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Porque escreves, Miguel?

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Aos 64 anos, Miguel Sousa Tavares publica um livro de memórias, histórias antigas, viagens e diários - "Não se Encontra o Que se Procura". Um registo biográfico e pessoal onde ficamos a conhecer mais do homem que é jornalista mas que sempre escreveu e que sempre pensou que "com um papel e uma caneta nunca estaria indefeso". São 265 páginas organizadas como se de um diário se tratasse, uma vez que os textos são marcados por datas, mês e dia, não anos. Miguel Sousa Tavares diz que sempre lhe perguntaram por que motivo escreve. Tenta responder a essa pergunta logo no início do livro. 

Entrevista de Raquel Marinho (SIC)

O Miguel começa por dizer que não há uma resposta para a pergunta "escrever porquê?", mas, ainda assim, tenta dá-la no início do livro. É uma necessidade enquanto forma de expressão. Desde que me conheço que sempre achei que o meu território de defesa, vá lá, o meu quartel-general, é um papel e uma caneta. Hoje em dia um computador. E eu sempre achei que com um papel e uma caneta nunca estaria indefeso. Porque, de facto, é a forma que eu gosto mais para me exprimir, contar as coisas, registar aquilo que aconteceu,  inventar. Tudo isso é sempre através da escrita. Por outro lado, eu acho que a pessoa pode escrever eternamente para si próprio, para a gaveta, e esses textos, grande parte deles foram escritos para a gaveta, porque acontecem, não é? Sei lá, é como a gente treinar para depois escrever um livro. Só que a partir do momento em que se publica, eu acho que há uma obrigação do escritor de pensar nos leitores, porque são eles os destinatários. Se um escritor se está nas tintas para os leitores não vale a pena publicar - para quê publicar?

Também diz que se vê como uma testemunha.   Eu acho que a única obrigação de quem conta histórias é testemunhar, testemunhar aquilo que viu. E esse é o privilégio de quem escreve, não é? Eu não acho, nunca acreditei na escrita engajada politicamente ou socialmente. Acho que o único engajamento do escritor é ser testemunha. Não é tanto tomar partido, mas é testemunhar. 

Há alguns autores de que fala neste livro: Hemingway, T.E. Lawrence ou a personagem Corto Maltese, de Hugo Pratt, são alguns deles. Porquê estas escolhas e não outras? [risos] Não sei. Eu tenho mais textos sobre escritores, mas escolhi esses porque acho que são um bocadinho emblemáticos. Se você quiser, é um bocadinho a minha moral de vida. A minha filosofia de vida está um bocadinho reproduzida no que eles foram. E depois todos eles tiveram, tanto o Pratt, como o Churchill, como o Hemingway, como o T.E. Lawrence, tiveram vidas fascinantes e eu acho que isso fatalmente os levou serem grandes escritores, todos eles foram.

Vidas fascinantes que se prendem com esta ideia de que o Miguel também fala no livro - ter mundo, conhecer o mundo e viajar, e com a frase que a sua mãe lhe disse na Piazza Navona, em Roma: "Miguel, viajar é olhar". Eu acredito muito nessa frase, acho que viajar é olhar, é fixar. De tal maneira é que é engraçado que eu tive várias fases de viajante. Viajei muito ao serviço da televisão e olhava através da câmara - e de quem filmava. Depois também viajei muito como jornalista sozinho e fotografava, e às tantas fotografava compulsivamente. E desde há uns anos para cá, eu viajo sem nada. Basta-me os olhos. Porque descobri que o resto não é assim tão essencial. Ou seja, é: você vai fazer uma reportagem de televisão, tem que levar uma câmara, ou se vai para um jornal tem de levar uma máquina, mas se a sua intenção é só escrever não vale a pena levar nada disso, porque se você estiver atenta, se estiver de olhos bem abertos, fixou tudo, não precisa de uma fotografia para se lembrar.

Este é um livro onde o Miguel se dá a conhecer aos seus leitores de uma forma diferente daquilo que foi feito até aqui. Porque é que optou por se mostrar assim? Num romance, eu tenho que, por assim dizer, desaparecer, desaparecer de cena para dar vida aos personagens do livro. Isto é um registo pessoal. Portanto, necessariamente tem coisas mais íntimas, mais pessoais ou mais reveladoras sobre mim. Eu falei muito disso com o meu editor. Se deveríamos ou não deveríamos fazer. E ele era muito entusiástico de que se fizesse e eu fui mudando de ideias aos poucos até aceitar fazer. A partir do momento em que aceitei fazer, já não pensei mais no assunto. Pronto, seja.

Não se importa com esta exposição? Também não é nenhum striptease. As pessoas não estão é habituadas a ver-me gratuitamente revelar coisas da minha vida pessoal, porque isso não. Detesto, quer dizer, odeio as revistas sociais, essa exposição idiota, as pessoas que se exibem e tudo aquilo. Agora, quando eu estou a publicar coisas que no fundo são o meu testemunho de vida, da minha vida pessoal, não posso fugir a isso, não é? Só deixando na gaveta.

Neste livro, conta algumas histórias da sua mãe e do seu pai. Uma delas é a forma como organizavam os livros nas estantes. Ela dividia assim: os livros que eu gosto e os que eu não gosto. E os que ela não gostava ia deitando fora. O meu pai tem uma estante normal, dividia como toda a gente por assuntos, não é? Política, História.

E o Miguel diz que claramente ou evidentemente preferia a estante do seu pai. Porquê? Para uma pessoa que começa a iniciar-se como leitor, aquilo tinha uma ordem e uma organização, era muito mais simples, enquanto na da minha mãe a gente podia, sei lá, encontrar o Homero ao lado de uma coisa sobre pintura, por exemplo. Quer dizer, ninguém conseguia começar a iniciar-se assim.

No livro diz que gostaria de ter a vida de um caracol. Que ideia é esta? O caracol é o sujeito que anda com a casa às costas e que, portanto, a sua casa é onde ele lhe apetecer estar. O caracol está à sombra, está um raio de sol ao lado e ele desloca a casa para ali. Eu gostava de poder fazer o mesmo, ter uma casa em cima de mim e pousá-la onde me apetecesse estar. 

Se reduzisse as suas necessidades ao essencial de uma mochila, como há pessoas que fazem, poderia fazê-lo. Poderia, sem dúvida.

E? [risos] Não sei. Não sou muito mochileiro.