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Português cria super-hologramas para revolucionar ensino da Medicina

Pedro Campos e Kapil Sugand, jovens médicos do Hospital de St. George, em Londres, junto a um dos hologramas do novo sistema, que pode tornar muito mais fácil a aprendizagem de técnicas cirúrgicas.

Médico português Pedro Campos e o seu colega Kapil Sugand, ambos do Hospital de St. George, em Londres, criaram um sistema gerador de grandes hologramas do corpo humano que pode revolucionar o ensino da Medicina.

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

É um sistema que cria o que parecem ser animações de grandes hologramas dos rins, do crânio e de muitas outras partes do corpo humano, e baseia-se numa ilusão conhecida por "Pepper's Ghost", que usa espelhos combinados com técnicas de iluminação especiais para fazer aparecer objetos em 3D no ar.

Esta técnica, que não cria verdadeiros hologramas, foi popularizada pelo químico britânico John Henry Pepper no século XIX e é hoje utilizada habitualmente no teatro e em alguns truques de magia que fazem os objetos desaparecer e reaparecer, ficar transparentes ou transformar-se noutros objetos.

Mas desta vez foi usada por dois jovens médicos do Hospital de St. George, em Londres, para criar um sistema que pode mudar profundamente o ensino da Medicina. Um deles é o português Pedro Campos (28 anos) e o outro é Kapil Sugand (27 anos), que também é investigador do Imperial College.

Os médicos fundaram com outros colegas um grupo de investigação com um nome curioso: HAMLET (Holography-Assisted Medical Lecturing & E-Teaching).

Os primeiros a usarem hologramas na educação

"Somos o primeiro grupo no mundo a desenvolver a tecnologia holográfica na educação médica ou em qualquer disciplina académica", afirma Pedro Campos ao Expresso, "e o nosso objetivo final é revolucionar e mudar a face do ensino médico para formar melhores médicos".

O investigador acrescenta que o sistema criado permite "ensinar conceitos fisiológicos abstratos e procedimentos cirúrgicos não só a estudantes e médicos como também ao público em geral", tendo em conta as questões relacionadas com as políticas de saúde.

"A nossa missão é melhorar a educação dos futuros médicos através do uso de mais meios multimédia associados a teorias educacionais, tendo em conta as possibilidades limitadas que hoje existem de melhorar o próprio treino e formação dentro de um ambiente controlado e seguro", argumenta Pedro Campos.

Kapil Sugand, por sua vez, explica ao Expresso que "o corpo humano é uma máquina muito complexa, sendo por isso muito difícil observar como um rim ou um fígado funcionam apenas através dos slides de um Power Point".

Por outro lado, as apresentações típicas em Power Point "são estáticas, têm muitos slides e demoram cerca de uma hora, quando a investigação na área das ciências educacionais já provou que a atenção de um estudante médio dura entre 20 a 30 minutos".  

Ensinar técnicas cirúrgicas

O médico britânico salienta que o novo sistema "permite apresentações muito mais dinâmicas, pode estimular a atenção e ensinar de maneira muito fácil técnicas cirúrgicas a um grande número de alunos, que assim compreendem de uma forma mais clara o que está bem e o que está mal no corpo humano". Só assim "teremos médicos melhores e mais seguros, que transmitam também segurança aos doentes que estão a tratar".  

Mas Kapil Sugand garante que o objetivo do projeto não é sobrepor-se ao uso de cadáveres humanos."Nada pode substituir um cadáver dissecado, que ainda é a melhor maneira de aprender anatomia, mas as técnicas multimédia são complementares a este processo".

No novo sistema, que por enquanto é demasiado caro, as imagens são todas animadas e podem ser controladas pelo estudante. Três projetores geram as imagens coloridas em grandes dimensões, que foram concebidas para ser usadas por um grande auditório de estudantes e estagiários.

O desenvolvimento da animação e a criação dos hologramas devem-se também a um português, o jovem "motion designer" Gonçalo Perdigão.   

A próxima etapa do projeto dos dois médicos, que foi noticiado pela BBC, passa pela publicação dos resultados da investigação e "por encontrar uma possível via de comercialização do sistema, que o torne acessível às universidades, não apenas dos países desenvolvidos mas também dos países em desenvolvimento".