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Parceiros para a troca. Uma ideia romântica. Dizem eles

“Swing - eu, tu... eles”, o livro de Maria Silvério, apresenta o primeiro estudo antropológico sobre swing em Portugal

Luís Barra

A antropóloga Maria Silvério fala ao Expresso sobre os comportamentos, regras e tabus que observou nos clubes de swing em Portugal.

Os adeptos do swing defendem que para além da prática lhes ter reacendido a chama sexual, permitiu-lhes aumentar a cumplicidade e a união enquanto casal. Afirmam que na troca de parceiros ou no envolvimento com terceiros conseguem manter o relacionamento apenas no nível sexual, considerando-se monogâmicos em termos amorosos e afetivos. Mas ressalvam que isso é possível porque já tinham uma relação forte antes de terem entrado no mundo do swing. Quase todos tiveram um anterior casamento convencional, antes do relacionamento com os atuais parceiros.

"Swing - eu, tu... eles" é um livro que resulta de uma investigação antropológica sobre o swing em Portugal, baseada num trabalho de campo levado a cabo em 2012 e 2013, sobretudo no clube Divinus Aroeira Liberal, e em entrevistas efetuadas a seis casais. 

Situado numa discreta zona residencial, a cerca de 25 quilómetros de Lisboa, o Divinus possui bar, pista de dança, sauna, piscina, quartos e divisões com "glory holes", buracos nas paredes através dos quais é possível tocar ou ter sexo oral sem se saber com quem se está a interagir. Foi nesse clube que a antropóloga Maria Silvério estabeleceu os primeiros contactos com grande parte dos seus entrevistados. A investigação foi feita junto daqueles que se mantêm adeptos do swing, deixando de fora quem se deu mal com a prática e tem uma perspetiva mais negativa.

 No livro, Maria Silvério começa por esclarecer não ser adepta do swing, nem se ter envolvido nesta prática durante o trabalho de campo. Após a entrevista que concedeu ao Expresso explicou que escolheu o swing como tema da tese do mestrado que efetuou no ISCTE-IUL por lhe permitir cruzar o estudo das questões de género e da identidade sexual com os modelos de relações conjugais e o modo como a sexualidade é encarada - muitas vezes de modo radicalmente diferente -  pelos dois elementos do casal. O livro começou por ser lançado pela Chiado Editora no Brasil (país de onde provém a antropóloga) e surge agora no mercado português. Na obra, Maria Silvério cita sociólogos que consideram o swing como uma das subculturas mais estigmatizadas e mal compreendidas da nossa sociedade.

O que observou durante a investigação afasta-se muito das ideias dominantes no senso comum sobre o swing? A visão do senso comum é que é uma coisa totalmente sem regras, uma orgia total. Que nos clubes estará todo o mundo sem roupa, fazendo sexo com todo o mundo, sem o menor critério, sem o menor nível de escolha. As pessoas próximas de mim achavam que todo o mundo ia agarrar-me e que eu não ia ter defesa. Na realidade, percebi que é um ambiente de muito respeito. Primeiro porque tem regras de conduta, de comportamento, de abordagem, que as pessoas conhecem e tentam respeitar. Porque quem está no swing está com o marido ou com a esposa, ou é um casal de namorados que se amam. E você não vai querer que a sua esposa ou o seu marido seja desrespeitado.

Em Portugal os clubes são rodeados de especial secretismo? Quanto mais pequeno e conservador for o local, mais difícil é assumir a prática. Em São Paulo, as probabilidades de se encontrar alguém conhecido numa casa de swing são muito pequenas. Mas na minha cidade, Minas Gerais, que tem 400 mil habitantes, jamais haveria hipótese de criar uma casa de swing, porque ninguém teria coragem de a frequentar, porque as pessoas sabem que iria haver preconceito e discriminação. Porque a prática é muito estigmatizada, encarada como desviante, como uma patologia. Por estar relacionada com a sexualidade, as pessoas tendem a achar que estará associada a outros desvios de conduta, que aquelas pessoas devem usar drogas, ser alcoólicas, ter tido problemas na infância. Tende-se a esconder, para proteger a reputação social e profissional. As pessoas ficam muito chocadas quando percebem que quem está ali dentro pode ser uma irmã, os pais, os colegas de trabalho.

Foi complicado conseguir entrar no circuito dos clubes de swing? Aqui em Portugal, a comunidade swinger é muito fechada. A primeira coisa que fiz foi ir ao Google e escrever: swing em Portugal, casas de swing em Portugal. Não achei nenhum clube com página na internet, com programação ou morada, ao contrário do que acontece em Espanha, França ou mesmo no Brasil. Aqui a forma normal de se entrar é registando-se numa comunidade swinger online, onde se começa a conversar com outros casais, criando um vínculo e confiança, e depois esse casal convida para ir a um clube. Quando fiz a pesquisa havia onze clubes em Portugal, seis na região de Lisboa. É uma comunidade que se conhece. Se for ao mesmo clube vai encontrar muitas vezes os mesmos casais e talvez você possa até não se envolver com eles sexualmente, por falta de interesse ou de empatia. Mas pode envolver-se para sair, para jantar.

Que tipo de casais encontrou? Normalmente são casais em que as mulheres têm acima dos 30/35 anos e os homens acima dos 40/45, já casados há algum tempo e com filhos. Têm um nível intelectual elevado, ocupam cargos profissionais respeitados, como médicos, advogados, professores universitários. São pessoas que viajaram, que tiveram acesso a bens culturais e materiais e a possibilidade de conhecer este tipo de coisa.

À partida pensar-se-ia que os swingers portugueses seriam pessoas liberais, mas o livro apresenta uma perspetiva mais ambivalente. É um ambiente paradoxal, às vezes difícil de entender. Muitos swingers portugueses foram educados, pelo menos até ao início da adolescência, sob o regime do Estado Novo. Algumas das minhas entrevistadas são pessoas que se casaram na igreja vestidas de branco, com toda aquela coisa que a família exigia. Mulheres que se casaram virgens, para quem o marido fora o único parceiro sexual, e estes muitas vezes haviam tido poucas experiências sexuais. São pessoas que de forma alguma imaginaríamos que fariam isso. Foram educadas, pelo menos até determinado momento, com valores e regras rígidas e conservadoras, que começaram por reproduzir na sua vida conjugal mas depois  perceberam que não condiziam com as suas vontades e desejos.

Que regras são essas que existem no swing? A principal regra de conduta é: não significa não. Se um casal se interessou por outro e este não quer, isso pode ser demonstrado só pelo olhar. Ou, por exemplo, se um casal está a passar, outro lhes passa a mão pelo ombro, como um sinal, e eles desviam o ombro para o lado, em rejeição, não se insiste. Outra regra é ser normalmente a mulher a abordar a outra mulher do casal e isso ser feito de preferência quando ambos os membros do casal estejam juntos. Se decidem entrar para um quarto privado, combinam antes o que podem e o que não podem fazer. Por exemplo, alguns casais não permitem a penetração - e isso deve ser deixado claro. Nas casas que permitem a entrada de homens sozinhos, estes nunca devem abordar o casal, deve ser o contrário, o casal a abordá-lo. É claro que há regras que são mais cumpridas do que outras. Mas normalmente são regras que todos conhecem. Muita gente não sabe disso, mas muitas pessoas vão a uma casa de swing e não praticam atos sexuais, não se envolvem com outras pessoas. Vão porque ficam mais à vontade naquele ambiente, para beber e para conversar. Ou, no caso de muitas mulheres, porque gostam de se vestir e de dançar de uma forma mais sensual.

"Onde tudo é permitido e nada é obrigatório" é um dos lemas. É mesmo assim? Os próprios swingers estão sempre a repeti-lo - para mostrar que embora seja um ambiente de liberdade para as pessoas satisfazerem as suas fantasias sexuais, ninguém é obrigado a nada -, mas na verdade existem tabus. Práticas de homossexualidade masculina são um tabu ali dentro. Se isso acontecer, todos os outros homens consideram que ele é gay e sentem-se ameaçados na sua heterossexualidade e masculinidade. É engraçado: todos os casais que entrevistei conhecem alguém que já fez, todos sabem de pessoas que fazem - mas nunca eles próprios e sempre escondido. Já no caso das mulheres, é o contrário: o envolvimento sexual entre duas mulheres é incentivado pelo marido e pelo meio. Acontece de forma muito natural em todos os ambientes da casa e ninguém coloca em dúvida a heterossexualidade da mulher.

O modelo parece ir ao encontro de fantasias sexuais masculinas. As regras são determinadas mais pelo desejo dos homens heterossexuais? O swing é um universo muito ambíguo e paradoxal. Se o homem e a mulher não são regidos por valores mais conservadores, encontram no swing um ambiente com uma liberdade muito grande. Mas ocorrem nitidamente ali reproduções desse modelo patriarcal, desse modelo da heterossexualidade masculina dominante. Ouvi muito dizer que metade das mulheres estão ali por insistência masculina, o que é nitidamente uma dominação masculina. Mas percebi também, através de pessoas que me contactaram por email ou pelo Facebook, que muitas mulheres, solteiras ou casadas, encontram ali um meio de liberdade e de conhecer a sua sexualidade, os seus prazeres, que nunca tiveram fora do swing. Mesmo nessa questão do envolvimento entre duas mulheres, ainda que, talvez na maioria das vezes, comece por ser para  satisfazer o desejo do marido. Mas elas continuam a envolver-se depois com outras mulheres, porque descobriram que aquilo dá prazer. É uma faca de dois gumes. Diz-se que o casal contemporâneo é mais igualitário, mais equilibrado. Tanto o homem como a mulher trabalham, pelo que ambos têm autonomia e independência. Esse tipo de casal consegue viver de uma forma muito equilibrada no swing, sem reproduzir estereótipos ou esses machismos. Mas o casal que já é assim fora do swing, vai lá encontrar um ambiente para reproduzir esse modelo.

O swing procura conjugar a manutenção da relação conjugal com uma perspetiva mais consumista, da busca pela novidade? Eu diria hedonista. Acho que é uma tentativa de encontrar um equilíbrio entre padrões e modelos conservadores e desejos e vontades conjugais hedonistas, do prazer e de maior liberdade. Eu vejo no swing um casal mais próximo do amor romântico - do querer estar sempre com o outro e para o resto da vida - do que o que acontece num relacionamento poliamoroso ou nas relações abertas. Porque no swing procura-se um envolvimento com terceiros apenas a nível sexual. Eles deixam muito claro que emocionalmente apenas se envolvem com o parceiro, que com os outros procuram não desenvolver carinho ou amor. O que é muito interessante no swing é que este envolvimento com os outros é uma forma de melhorar o relacionamento central, que é sempre o eixo, sempre o principal. Os outros que entram nesse relacionamento é sempre para que o resultado e o efeito seja nesse casal principal.

. No swing, casais heterossexuais estáveis mantêm relações sexuais com outros casais ou com pessoas solteiras na companhia e com o consentimento do parceiro · Exibicionismo, voyeurismo, mènage à trois, soft swing, hard swing e sexo grupal são as principais práticas · O hard swing é o menos praticado. Alguns dos casais vão aos clubes sobretudo para aumentar o seu nível de excitação, acabando por só se envolverem sexualmente com o respetivo parceiro após terem regressado a casa · Os casais entrevistados na investigação consideram o swing um estilo ou mesmo uma filosofia de vida · Os motivos principais para o abandono da prática são, segundo um estudo do sociólogo Duana Denfeld: ciúme (24%), culpa (15%), ameaça ao casamento (15%), desenvolvimento de laços externos (12%), tédio com o swing (11%), deceção com o swing (7%), divórcio ou separação (6%), incapacidade da esposa em lidar com o swing (6%), medo de ser descoberto (3%) · O primeiro clube de swing português terá surgido no início da década de 1990 na zona de São Bento, em Lisboa (segundo os entrevistados e os sites especializados consultados pela antropóloga) · Existem poucos dados relativos ao swing em Portugal. As indicações recolhidas pela investigadora sobre o número de praticantes em Portugal apresentam enorme disparidade: entre 2000 e 7500 casais · O XClube - o maior do país, de acordo com os proprietários - referiu ter recebido 3500 membros ao longo dos seus sete anos de funcionamento · Existiam onze clubes em 2013: seis na região de Lisboa (Divinus, na Aroeira), (XClube, Lisboa), (Lybidus, Alverca), (Glamour, Albarraque), (Heaven, Albarraque) ,(Erotikus, Sintra), três na região do Porto (Intimidades, Chez Tolib e Private Prestige) e dois no centro do país (Sensualidades, na Tocha; e 2@2, em Condeixa). A investigadora não encontrou indicação de qualquer clube no sul do país · A SwPt - cujos moderadores afirmam ser a maior comunidade virtual liberal na Península Ibérica - possui 3300 membros com contas de acesso certificadas que se mantém ativos. 95% são casais, 2,7% singles femininas e 2,3% singles masculinos, nem todos necessariamente swinger. 45% dos registos são da grande Lisboa · Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França e Japão serão os países com mais clubes de swing, segundo os sociólogos Curtis Bergstrand e Jennifer Sinski. · Nas Caraíbas existem resorts destinados exclusivamente a swingers · Na Europa o destino mais procurado pelos swingers é a França, nomeadamente a vila naturista Cap d'Agde, no sul do país · As atividades relacionadas com o swing, como a criação de clubes, viagens, anúncios e páginas da internet correspondem a 14% da faturação da indústria do sexo - cerca de 1100 milhões de euros por ano, segundo o economista Fabio D'Orlando.