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Português detido na fronteira da Síria

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Jovens passam ilegalmente a fronteira da Turquia com a Síria

FOTO OZAN KOSE / AFP

Suspeito integra lista de 471 pessoas apanhadas pela polícia turca quando tentavam juntar-se ao Estado Islâmico.

Hugo Franco e Raquel Moleiro com Pedro Santos Guerreiro

A cidade turca de Gaziantep (ou Antep, como lhe chamam os locais) fica a cerca de sessenta quilómetros da fronteira com a Síria, no Curdistão turco. Ali, cruzam-se futuros jiadistas, jiadistas arrependidos, jiadistas no ativo, refugiados, trabalhadores humanitários, agentes das secretas europeias e militantes da resistência síria. É o último 'posto' antes da guerra, a uma hora do conflito armado. Basta aterrar no pequeno aeroporto, seguir em frente na estrada e entrar. A pé, de carro ou de autocarro. Ou bastava. 

Depois de mais de dois anos de fronteira praticamente aberta - e de acusações de permissividade e colaboracionismo da Turquia com o autodenominado Estado Islâmico -, o Governo de Ancara apertou a malha a quem quer transpor os limites do país para se alistar no Daesh ou para sair do califado. Em 2015, tornaram-se regulares os anúncios públicos das detenções e expulsões de jovens estrangeiros, de todos os pontos do mundo. Entre eles está um português.

Na última lista da província de Gaziantep, publicada há um mês, enumeram-se 471 pessoas, de 41 países, detidas ali desde o início do conflito (2011), quando tentavam entrar ilegalmente na Síria. Entre os suspeitos está um homem, portador de passaporte da República Portuguesa que, segundo uma fonte ouvida pelo Expresso, foi detido "há alguns meses". Em Portugal, as autoridades já terão identificado este suspeito e estão a tentar saber se tem ligações ao grupo de cerca de 20 jiadistas nacionais que se encontra a combater na Síria e no Iraque. Não foi revelada a sua identidade.

O mesmo documento oficial turco, a que o Expresso teve acesso, indica ainda que o português se encontra num subgrupo de estrangeiros que foram deportados da Turquia para os países de origem, depois de terem sido interrogados pela Justiça local. Um dado que não é confirmado pelo Governo português. "Não temos qualquer tipo de informação sobre esse cidadão, nem na embaixada em Ancara nem em Lisboa", garante José Cesário, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. O Expresso contactou também o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para obter mais informações sobre o suspeito português mas as perguntas ficaram sem resposta.

O desconhecimento não é de estranhar. As autoridades estrangeiras, presentes na Turquia, queixam-se da escassez de comunicação: "Por vezes só descobrimos que foi detido um determinado cidadão no dia em que é deportado", explica uma fonte de uma secreta europeia. 

Terrorista ou não?

Das 471 pessoas detidas pelas autoridades de Gaziantep, mais de metade (269) foram acusadas de "pertencer a uma organização terrorista" e destas 55 ficaram a cumprir a pena numa prisão turca. Não foi o caso do português, a quem foram aplicadas "medidas administrativas", lê-se no comunicado. 

Na Turquia, tal como acontece em outros países da Europa, grande parte dos jovens detetados quando se preparam para integrar grupos de extremistas islâmicos acabam em liberdade, sem recair sobre eles qualquer tipo de acusação. Isto apesar de as leis antiterroristas se terem tornado mais duras para com quem simpatize, promova ou se queira juntar às organizações radicais que estão na lista negra do Ocidente. 

"Nem todos os que partem para a Síria são potenciais terroristas. Muitos desistem de se juntar ao Estado Islâmico depois de perceberem a tempo o erro que iriam cometer", salienta um alto responsável da investigação. Em alguns casos, são as autoridades fronteiriças ou aeroportuárias que, apercebendo-se que estão perante um simpatizante do Daesh, conseguem abortar a viagem argumentando que há problemas documentais ou burocráticos. Noutros, os aspirantes a guerrilheiros são convencidos pelas próprias forças de segurança a não partir, sem consequências judiciais. Esta atitude permite evitar que entrem no sistema prisional "porque em muitos casos não há necessidade". Deixá-los em liberdade traz uma vantagem estratégica: os investigadores conseguem perceber como funciona a rede de recrutamento que aliciou estes jovens.

"De uma forma geral, as autoridades turcas acusam de terrorismo os jovens que já estavam a ser monitorizados nos seus países, por suspeitas de ligações estreitas à Jihad através das redes sociais ou por terem tido algum tipo de treino paramilitar clandestino", salienta a mesma fonte.

Todos os portugueses que hoje integram o exército liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi entraram na Síria em 2012 e 2013 através da fronteira terrestre com a Turquia, que se estende por 800 quilómetros. O Expresso sabe que um deles, Celso Costa, conseguiu iludir as autoridades usando o passaporte de um familiar que se encontra a viver na Europa. "Ele sabia que estava a ser vigiado há meses. Se usasse o seu documento de identificação seria barrado e imediatamente acusado de terrorismo, pois treinou em África com as milícias locais da Al-Qaeda", salienta outra fonte próxima da investigação. Se Celso e os companheiros tivessem partido há poucos meses, como aconteceu com o português em Gaziantep, talvez nenhum se encontrasse hoje na Síria. O mesmo responsável resume: "A vigilância das autoridades turcas é mais apertada do que nunca."