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Portugal é o segundo país europeu onde mais se morre por doenças respiratórias

Especialistas recomendam reforço da vacinação da gripe e contra o pneumococos. Madeira é a região com mais casos mortais.   

Já se sabia que a pneumonia mata mais em Portugal do que no resto da Europa e fica a saber-se agora que é o segundo país onde as doenças respiratórias no global - incluindo a asma e a doença pulmonar obstrutiva crónica, por exemplo - tiram mais vidas. A conclusão consta no relatório sobre a situação nacional, publicado esta terça-feira pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

Em 2012, em cada 100 mil portugueses 102 morreram na sequência de um problema respiratório, na maioria das vezes uma pneumonia. Um "valor apenas ultrapassado pelo Reino Unido, com 104,9/100.000 habitantes. A explicação reside na elevada mortalidade por pneumonia em Portugal (49,9/100.000, a mais elevada no conjunto dos países europeus analisados)", lê-se no relatório "Portugal - Doenças Respiratórias em Números 2014".

Contas feitas, em 2012 as doenças respiratórias mataram 13.893 portugueses. Pelos cálculos provisórios, no ano passado "foram responsáveis por 12.605 óbitos, 12% da mortalidade por todas as causas". Ou seja, há melhoras. "Pela primeira vez em 2013, e relativamente a 2009, assistiu-se a uma diminuição, quer dos internamentos por pneumonias, quer da respetiva mortalidade."

Os idosos são, quase sempre, os mais vulneráveis. "A mortalidade por doença respiratória, e por pneumonia, tem a particularidade de afetar as faixas etárias a partir dos 65 anos." As condições atmosféricas e a virulência da gripe são algumas das explicações para a maior incidência destas patologias entre as faixas etárias mais avançadas.   

Madeirenses mais vulneráveis 

No país, a região de Lisboa tem os melhores resultados e a população das ilhas, com a Madeira na liderança, é a mais afetada pela negativa. "A Região Autónoma da Madeira é a que apresenta taxas mais elevadas, tendo a mortalidade por doenças respiratórias correspondido a 18,5% da totalidade dos óbitos, contrastando com a percentagem nacional de 12,9%."

O pneumologista e consultor da DGS Filipe Froes atribui a fragilidade dos madeirenses a características da própria população, como a elevada consanguinidade e comorbilidades associadas, por exemplo ao consumo de álcool, e que no conjunto fragilizam o hospedeiro face ao vírus. "Mesmo durante a pandemia de gripe A, a taxa de mortalidade mais elevada verificou-se na Madeira", recorda.

Carlos Robalo Cordeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, acrescenta ainda outro fator: a poluição dentro de casa. "Longe dos grandes centros urbanos ainda há o hábito de combustão de biomassas, com lareiras a céu aberto ou a utilização de lenha em fogões de cozinha."

O médico, ainda assim, não acredita que os números apresentados pela DGS sejam um retrato fiel do que se passa no país. "Acho que não se morre mais em Portugal de doenças respiratórias e de pneumonia, em particular."

Na opinião do especialista, Portugal tem uma população mais idosa - "com um dos maiores índices de envelhecimento da Europa" - e tem o hábito de internar doentes em fases terminais. "Há um aumento de pneumonias de fim de vida em doentes com patologia crónica e que vão para os hospitais para morrer, o que não acontece tanto nos outros países europeus. O doente morre em casa e o óbito é atribuído a patologia de base, como uma descompensação da diabetes ou uma agudização da doença cardíaca." 

Os dois médicos salientam, no entanto, que estão a surgir sinais positivos. Os internamentos e a mortalidade por pneumonia estão a diminuir, de forma mais notória desde 2012, quando a vacina da gripe passou a ser oferecida aos idosos e doentes crónicos, entre outros.

"Temos uma taxa de cobertura com números impensáveis há dois ou três anos. Na última semana já tínhamos vacinado mais de 60% da população acima dos 65 anos, um número que no ano passado só foi alcançado entre janeiro e fevereiro, pelo que deveremos chegar a 70%", diz Carlos Robalo Cordeiro. Consequências? "Poderemos reduzir a afluência de doentes à Urgência e a incidência de pneumonia." 

 

Aposta na vacina pneumocócica

Filipe Froes defende ainda que é preciso apostar na vacinação pneumocócica, para travar as formas mais graves e mortais de pneumonia. Carlos Robalo Cordeiro concorda: "Como médico tenho de dizer que a vacina deve ser feita, mas entendo que o Governo olha para a despesa". Mas Filipe Froes é taxativo: "Os investimentos mais caros são os baseados na ignorância e hoje temos dados e informação sustentada para tomar decisões e a evidência é de que a vacina diminui a pneumonia; por exemplo, os norte-americanos já a recomendam acima dos 65 anos."

O relatório 'olha' também para outras patologias do foro respiratório, como a doença pulmonar obstrutiva crónica. Constata-se que o Alentejo e o Algarve são as duas regiões do país com menos diagnósticos feitos com recurso a espirometria, como recomendam as normas da DGS. O diagnóstico tardio ou incompleto tende a agravar a doença e a 'abrir' a porta à pneumonia.

A falta de médicos e de técnicos e a grande dispersão populacional naquelas zonas do país são duas das dificuldades referidas por Filipe Froes e Carlos Robalo Cordeiro para a ausência de um programa de rastreio eficiente. A doença tem os fumadores como um dos mais importantes grupos de risco e o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia vai aproveitar a revisão da lei do tabaco, no início do próximo ano, para propor que não seja permitido fumar enquanto se conduz - à semelhança do que já acontece para as conversas ao telemóvel.