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Papa recebe livros de outro jesuíta ousado. António Vieira chega esta quarta-feira ao Vaticano

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Papa Francisco completa dois anos de Pontificado no próximo dia 13

Reuters

Dez dias antes de Francisco completar o segundo ano de Pontificado, viajam para Roma os 30 volumes da obra completa de um outro jesuíta justo e destemido. O reitor da Universidade de Lisboa vai oferecer ao Papa a obra de António Vieira. O Papa Emérito e o Papa Negro também receberão os seus 30 exemplares...

Pelas 8h15 desta quarta-feira, o reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra, e o investigador José Eduardo Franco, um dos coordenadores da edição da obra completa do jesuíta António Vieira, estão no Vaticano para oferecer os 30 volumes da obra completa de um dos dois mais famosos pregadores portugueses a Jorge Bergoglio, o jesuíta argentino que escolheu o nome de Francisco para a sua missão de chefe da Igreja Católica.

António Nóvoa, reitor emérito da Universidade de Lisboa, também integra esta 'embaixada' cultural portuguesa de 12 pessoas. "Há muitos pontos de contacto entre o Papa Francisco e António Vieira: são ambos jesuítas, frontais, destemidos", diz José Eduardo Franco ao Expresso, lembrando que Vieira viveu em Roma entre 1669 e 1675, no tempo do Papa Clemente X. "Os italianos ficaram encantados com ele. Os seus sermões em Roma tiveram impacto, foi aí que conheceu a rainha Cristina da Suécia" e só não aceitou ser 'seu' pregador porque tinha sido pregador real no tempo de D. João IV.

Depois da morte do rei que restituiu a soberania a Portugal, Vieira caiu em desgraça. Foi detido pela Inquisição, "mas conseguiu um indulto papal para ir a Roma", lembra Franco. A estada em Roma foi uma vitória para ele, "porque só regressa a Portugal depois de conseguir que o Papa suspendessse a Inquisição por um período de sete anos, para estudar uma reforma" do Santo Ofício. 

Sabe quem é o Papa Negro? Inácio de Loyola foi o primeiro Papa Negro; entre 1541 e 1546 desempenhou as funções de Superior Geral da Companhia de Jesus, o homem que é eleito pela Congregação Geral para 'mandar' em toda a Ordem dos Jesuítas, passa a viver em Roma, por direito de função. O poder de que está investido o chefe dos Jesuítas, e a batina preta, fazem com que este religioso também seja conhecido por Papa Negro. O atual Papa Negro é espanhol e chama-se Adolfo Nicolás. 

O reitor Cruz Serra, José Eduardo Franco, António Nóvoa e restante comitiva portuguesa vão oferecer 30 volumes da obra completa de Vieira ao Papa Emérito Bento XVI e, outros 30, ao Papa Negro, Adolfo Nicolás.

José Eduardo Franco, um dos coordenadores da edição da obra completa do Padre António Vieira, fotografado junto dos 30 volumes

José Eduardo Franco, um dos coordenadores da edição da obra completa do Padre António Vieira, fotografado junto dos 30 volumes

José Ventura

Mais tarde, às 18h00 locais [17h em Lisboa], Carlos Azevedo, bispo titular de Belali e delegado pontifício para o Conselho da Cultura, vai apresentar a obra completa do padre António Vieira é apresentada na igreja de Santo António dos Portugueses, onde Vieira pregou há quase quatro séculos.

O organista titular da igreja, Giampaolo di Rosa, fará alguns apontamentos musicais, e serão recitadas passagens dos sermões italianos de Vieira.

Vida e obra do 'imperador' dos oprimidos Vieira abdicou do salário a que tinha direito pelo exercício da nobre função em favor do sustento das Missões dos Índios do Maranhão e do Pará. Na opinião de José Eduardo Franco, os textos escritos há 400 anos "ainda revelam uma grande atualidade; por exemplo, no plano da sua reflexão sobre os Direitos Humanos, a paz, o ecumenismo, a crítica à corrupção, o diagnóstico que faz aos problemas estruturais perenes de Portugal, as soluções que apresenta para tornar o nosso país mais empreendedor, assim como a sua crítica às instituições de bloqueio do nosso progresso como foi o caso da Inquisição, além da análise certeira que realizou à mentalidade atávica portuguesa, como a inveja, a maledicência sistemática e a falta de incentivo político e social aos portugueses com talento e mérito, que muitas vezes têm de sair da sua pátria para encontrar reconhecimento e espaço para pôr a render as suas competências".

 

Papa Francisco

Papa Francisco

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Franco lembra ainda que "Vieira foi um empreendedor que tinha ideias claras e propostas concretas para operar reformas sociais e, acima de tudo, na mentalidade portuguesa, na sua dimensão mais imobilista que afetava negativamente as lideranças institucionais e políticas do nosso país;  lamentava-se de que sempre que alguém em Portugal tentava fazer obra grande vinham logo as vozes da derrota maquinar para abatê-la.

Tal como Francisco... Vieira era um jesuíta do mundo Jorge Berglglio, o Papa Francisco, é um homem afável, que aprecia os pequenos prazeres da vida como andar de bicicleta e ir ao futebol. Defende a paz, o diálogo social, e tem dito e redito que um dos maiores desafios do mundo atual é a recusa firme de um modelo económico que exclui os mais fracos e promove a desigualdade social: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social".

Quatro séculos antes, Vieira criticou a inveja e a corrupção, como grandes males do mundo. No sermão de Santo Santo António aos Peixes - cujo título os portugueses tão bem conhecem - Vieira denunciou a corrupção, "os protocolos feudais que aprisionavam as nossas instituições, contrapondo que a verdadeira fidalguia está na ação; criticava a desvalorização que é feita em Portugal dos seus talentos e dos seus valores, sendo mais fácil quem nasce nesta terra encontrar reconhecimento e valorização no estrangeiro; acusava a mesquinhez e a maledicência sistemática que dificulta e desestimula quem empreende e faz o que deve ser feito". Este sermão foi pregado no Brasil, em São Luís do Maranhão em 1654.