém na sua posição".

O gestor diz que respeita a decisão da FCA, embora a lamente, "pois vem após uma carreira de 20 anos sem mácula (...) Reconheço que eles, neste momento, têm que lidar com malfeitorias mais profundas que a minha no setor financeiro e é pena que o meu caso lhes ocupe tempo nesta fase crucial para o futuro da City e a sua reputação".

"Sempre reconheci que o que fiz foi idiota", acrescentou o homem. "Já pedi desculpa a todos os envolvidos e reitero esse pedido publicamente." Só não se percebe como enganava os fiscais a bordo do comboio.