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Plano de revitalização de editora da Impala foi aprovado

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Revitalização perdoa 95% das dívidas a fornecedores e proíbe a devolução de IVA já pago. Alguns credores vão pedir ao juiz para não homologar o plano aprovado por maioria.

O Plano de Revitalização Especial (PER) da empresa DescobrirPress, do universo do grupo Impala, foi aprovado. A decisão permite à editora de revistas como a "Maria", "Nova Gente" ou "TV7Dias" prosseguir a atividade apesar do passivo de cerca de €50 milhões, que será substancialmente perdoado. 

A aprovação do PER foi viabilizada por cerca de 80% dos credores. Para esta decisão contribuiu decisivamente o sentido de voto favorável de um dos credores, a gráfica Sogapal. Isto porque além de já ter a receber €1 milhão do grupo, a empresa negociou ainda, durante a discussão do PER, a compra dos créditos de quase 20 milhões da massa falida  Electroliber, o maior credor individual da DescobrirPress. 

Mas segundo apurou o Expresso, haverá um conjunto de pelo menos cinco credores que já avançou com pedidos formais para que o juiz responsável pelo processo, no Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, trave a homologação do plano. Na base desses pedidos estão, entre outros pontos, o facto de o PER implicar um perdão de 95% da dívida da DescobrirPress aos fornecedores e impedir que estes possam - como é habitual em insolvências ou PER - pedir o reembolso do IVA já pago ao Estado na sequência de faturas emitidas que nunca foram pagas. 

Na base do PER solicitado pela DescobrirPress estiveram as dívidas de €50,2 milhões que a empresa acumulou nos últimos anos. A lista de credores é extensa: preenche 351 linhas de excel com nomes de ex-funcionários, fornecedores, Autoridade Tributária, Segurança Social, entidades financeiras e até personalidades como Luís Figo, Manuela Moura Guedes ou Sílvia Alberto, fruto de decisões judiciais referentes a processos contra notícias publicadas em revistas do grupo. 

Segundo a documentação submetida ao Tribunal, a DescobrirPress deve €7,3 milhões à Segurança Social, €6,9 milhões a fornecedores e €6,5 milhões a antigos trabalhadores. A maior fatia em dívida está, no entanto, relacionada com decisões judiciais, que ascendem já a quase €27 milhões. 

Cortes de pessoal vão continuar  

O acumular de situações como a condenação ao pagamento de mais de €7 milhões à Lisgráfica agravou, aliás, o desequilíbrio da operação da DescobrirPress, que apesar de defender no PER a viabilidade do seu negócio, assumia ter chegado a uma situação em que já não conseguia financiar-se junto da banca e garantir o cumprimento das suas obrigações.

Conforme sublinhava a administração da DescobrirPress no PER,  a crise que a empresa atravessou levou-a, nos últimos quatro anos, à necessidade de ter "continuadamente adotado processos de rentabilização", nomeadamente através da "redução e contenção de gastos", desinvestimento em "sectores sem rentabilidade" e redução do número de efetivos.

Medidas que se traduziram, na prática, no encerramento de publicações e em vários despedimentos coletivos. 

É desses processos que resulta o facto de mais de 200 dos credores da DescobrirPress serem ex-funcionários da empresa. 

A aprovação do PER implicará ainda, conforme estipulado no documento, uma nova "redução do número de trabalhadores" da empresa, que tem atualmente cerca de 220 profissionais nos quadros. A redução prevista deverá abranger "cerca de 15%" do quadro atual de trabalhadores, no âmbito de uma estratégia que prevê uma "redução média de 30%" na atual estrutura de custos da editora. 

Quebra sucessiva de vendas 

A evolução das vendas das principais revistas produzidas pela DescobrirPress é um barómetro que contextualiza os problemas da empresa. Só entre 2005 e 2014 a média de vendas das principais revistas que a empresa ainda produz - "Maria", "TV7Dias", "Nova Gente", "Ana", "VIP" e "Mulher Moderna na Cozinha" - caiu, em conjunto, mais de 280 mil exemplares por edição.  

Longe vão os tempos em que a revista "Maria" vendia 380 mil exemplares por semana (em 1990) ou a "Nova Gente" se aproximava dos 180 mil (em 2001). A quebra de vendas tem sido, aliás, invocada como razão maior para o encerramento, nos últimos anos, de projetos como as revistas "Focus", "Mulher Moderna", "100% Jovem", "Crescer" ou "Nova Gente Decoração".  

Associada a isto, a redução generalizada nos investimentos publicitários na imprensa explica a quebra na faturação da empresa: entre 2012 e 2013 as receitas recuaram dos €25,5 milhões para os €21,8 milhões. Para 2014, o PER indicava uma nova estimativa de queda na faturação da DescobrirPress, agora para os €17,7 milhões