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Portugal perdeu um dos seus melhores jornalistas

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Tolentino de Nóbrega já não teve saúde nem força para cobrir a primeira campanha eleitoral do pós-jardinismo

Sindicato dos Jornalistas

Correspondente do "Público", o mais conhecido repórter da Madeira,  Tolentino de Nóbrega, morreu esta terça-feira com 63 anos. Merece a Ordem da Liberdade.

São vários os adjetivos que se podem aplicar, com igual propriedade, a Tolentino de Nóbrega: corajoso, independente, credível. Escolherei um outro, porque o Tolentino foi um dos que me ajudaram a moldar: exemplar. Exemplar na coragem, na independência, na credibilidade, numa terra em que provou que era possível ser Jornalista com letra grande.

Como fazia regularmente desde que soube que fora assaltado por um terrível melanoma, tentei esta segunda-feira à tarde saber novas dele. Os seus dois números de telemóvel há muito que estavam desligados, o contacto era sempre através da incansável mulher, a Elsa. Ontem atendeu-me, num sussurro triste e apagado, para me dizer que não podia falar e que ligaria mais tarde. Não o fez, o que me deixou ainda mais receoso. Só voltei a falar com ela esta manhã, para me confirmar que o Tolentino morrera durante a noite no hospital onde estava internado, a dormir, em paz e de mão dada com a mulher...

José Tolentino Oliveira Nóbrega nasceu no Machico a 2 de fevereiro de 1952. Tínhamos a mesma idade e quase crescemos juntos na profissão, ainda que separados pelo oceano. Deu os primeiros passos no jornalismo em 1972 no "Comércio do Funchal", um semanário em papel cor de rosa com a impressão digital de Vicente Jorge Silva e que foi seguramente o melhor jornal que a Oposição à ditadura conseguiu editar.

Depois do 25 de Abril e durante quase vinte anos trabalhou no "Diário de Notícias do Funchal". Ao mesmo tempo colaborava com jornais do continente: em "A Luta", onde eu me iniciei, no semanário "O Jornal", e aqui no Expresso, onde assinou alguns trabalhos. Além disso, ainda tinha tempo para se dedicar às artes plásticas, essa sua segunda paixão profissional. Pertencente a uma geração que não pôde estudar jornalismo, licenciara-se na Escola Superior de Artes Plásticas da Madeira e deu aulas de geometria descritiva na Escola Secundária Francisco Franco.

Conheci-o pessoalmente talvez em 1979, quando, em nome do Sindicato dos Jornalistas, fui à Madeira proceder à entrega das primeiras carteiras profissionais de jornalistas. Coube-me a enorme honra de outorgar o título profissional ao Tolentino - como todos os jornalistas sempre o conheceram. Ele que já era uma lenda viva do jornalismo naquela Região Autónoma. É certo que a Madeira produziu muitos e bons jornalistas: Vicente Jorge Silva, Paquete de Oliveira, o casal Rui Camacho e Helena Marques (e filhos...), Jardim Gonçalves, Luís Humberto Marcos, sem esquecer, aqui no Expresso, o António Loja Neves. Mas ao contrário destes e de outros, o Tolentino foi ficando na Madeira - e ficou até ao fim.

Quando houve quem tudo fizesse para o domesticar, amedrontar e afugentar - incluindo o recurso à bomba, com o carro do jornalista a ser o alvo nos anos da revolução de um dos vários atentados terroristas de uma autoproclamada Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Teimoso como era, o Tolentino ficou. Persistente. Perseverante. Nos anos (décadas) que se seguiram, lidou com um poder quase unipessoal chamado Alberto João Jardim, e teve de recorrer a toda a sua coragem para continuar a exercer um jornalismo livre e independente. E a defender o jornalismo e os jornalistas através de uma dedicada e constante militância no Sindicato dos Jornalistas, para cujos corpos gerentes tive o prazer de o convidar nas eleições de 1985. Seguiu-se mais tarde a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, para a qual foi reeleito, como suplente, já este ano.

Numa região onde a independência de espírito e de profissão se pagavam bem caro, Tolentino foi acolhido em 1990 pelo diário "Público". Foi aí que "explodiram" toda as suas enormes qualidades de jornalista. Não era um comentador, nem sequer um cronista - era um grande noticiarista e um fantástico jornalista de investigação, de uma notável discrição, com uma prosa seca e sem adjetivos e cuja assinatura era fonte de credibilidade. Não por acaso, em 1998 foi distinguido pelos seus pares com o Prémio Gazeta, o mais importante e credenciado galardão de jornalismo em Portugal. E em 2006 foi condecorado pelo Presidente Jorge Sampaio com a comenda da ordem do Infante D. Henrique.

A última vez que estive com ele foi em outubro, no Funchal, em viagem familiar. Como de costume, foi a ele que recorri para saber de hotéis, restaurantes, carros de aluguer, percursos imperdíveis. Passámos uma noite de sábado juntos, a ouvir o meu filho Afonso a tocar, enquanto tentávamos pôr em dia a nossa conversa e amizade de muitos anos. Fez questão de pagar a ceia a um grupo bem numeroso e depois levou-me a passear a pé, noite dentro, pelas ruas do Funchal que ele tão bem conhecia e de que tanto gostava. Falando sempre de forma pausada, no seu inesquecível sotaque madeirense, num quase murmúrio. Contou-me dos seus muitos projetos pessoais e profissionais. A doença ainda não se tinha manifestado. Quando foi detetada, tudo fizeram para a vencer. Ele e a Elsa foram a Londres, depois esteve internado em Lisboa, mas, antevendo o pior, o Tolentino quis voltar ao Funchal. Por interposta Elsa, fomos comunicando, trocando abraços, desejando as melhoras, num otimismo incapaz de disfarçar o desespero e a tristeza.

Entretanto, foi obrigado a deixar as colunas do "Público". O seu último artigo, já escrito a meias, data de 20 de fevereiro. Já não teve saúde nem força para cobrir a primeira campanha eleitoral do pós-jardinismo. Imagino quanto não lhe terá custado não o poder fazer. Entretanto, o seu exemplo de jornalista - livre, independente, íntegro - medrou. Felizmente para a Madeira e para a opinião pública.

Portugal perdeu esta terça-feira um dos seus melhores jornalistas. Aquele que, depois do 25 de Abril de 1974, mais teve de se bater, no dia a dia, com as armas da profissão, pelo direito e pela liberdade de imprensa e de informação. O país político e a opinião pública têm uma dívida para com Tolentino de Nóbrega. Justo seria que o Presidente da República o condecorasse, no próximo 10 de Junho, com a Ordem da Liberdade.